terça-feira, 14 de agosto de 2012

Li "A Ignorância" de Milan Kundera e ...

Neste romance de carácter introspectivo, o autor aborda directamente o problema da emigração do Leste Europeu antes e após o terminus da Guerra Fria, em Novembro de 1989.

Fala-se de nostalgia, de memória, de desenraizamento e enfraquecimento dos vínculos sociais em relação ao local de origem, principalmente quando se trata de refugiados políticos.
No entanto, a distância esmorece os laços familiares e deparamo-nos, por um lado, com um certo ressentimento por parte de quem fica e, por outro lado, com uma constante frustração em não conseguir relatar a própria odisseia, por parte de quem regressa.
A ausência de perguntas em relação aos anos passados fora do país é uma constante e tudo conspira para a destruição progressiva da vontade de voltar.
Ou seja, nesta obra o exílio é retratado não do modo como o entendemos, mas sim como um exílio que se segue ao exílio: o exílio que se vive depois que se decide voltar, o exílio de si mesmo, dentro de si mesmo, no interior de casa.

Interessante a forma como Kundera "subverteu" a noção de nostalgia:

"O regresso, em grego, diz-se nostos. Algos significa sofrimento. A nostalgia é portanto o sofrimento causado pelo desejo insatisfeito de regressar. Para esta noção fundamental, a maior parte dos Europeus pode utilizar uma palavra de origem grega (nostalgia) e, além disso, outras palavras com raízes na sua língua nacional: añoranza, dizem os Espanhóis; saudade, dizem os Portugueses.
(...)
Em espanhol, añoranza vem do verbo añorar (ter nostalgia), que vem do catalão enyorar, derivado, por seu turno, da palavra latina ignorare (ignorar). A este luz etimológica, a nostalgia aparece como o sofrimento da ignorância. Tu estás longe, e eu não sei o que te acontece. O meu país está longe, e não sei o que lá se passa."

O escritor relembra então a etimologia da palavra, que em sua origem grega remete ao sofrimento causado pelo desejo irrealizado de retornar. Esse sentimento liga-se também à ignorância. Só há nostalgia daquilo de que não temos mais notícia.

Gostei deste livro. E, para não variar, gostei uma vez mais das dissertações psico-filosóficas de Milan Kundera. Da sua imprevisibilidade. Da sua intelectualidade refinada. ;)

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