domingo, 6 de maio de 2012

Canto do Ecocardiograma

"Dialogo com o mar, que sempre soa
para quem carnalmente habita a costa,
neste habitar de raiz que inclui
nascimentos e mortes de parentes,
ouvintes todos por adaptação
da espécie à ondulação dos tímpanos.
Depois, ouvir o mar seria
como escutar um hino, como ouvir
as abelhas no louvor do Sol.
Também chilreia a água na bonança,
na maré viva bate, como bate
o meu sangue no ecocardiograma.
Soube assim que a água do meu corpo
se harmoniza com a água do mar
de acordo com o Ritmo que nos rege.
O aparelho soa e avassala
os meus dois ouvidos com o fragor
deste meu coração que soa a onda
ou a regato forte que embate
em pedras certas. Enfim, o mar
humilha-me e engrandece-me, pois eu era
poeta apenas, e desejei apenas
beber o mar num verso
expresso em micro-sons.
Nunca mais me esqueço desse fluxo
que ouvi correr e pulsar fora de mim,
e suponho que os ecos primordiais
são semelhantes, mas diversos, pois
só por minutos o meu inteiro som
é regular no Tempo
que sempre é sem tempo."

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)

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