segunda-feira, 30 de abril de 2012

Receita para fazer o azul

"Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz - eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé - e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu."

Nuno Júdice em "Meditação sobre Ruínas" [1994]

sábado, 21 de abril de 2012

O Movimento da Obsessão

"Sigo a corrente contínua da inspiração. Os rios,
como o poeta, demoram-se nas pontes abstractas do poema.

Tenho um processo convulso de composição. São vastos e árduos
os meus domínios. Li as insólitas escritas dos místicos. Dei-me a um exercício
inquieto - reconstruir estados de alma, variações do rosto, a própria
direcção de um olhar. Foi assim que perdi a fé. O equilíbrio excessivo
do sofrimento evitou-me a dúvida. Conheci pintores e poetas. Vi
os crepúsculos indecisos de França. Vi Poitiers de uma janela de comboio. Comi
na Acrópole com Charrin e os gregos. Vi Luis Borges, à chuva, recitando
Verlaine junto à Source. Respeitei o sentido unívoco
da pontuação. Guardo as minhas obscuras
esperanças num cálice papoulado de gin.

Amei a cor trágica dos dogmas, a tonalidade visionária
das astrologias. Elogio uma arte durável, uma estética incompreensível.

Ouvir-me-eis acaso ó menos surdos? Nasço na embriaguez dramática
dos ecos irrepetíveis. Bebo estrelas às golfadas. Ao diabo os sentidos
simbólicos, as metáforas vegetais, os lirismos desalterados! o poema
é uma enumeração de lugares, uma experiência do mito, a constatação
do absoluto!"
(...)

Nuno Júdice  em "A Noção de Poema" [1972]

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A Praia de Tourgeville

«BOUDIN, Eugène - Pintor do ar livre, do céu e do mar, foi o primeiro a procurar fixar os aspectos de constante transformação da natureza.»

"Neste óleo sobre tela, assinado em baixo, à esquerda,
parece-me ver o excessivo amor com que, alguns dias, olho
o horizonte inteiro e as nuvens, como se chovesse, como se o rosto,
sob o peso da humidade, atraísse as suas próprias lágrimas.

Na orla do mar, manchas negras e nítidas, um grupo de mulheres
contempla, em silêncio, em religiosa veneração, a espuma embranquecida
das ondas que rebentam. Não longe de terra, e até à linha das falésias,
a leve impressão do voo das gaivotas, aves marinhas, sombras velozes sobre
o branco escurecido das velas. E o mar, forma enevoada no cinzento
pleno do amanhecer de inverno, atmosferiza em vago e dor o conjunto,
absorve cor, influencia indefinição. Já em terra, no canto inferior
esquerdo, um homem desatola um carro atrelado - e parece imóvel.
Revejo o pintor ao ar livre, pintando este quadro. Procurando,
na rigorosa imobilidade dos tons, o movimento natural da paisagem,
não precisou de psicologia, não recorreu à imaginação e ao sonho,
não imitou - reconstruiu um ambiente, perfilizou um horizonte,
fixou, sem liberdade de técnica, com mobilidade sugerida, a praia
de Tourgeville, o mar. A projecção de impressões sobre o solo, a água,
o céu, a intensidade esbatida da luz, tudo o que é efémero,
aqui encontro - sem contrastes violentos, com solidão descendente.

Na origem, a ausência quase de desenho. A sóbria oposição de umas
a outras manchas, o litoral sem o difícil contorno dos rochedos,
formas extensas e assimétricas - isto é, uma arte intimista que,
recusando o barroco, assume a inteira claridade do seu próprio
desenho, recusa o desígnio e a estética, interessa-se, com sábio
misticismo, pela melancolia e pela tristeza, pela fúria tranquila
da composição, pelo estudo da alma e da paisagem, pela descoberta
da sombra e da cor, pelo movimento da realidade, pela pura alusão."

Nuno Júdice  em "A Noção de Poema" [1972]

quarta-feira, 18 de abril de 2012

De Uma Noite de Tempestade

"A noite, agitada por crescentes tempestades,
como se torna subitamente imensa -,
como se habitualmente estivesse recolhida
nas ínfimas dobras do tempo.
Não acaba onde as estrelas tentam detê-la
nem começa no meio da floresta,
nem no meu semblante
nem na tua forma.
Os candeeiros balbuciam e não sabem:
mentimos luz?
É a noite a única realidade
desde há milhares de anos ..."

Rainer Maria Rilke  em "O Livro das Imagens"

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Pressentimento

"Sou como uma bandeira rodeada de distâncias.
Pressinto os ventos vindouros e tenho de vivê-los,
enquanto as coisas em baixo ainda nem se tocam:
as portas ainda se fecham suaves e há silêncio nas chaminés;
as janelas não vibram ainda e o pó ainda é pesado.

Mas eu já conheço as tempestades e agito-me como o mar.
E estendo-me e afundo-me dentro de mim
e lanço-me à terra e estou completamente só
na tempestade imensa."

Rainer Maria Rilke  em "O Livro das Imagens"

Implorando o sopro (Zunhis)

"Implorando o sopro do ser divino,
o sopro que dá a vida,
o sopro de muita idade,
o sopro das águas,
o sopro das sementes,
o sopro da fecundidade,
o sopro da abundância,
o sopro do poder,
o sopro da força,
o sopro de todas as espécies de sopro,
pedindo o seu sopro,
inspirando o seu sopro no calor do meu corpo,
incorporo o seu sopro
para que vivas sempre luminosamente."

"Poemas Ameríndios - Poemas mudados para Português por Herberto Helder"

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Solidão

"A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios ..."

Rainer Maria Rilke  em "O Livro das Imagens"

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A Criação (Koguis)

"Primeiro era o mar. E tudo estava escuro.
Não havia sol, nem lua, nem pessoas, nem animais, nem plantas.
Apenas o mar estava em toda a parte.

Era a Mãe.
Era água e água em toda a parte,
e era rio, lagoa, cascata e mar,
e estava em toda a parte.
Primeiro era apenas a Mãe.
A Mãe não era gente, nem nada, nem coisa nenhuma.
Era pensamento ou ideia.
Era espírito daquilo que viria,
era pensamento e memória.
A Mãe existiu apenas no mundo mais baixo,
nas profundidades,
só e única.

Então quando a Mãe assim existiu,
formaram-se em cima as terras, os mundos, até onde se encontra agora o nosso mundo.
Eram nove, os mundos, e formaram-se assim:
primeiro era a Mãe e a água e a noite.
Ainda não havia amanhecido.
Também existia um Pai.
Aquela Mãe e aquele Pai tinham um filho.
Mas não era gente, nem nada, nem coisa nenhuma.
Era espírito e pensamento.
Este foi o primeiro mundo, o primeiro sítio, o primeiro instante.

Formou-se então mais acima outro mundo, o segundo mundo.
Havia então um Pai que era um tigre.
Mas não era tigre como animal, era tigre na ideia.

Formou-se então mais acima outro mundo, o terceiro mundo.
E começou a haver pessoas. Mas eram pessoas sem ossos nem força.
Eram como vermes.
Nasceram da Mãe.

Formou-se então o quarto mundo.
Havia duas Mães e um Pai.
Este Pai foi quem primeiro soube como seriam as pessoas do nosso mundo,
foi quem primeiro soube que essas pessoas teriam corpo, braços, pernas, cabeças.

Formou-se então outro mundo e neste mundo estava a Mãe.
Ainda não havia casas, e então formou-se a primeira casa,
não com paus nem cipós nem palha, mas apenas no espírito.
Já havia pessoas, mas faltavam-lhes as orelhas, os olhos, os narizes.
Só tinham pés.
Então a Mãe ordenou que falassem.
Foi a primeira vez que as pessoas falaram,
mas como ainda não existia linguagem, vinham e diziam:
«noite-noite-noite»,
e já havia cinco mundos.

Formou-se então o sexto mundo.
Havia Mãe e Pai.
Começaram a formar um corpo inteiro com braços, pés e cabeça.
Começaram a nascer os Donos do Mundo.
Primeiro foram dois, e o mundo dividiu-se em duas partes, em dois lados:
o Azul e o Negro,
e em cada lado havia nove Donos do Mundo.
Os do Lado Esquerdo eram todos Azuis,
Os do Lado Direito eram todos Negros.

Formou-se então o oitavo mundo.
Havia Mãe e Pai.
Mas quando se formou este mundo, aquilo que a seguir ia viver não estava ainda completo.
Mas estava quase completo.

Ainda existia água em todos os lados.
Ainda não havia amanhecido.

Formou-se então o nono mundo, o nosso mundo.
Mas ainda não havia terra.
Ainda não havia amanhecido."

"Poemas Ameríndios - Poemas mudados para Português por Herberto Helder"