domingo, 18 de março de 2012

"Mas há uma outra causa à qual eu prefiro, para acabar , atribuir esta predilecção dos grandes espíritos pelas obras antigas. É que eles não têm somente para nós, como as obras contemporâneas, a beleza que aí soube pôr o espírito que as criou. Eles recebem uma outra ainda mais comovente, pela qual a sua própria matéria, quero dizer a língua em que foram criadas, é como um espelho da vida.
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Porque eles contêm todas as belas formas de linguagem abolidas que conservam a lembrança de usos ou de maneiras de sentir que já existem, marcas persistentes do passado com que nada do presente se parece e cujo tempo, ao passar sobre elas, se limitou a embelezar ainda mais a cor.
Uma Tragédia de Racine, um volume das memórias de Saint-Simon parecem-se com belas coisas que já não se fazem. A linguagem na qual foram esculpidas por grandes artistas com uma liberdade que faz brilhar a sua doçura e salientar a força inata, comove-nos como a visão de certos mármores, hoje raros, que os operários de outrora utilizavam."

Marcel Proust  em "Sobre a leitura"