terça-feira, 15 de maio de 2012

Para que esse autor regresse

"Veio uma época de perturbação: os valores, o clima, o equilíbrio das almas ... Até o escritor, quando pretendia exercer o seu trabalho de análise ou criação, encontrava perante ele as insuperáveis dificuldades da névoa, a indecisão do discurso, a pobreza de ideias (de ideais). A sua intervenção tornou-se pobre e difícil. Mas não desesperou. É ele quem, dia após dia, tenta renascer, ou procura apenas que, num instante súbito, o antigo génio regresse em pleno ao coração da página. Tornou-se lírico; mas preferia que o espírito da prosa o voltasse a iluminar.
Citou, para consigo próprio, casos terríveis como exemplo e frustração. A decadência, que nesses casos assumira as formas extremas da humilhação ou da loucura, tirava-lhe o ânimo. Só ao ouvir certos passos das obras ignoradas dos antigos mestres de música sentia um novo sopro aquecer-lhe a inspiração. Levantava-se do torpor, agitava o corpo, a cabeça. Mas nem isso lhe foi suficiente. Em conversas, falando com estranhos ou conhecidos, estes assuntos desapareciam: substituídos pelas coisas banais e quotidianas, ou pela política. Mas pouco a pouco, enquanto o ambiente escurecia com a proximidade do inverno, e a necessidade de colocar novas e mais temíveis máscaras surgia, as bocas torciam-se em risos despropositados, e as palavras perdiam os seus sentidos imediatos para se sobreporem a indicações precisas e coincidentes na direcção de uma definitiva queda.
Não vos volteis para o abismo, ó poetas. O brilho apaga-se na palma das mãos, e o génio não exerce o seu poderoso fascínio sobre as multidões amortecidas. Por que regressais ao vazio, ao refúgio em nada? Acaso não são estes os dias da exaltação e do medo? Dizem-me que de nada serve o perdido gesto pelo fogo ... mas - e a vida artificial do olhar? Os relâmpagos da pulsação? A sangrenta epopeia das reticências?"


Nuno Júdice  em "Nos Braços da Exígua Luz"  [1976]

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