sábado, 21 de abril de 2012

O Movimento da Obsessão

"Sigo a corrente contínua da inspiração. Os rios,
como o poeta, demoram-se nas pontes abstractas do poema.

Tenho um processo convulso de composição. São vastos e árduos
os meus domínios. Li as insólitas escritas dos místicos. Dei-me a um exercício
inquieto - reconstruir estados de alma, variações do rosto, a própria
direcção de um olhar. Foi assim que perdi a fé. O equilíbrio excessivo
do sofrimento evitou-me a dúvida. Conheci pintores e poetas. Vi
os crepúsculos indecisos de França. Vi Poitiers de uma janela de comboio. Comi
na Acrópole com Charrin e os gregos. Vi Luis Borges, à chuva, recitando
Verlaine junto à Source. Respeitei o sentido unívoco
da pontuação. Guardo as minhas obscuras
esperanças num cálice papoulado de gin.

Amei a cor trágica dos dogmas, a tonalidade visionária
das astrologias. Elogio uma arte durável, uma estética incompreensível.

Ouvir-me-eis acaso ó menos surdos? Nasço na embriaguez dramática
dos ecos irrepetíveis. Bebo estrelas às golfadas. Ao diabo os sentidos
simbólicos, as metáforas vegetais, os lirismos desalterados! o poema
é uma enumeração de lugares, uma experiência do mito, a constatação
do absoluto!"
(...)

Nuno Júdice  em "A Noção de Poema" [1972]

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