quinta-feira, 7 de junho de 2012

Princípio de Retórica

"Na música, a perfeição tem o nome de
harmonia; pelo menos na estética clássica,
cujo cânone obedece às leis da natureza. Na
poesia, porém, essa regra nem sempre se
verifica; e ver-se-á, na análise do poema,
a dissonância entre as palavras e o mundo
quebrar a vontade da beleza, e trazer
de volta a inquietação do inacabado, ou
do que nunca chega a começar. Isto não quer dizer
que a poesia não tenha música, nem que
do contacto entre ambas não surja um efeito
que o espírito apreende com emoção. Um
desenho de circunferência envolve o triângulo
de que o último vértice é o sentimento
resultante do equilíbrio entre o som
e o sentido. Não há aqui repetição, mas a nostalgia
do único, um arquétipo que se confunde com a imagem
inscrita no fundo da memória, de que todas
as outras constituem o reflexo degradado. O verso,
porém, não faz senão romper essa totalidade,
lembrando na insistência da sílaba a
pura impossibilidade do regresso; e na matéria
verbal da estrofe encontro, mais do que
o presente, um rosto usado
como a amor que me obriga ao passado."

Nuno Júdice  em "As Regras da Perspectiva"  [1990]

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