sexta-feira, 20 de julho de 2012

O Poeta

"Trabalha agora na importação e exportação. Importa
metáforas, exporta alegorias. Podia ser um trabalhador por conta própria,
um desses que preenche cadernos de folha azul com números
de deve e haver. De facto, o que deve são palavras; e o que tem
é esse vazio de frases que lhe acontece quando se encosta
ao vidro, no inverno, e a chuva cai do outro lado. Então, pensa
que poderia importar o sol e exportar as nuvens. Poderia ser
um trabalhador do tempo. Mas, de certo modo, a sua
prática confunde-se com a de um escultor do movimento. Fere,
com a pedra do instante, o que passa a caminho da eternidade;
suspende o gesto que sonha o céu; e fixa, na dureza da noite,
o bater de asas, o azul, a sábia interrupção da morte."

Nuno Júdice em  "Teoria Geral do Sentimento" [1999]

1 comentário:

António Brandão disse...

Muito bonito. Numa primeira leitura, menos atenta, parece apenas um jogo de palavras sem aquela harmonia que tantas vezes se procura na poesia. Mas quando começamos a alcançar o (nosso) sentido...

A poesia para mim continua a ser um mistério. Tantas e tantas vezes foi peciso esbarrar com ela até fazer mossa. Logo eu.

AB