quinta-feira, 28 de junho de 2012

Poentes de Lisboa

"Os poentes de Lisboa sabem a
Ocidente
há neles um barco antigo a partir para
o reino ausente.

Os poentes de Lisboa trazem um
sentimento de grande nostalgia
há neles alguém que vem de mar nenhum
carregado de Tejo e de melancolia.

Os poentes de Lisboa são quer se
queira quer não
uma canção partindo-se partindo-se

Os poentes de Lisboa intensamente
são
o Ocidente."

Manuel Alegre

domingo, 24 de junho de 2012

"Nos olhos de Isa a chuva grita e a noite
acende fogueiras.

Os meus olhos param. Nos olhos de Isa.

Oh, nos olhos de Isa espreguiça-se a madrugada
e o vento acorda para ajudar os pássaros a voar
e as árvores a acenar-lhes uma bandeira de folhas, uma tristeza verde.

Nos olhos de Isa.

Nos olhos de Isa a manhã explode num inferno de estrelas,
num clarão de silêncio, em estilhaços de rosas, pétalas de sombra.

Nos olhos de Isa os poetas vagueiam num bosque de mel
onde as abelhas constroem a tarde
desesperadamente.

Nos olhos de Isa ninguém repara
na minha solidão."

Joaquim Pessoa  em "Os Olhos de Isa"

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Princípio de Retórica

"Na música, a perfeição tem o nome de
harmonia; pelo menos na estética clássica,
cujo cânone obedece às leis da natureza. Na
poesia, porém, essa regra nem sempre se
verifica; e ver-se-á, na análise do poema,
a dissonância entre as palavras e o mundo
quebrar a vontade da beleza, e trazer
de volta a inquietação do inacabado, ou
do que nunca chega a começar. Isto não quer dizer
que a poesia não tenha música, nem que
do contacto entre ambas não surja um efeito
que o espírito apreende com emoção. Um
desenho de circunferência envolve o triângulo
de que o último vértice é o sentimento
resultante do equilíbrio entre o som
e o sentido. Não há aqui repetição, mas a nostalgia
do único, um arquétipo que se confunde com a imagem
inscrita no fundo da memória, de que todas
as outras constituem o reflexo degradado. O verso,
porém, não faz senão romper essa totalidade,
lembrando na insistência da sílaba a
pura impossibilidade do regresso; e na matéria
verbal da estrofe encontro, mais do que
o presente, um rosto usado
como a amor que me obriga ao passado."

Nuno Júdice  em "As Regras da Perspectiva"  [1990]

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Primeira Variação Goldbeat

"Os teus dedos batem nas teclas sem parar. Não sentes
como deixas a porta aberta, a mochila no chão, a música
no ar. As notas brincam docemente e explodem no perímetro
urbano da sala. A velocidade dos teus dedos modificou
os circuitos cerebrais, o cerebelo cresce a 800 notas
por minuto e os meus dedos nas teclas do computador batem
a uma frequência indigna dos teus dedos. As células
do ouvido interno movem-se como 3000 pestanas
entre o sono e a vontade de vigília: sim, tocas entre
o que te resiste e a velocidade da luz. As notas são apenas
energia e nem preciso de uma ressonância magnética
para ver os teus neurónios activados com as notas suspensas
no tecto, vibrando nas cordas do coração com que te ouço.
Ela entra agora no poema, pousa um beijo suave
no teu pescoço e o beijo parte a velocidade supersónica
até ao cérebro primitivo. A amígdala cerebral responde
que não tarda muito a estarem enroladinhos na cama.
Mais um beijo, antes das tuas mãos regressarem à pauta
com os neurónios cintilando sinapses pelas teclas.
Ela entra na nudez do teu quarto e as notas apressam-se
a aquecer o branco dos lençóis. A seguir, entras tu
em notas fulvas e vivazes, lentas quando se prolongam
em uníssono, e eu continuo a escrever este poema,
meu hipotálamo adora o chocolate
que se derrete na boca e, pouco a pouco,
a música dos meus versos enche a página do ecrã."

Rosa Alice Branco  [1950]

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Biografia

"Procurou as origens do arco-íris, a natureza
da transformação das plantas, o ritmo exacto
do movimento e da mudança dos planetas; o seu
horóscopo, por outro lado, tinha um aspecto
único - acumulação solar de influências no
zénite. Com tudo isto, passou mal algumas noites:
dúvidas quanto ao rumo a dar ao pensamento,
libertação de hesitações da fase de passagem
da adolescência à maturidade, a evocação de
um corpo desejado havia anos, em Itália, numa
época de plenitude. Porquê, pensou, perder tempo
com a especulação filosófica e a meditação
poética numa vida que tão pouco iria contar
num ciclo de eternidades?"
(...)

Nuno Júdice  em "Enumeração de Sombras" [1989]