domingo, 11 de novembro de 2012

"O Amor, Meu Amor"

"Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.
 
Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.
 
E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.
 
E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.
 
Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.
 
Pudesse eu ser tu
e em tua saudade ser a minha própria espera.
 
Mas eu deito-me em teu leito
quando apenas queria dormir em ti.
 
E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.
 
E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.
 
Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar."
 
Mia Couto

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