sábado, 22 de outubro de 2011

"Portugal" de Alexandre O' Neill

"Nem só de mar é feita a minha praia
a vaga vaga que vem vindo enquanto viva
e que fica na página na forma de palavra
palavra fotográfica de coisas
e condição de paz de pensamentos
Pedra a pedra construo o meu poema
e é nele que dos dias me defendo
Nada sei de emoções manipulo morfemas
e nas cidades sinto a solidão dos campos
Humano mesmo se demasiado humano
não peço ou posso privilégios de poetas
e desconheço a carne cerebral de que careço nos
sonhos que me semeiam as semanas
cingidas de cidades sossegadas
onde só o silêncio é soberano
À arte dou o que devia à vida
vida que vai por mim contaminada
vida do largo da areia e do vento
Que as minhas palavras firam fundo."

Ruy Belo in "Pequena História Trágico-Terrestre"

"Não sei nada"

"Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu - eu e os meus irmãos - sei em que medida sou eu que sou domado por elas. A iniciativa pertence-lhes. São elas que conduzem o meu trenó sem chicote, sem rédeas, nem caminho determinado antes da grande aventura.
Sim. Conheço as palavras. Tenho um vocabulário próprio. O que sofri, o que vim a saber com muito esforço fez inchar, rolar umas sobre as outras as palavras. As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soltar. São pesadas e caem. São o contrário dos pássaros, embora «pássaro» seja uma das palavras. A minha vida passou para o dicionário que sou. A vida não interessa. Alguém que me procure tem de começar - e de se ficar - pelas palavras. Através das várias relações de vizinhança, entre elas estabelecidas no poema, talvez venha a saber alguma coisa. Até não saber nada, como eu não sei."

Ruy Belo in "Homem de Palavras(s)"

domingo, 2 de outubro de 2011

"Oh ! Que fogo devorador me corre nas veias, quando, por acaso, um dedo meu toca nos dela, ou quando os nossos pés se encontram por debaixo da mesa ! E, apesar de fugir logo com eles, como de um braseiro ardente, uma força secreta me obriga a chegá-los novamente, numa vertigem que se apodera de todos os meus sentidos ! Oh ! A sua inocência, a sua alma ingénua não sente o que estas pequenas intimidades me torturam ! E se, durante a conversa, ela pousa a sua na minha mão, ou, no interesse do diálogo, se aproxima de mim, bafejando-me o rosto com o seu delicioso hálito, parece-me que vou cair aniquilado, como que ferido por um raio ...
(...)
Junto dela perco toda a consciência de mim próprio ... é como se a minha alma se me espalhasse pelos nervos.
Há uma melodia que ela costuma tocar no cravo, com alma de anjo. Tão simples, tão espiritual ! É a sua canção predilecta. Mal ataca a primeira nota, sobre Orfeu, inquietações, mágoas e cuidados, tudo se desvanece para mim.
Nenhum dos mágicos prodígios atribuídos à música me parece inverosímil, por isso que tanto me enleva e encanta aquele tão simples trecho. E como ela sabe tocá-lo ..."

J.W. Goethe in "Werther"