quinta-feira, 31 de maio de 2012

Saturno e os seus anéis

"Que singular capricho
E que vaidade humana
O tem persuadido
A usar no Infinito
Essas jóias tamanhas?

Que imitação terrena
A sua vida expande!
Como pode um planeta
Assemelhar-se tanto
A um mortal qualquer?

Que mistério profundo
Envolve aquele rasgo
De exibição e luxo?
Na amplidão do espaço
Os anéis de Saturno ..."

Cabral do Nascimento [1897-1978]

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Narciso

"Ouço dizer que as águas cantam o amor, correndo,
e que nas suas margens há arbustos debruçando
tristezas profundas. Mas nem as águas nem o vento
nos arbustos me falam de mim; eu, que solitário
me debruço numa ânsia de tocar-me, e o rosto perco
no abismo da superfície; que o segredo que oculto
em mim persigo, num silêncio me evocando entre
os alheios rumores da vida; e que o tempo esqueço,
absorto na minha própria alma que obscureço."

Nuno Júdice  em "Lira de Líquen" {1985}

terça-feira, 15 de maio de 2012

Para que esse autor regresse

"Veio uma época de perturbação: os valores, o clima, o equilíbrio das almas ... Até o escritor, quando pretendia exercer o seu trabalho de análise ou criação, encontrava perante ele as insuperáveis dificuldades da névoa, a indecisão do discurso, a pobreza de ideias (de ideais). A sua intervenção tornou-se pobre e difícil. Mas não desesperou. É ele quem, dia após dia, tenta renascer, ou procura apenas que, num instante súbito, o antigo génio regresse em pleno ao coração da página. Tornou-se lírico; mas preferia que o espírito da prosa o voltasse a iluminar.
Citou, para consigo próprio, casos terríveis como exemplo e frustração. A decadência, que nesses casos assumira as formas extremas da humilhação ou da loucura, tirava-lhe o ânimo. Só ao ouvir certos passos das obras ignoradas dos antigos mestres de música sentia um novo sopro aquecer-lhe a inspiração. Levantava-se do torpor, agitava o corpo, a cabeça. Mas nem isso lhe foi suficiente. Em conversas, falando com estranhos ou conhecidos, estes assuntos desapareciam: substituídos pelas coisas banais e quotidianas, ou pela política. Mas pouco a pouco, enquanto o ambiente escurecia com a proximidade do inverno, e a necessidade de colocar novas e mais temíveis máscaras surgia, as bocas torciam-se em risos despropositados, e as palavras perdiam os seus sentidos imediatos para se sobreporem a indicações precisas e coincidentes na direcção de uma definitiva queda.
Não vos volteis para o abismo, ó poetas. O brilho apaga-se na palma das mãos, e o génio não exerce o seu poderoso fascínio sobre as multidões amortecidas. Por que regressais ao vazio, ao refúgio em nada? Acaso não são estes os dias da exaltação e do medo? Dizem-me que de nada serve o perdido gesto pelo fogo ... mas - e a vida artificial do olhar? Os relâmpagos da pulsação? A sangrenta epopeia das reticências?"


Nuno Júdice  em "Nos Braços da Exígua Luz"  [1976]

domingo, 13 de maio de 2012

O meu corpo é um planeta

"O meu corpo é um planeta entregue a órbitas elípticas,
disposto em intervalos redimensionáveis em sequências
giratórias, tão vulneráveis a componentes gravitacionais
como a proximidade dos teus quadris num eixo ôntico
que descreve a rota de satélites e a natureza endémica
das intempéries; um veio magnético, magmático, coisas
como punhais, umbigos, umbrais, o desassossego
ou apenas a estância fúnebre do teu olhar."

José Rui Teixeira  (1974)

sábado, 12 de maio de 2012

Einstein foi uma espécie de pirilampo ...

"Einstein foi uma espécie de pirilampo, uma das raras
pessoas a possuir luz própria num século onde a maioria
tacteava no escuro.

24 july 1969 5 am. Neil Armstrong punha o primeiro
pé na lua. Eu dormia profundamente. E o meu sono
tornou-se nesse momento setenta quilos mais pesado.

Desde que os americanos descobriram que as estrelas
tinham pulgas que não me deixa esta comichão sideral."

Jorge de Sousa Braga  (1957)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Pitágoras

"Do número, tudo nascia:
outros números, a verdade,
a curva que o astro seguia,
a beleza, a vida, a cidade.
Teu ousar tudo resolvia.
Só dentro de ti não cabia
raiz de dois ser realidade."

Eugénio Lisboa  (1930)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Do fundo da inconsciência

"Do fundo da inconsciência
Da alma sobriamente louca
Tirei poesia e ciência
E não pouca.
Maravilha do inconsciente!
Em sonhos sonhos criei
E o mundo atónito sente
Como é belo o que lhe dei."

Fernando Pessoa  (1888-1935)

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Evolução

"Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,
Tronco ou ramo na incógnita floresta ...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo ...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paul, glauco pascigo ...

Hoje sou homem - e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade ...

Interrogo o infinito e às vezes choro ...
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade."

Antero de Quental  (1842-1891)

terça-feira, 8 de maio de 2012

O Painel da Natureza

"Minha sorte foi brilhante,
Minha sorte é hoje triste;
Nestas mudanças consiste
A sorte de todo o amante:
Sumiu-se a Lua radiante,

Que estava em fulgor acesa;
Minha dor, minha tristeza
Com mil reflexões misturo,
Vendo ora claro, ora escuro
O painel da Natureza

O Olimpo, assustando a Terra,
Dando-lhe mortais desmaios,
Raios em cima de raios
Das entranhas desencerra:
Os elementos em guerra
Blasonam mútua braveza;
Neste horror, nesta graveza,
Que não cede, não se acalma.
É o quadro da minha alma
O painel da Natureza."

Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)

domingo, 6 de maio de 2012

Canto do Ecocardiograma

"Dialogo com o mar, que sempre soa
para quem carnalmente habita a costa,
neste habitar de raiz que inclui
nascimentos e mortes de parentes,
ouvintes todos por adaptação
da espécie à ondulação dos tímpanos.
Depois, ouvir o mar seria
como escutar um hino, como ouvir
as abelhas no louvor do Sol.
Também chilreia a água na bonança,
na maré viva bate, como bate
o meu sangue no ecocardiograma.
Soube assim que a água do meu corpo
se harmoniza com a água do mar
de acordo com o Ritmo que nos rege.
O aparelho soa e avassala
os meus dois ouvidos com o fragor
deste meu coração que soa a onda
ou a regato forte que embate
em pedras certas. Enfim, o mar
humilha-me e engrandece-me, pois eu era
poeta apenas, e desejei apenas
beber o mar num verso
expresso em micro-sons.
Nunca mais me esqueço desse fluxo
que ouvi correr e pulsar fora de mim,
e suponho que os ecos primordiais
são semelhantes, mas diversos, pois
só por minutos o meu inteiro som
é regular no Tempo
que sempre é sem tempo."

Fiama Hasse Pais Brandão (1938-2007)