domingo, 27 de novembro de 2011

Morte pelo Perfume

No final do século X, período em que floresceu a mais requintada literatura no Japão, destacaram-se algumas vozes femininas com contos extraordinários, romances profundos, poesia imortal e erotismo. Este conto foi escrito na Corte de Heian pela dama Onogoro:

"Houve uma vez um cortesão infiel que enganou a sua amante com três mulheres diferentes numa noite. Uma das mulheres, criada da senhora, confessou-lho a chorar, e esta, que já estava farta das asneiras do seu amante, concebeu um plano para se ver livre dele.
Na visita seguinte do cortesão, ela pediu-lhe, fingindo uma atitude meiga e confiante, que a acompanhasse até ao quarto onde se misturavam os perfumes, com o pretexto de fazerem um aroma que fosse exclusivo deles. O cortesão, que se vangloriava de ser um conhecedor da arte dos perfumistas, seguiu-a ansiosamente até ao quarto de mármore onde ferviam os recipientes das misturas, longas tiras de folhas de angélica secavam penduradas e pétalas de primavera nocturna entregavam os seus óleos sob a pressão de grandes pranchas de ferro.
Nunca dantes o cortesão cheirara tanta confluência de aromas e as suas narinas estremeceram com a harmonia de ervilhas e violetas, de madressilva e bálsamo de limão e jacinto silvestre. Ao passar junto do almofariz tirou com os dedos uma pitada de noz-moscada em pó e cravinho e esmagou os cristais da casca da árvore da cânfora, declamando, enquanto fazia isto, os bocados de poemas que lhe pareciam relevantes, porque, há que dizê-lo, tudo o que conseguia recordar eram bocados.
Escondendo o seu desprezo perante tanta auto-complacência a dama abraçou o seu amante com paixão e prometeu-lhe uma sensação inteiramente nova. Intrigado, o cortesão foi facilmente persuadido a tirar a roupa e deitar-se numa túnica que a sua amante colocara no chão.
A dama começou com gotas de lírio e cravo-de-cheiro nas têmporas do cortesão e prosseguiu em direcção à suave depressão na base do pescoço, que recebeu a potente essência de calêndula. Sob as axilas pôs mil-em-rama e genciana e continuou com as suas gentis atenções até ter distribuído as fragrâncias por todo o corpo extasiado do amante.
No entanto, o que a dama sabia era que, da mesma forma que um excesso de yin se transforma no princípio yang oposto, assim também certas doses de essências de flores curativas e estimulantes podem adquirir um aspecto negativo.
Inclinou mais uma vez os seus frascos sobre o corpo do cortesão e a mostarda mergulhou o seu amante numa profunda melancolia sem origem, a mimosa encheu-o de medo da doença e suas consequências, o pinheiro lariço convenceu-o do fracasso, o azevinho aguilhoou o seu coração com enormes ciúmes e a madressilva trouxe lágrimas de saudades aos seus olhos.
A urze, acrescentada em determinada proporção secreta, exagerou até ao extremo os desgostos mais mínimos, o zimbro desanimou-o, a climátide atordoou-o, o olmo sufocou-o com deficiências e a maçã silvestre convenceu-o de que era impuro. O botão de castanha provocou-lhe a recordação compulsiva dos seus muitos erros, e o salgueiro causou-lhe ressentimento pela boa sorte dos outros, o álamo fê-lo suar e tremer de vagas apreensões e a cerejeira convenceu-o de que a sua mente tinha falhas, a rosa silvestre resignou-o à apatia, de forma que já nem se preocupava se vivia ou se morria, mas preferiria, de uma vez por todas, a última hipótese.
Satisfeita por o ter preparado até este ponto, a dama deu mais dois toques de maçã silvestre nas têmporas para exacerbar o ódio de si próprio. Cheio de desprezo por si mesmo, o amante suplicou que lhe desse uma dose fatal para assim pagar todos os seus crimes contra ela. A dama vendo o cortesão vencido nos seus braços, teve piedade do seu tormento e pôs-lhe uma gota de acónito na língua impaciente. E assim morreu o amante infiel, nu e aliviado, e desde a morte do próprio Príncipe Luminoso que não houve outro corpo tão fragrante no seu funeral."

sábado, 19 de novembro de 2011

Razão tinha Shakespeare quando escreveu no Mercador de Veneza: "O homem que não tem música dentro de si nem se comove com a concórdia de sons melodiosos está destinado às prisões, estratagemas e rapinas. Os movimentos da sua alma são baços como a noite e as suas afeições escuras como as trevas do Inferno. Que ninguém confie em semelhante homem."

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

"Os gourmets, capazes de escolher os pratos em francês de uma ementa e discutir sobre vinhos com o sommelier, inspiram respeito às mulheres, respeito que pode transformar-se com facilidade em voraz apetite amoroso. Não conseguimos resistir aos que sabem cozinhar. Não me refiro a esses desajeitados ataviados com um gorro histriónico, que se declaram especialistas e com grandes gestos chamuscam uma salsicha na grelha do pátio; mas sim aos epicuristas que escolhem amorosamente os ingredientes mais frescos e sensuais, que os preparam com arte e os oferecem como um presente para os sentidos e para a alma; esses homens com classe para abrir uma garrafa, cheirar o vinho e vertê-lo primeiro no nosso copo para que o provemos, enquanto descrevem os sucos, a cor, a suavidade, o aroma e a textura do filet mignon no tom que, julgamos nós, utilizarão depois para se referirem aos nossos encantos. Esses homens, pensamos, terão necessariamente todos os sentidos afinados, incluindo o do humor."

Isabel Allende in "Afrodite"

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Luar

"Apenas o luar chegou,
desfez-se em asas no ar.
E toda a noite levou
a regressar devagar ...

Em noites alvas, de lua,
não há nudez com vergonha.
À luz do luar, o barro
é o mármore com que sonha.

À luz do luar, as aves
nocturnas, breves, enlanguescem
e, ao seu crepúsculo da sombra,
mortas de sonho adormecem ...

Os silêncios do luar são
além de notas agudas,
são gritos paralisados
em rictos de bocas mudas!

O luar rouba ao escuro
o que de dia é segredo.
À luz do luar podemos
ver respirar o arvoredo ...

Canção ouvida ao luar
não terá ritmos perdidos
-é som vivendo no olhar
-luz que fica nos ouvidos.

À luz do luar a água
soluça todas as dores,
que à luz do luar a água
tem na cor todas as cores.

Para se ouvir, da paisagem,
as baladas de que é tema,
a luz do luar é como
o silêncio no cinema...

A fantasia do luar,
com transparências, neblinas,
ressurge as cidades mortas,
desfaz as vivas em ruínas.

Exposta ao sol uma cruz
é Jesus ensanguentado.
Mas, à luz do luar exposta,
é Jesus aureolado!

Ó luar, em gestos de ramos
e ritmos da aragem leve,
compondo bailados de anjos
entre cenários de neve!

Luar! ó íman dos longes,
com magias de holofote,
para eu ver minha sombra
a desenhar D.Quixote!

Ó luar no meu olfacto
-aroma de violetas...
breve em meu olhar:-varandas
de Romeus e Julietas...

Luar do mar todo em franjas,
às brisas numa baía
-quero embarcar nos teus barcos
de soturna fantasia!

Luar da contradição,
com luz de todo o momento,
a dar mais corpo e mais alma
a um e outro elemento!

Sagrado luar velando
a cor do meu realismo.
E, humano, colorindo
a face ao meu romantismo...

Luar! Quando cerro os olhos
és lá doçuras de bruma,
como, nos olhos dum cego,
carícias brancas de pluma!..."

Edmundo de Bettencourt in "O Momento e a Legenda"

terça-feira, 1 de novembro de 2011

"Histórias de Jazz"


Um par de horas bem passado, "ouvelendo" jazz e bebendo um praliné de amêndoa e noz! ;)

"Alguns sons emergiram de raízes profundas, que se perdem no tempo e nas almas, desde o canto ecoando nos campos, ao júbilo dourado dos metais. E era jazz.
Também o marfim e o ébano se misturaram aos sincopados tambores, em digressões de sonho e espontaneidade, no claro-escuro dos clubes míticos, nas cidades impregnadas de agitação e ritmo, ora quente, ora frio, mas sempre no coração do sentimento. E era swing.
Outra vez ressoou a voz do lamento e do piano, repetindo as frases até se transformarem em infinitas variações do mesmo desejo. E eram blues.
No entanto, continuaram nos palcos as grandes orquestras de sopros brilhantes e as figuras que cantaram um lugar também maravilhoso. E era cool.
Já universal, já nosso, em acorde de grito e liberdade, o jazz vibrou numa festa de cores."