sábado, 25 de agosto de 2012

Mar

"De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua."
 
Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Poesia I"

Às Vezes

"Às vezes julgo ver nos meus olhos
A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.
 
Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água."
 
 Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Poesia I"

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Visto aqui !

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Como o Rumor

"Como o rumor do mar dentro de um búzio
O divino sussurra no universo
Algo emerge: primordial projecto"

Sophia de Mello Breyner Andresen  em "O Nome das Coisas"

Retrato de Mulher

"Algo de cereal e de campestre
Algo de simples em sua claridade
Algo sorri em sua austeridade"
 
Sophia de Mello Breyner  em "O Nome das Coisas"

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Esteira e Cesto

"No entrançar de cestos ou de esteira
Há um saber que vive e não desterra
Como se o tecedor a si próprio se tecesse
E não entrançasse unicamente esteira e cesto

Mas seu humano casamento com a terra"

Sophia de Mello Breyner Andresen  em "O Nome das Coisas"

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Li "A Ignorância" de Milan Kundera e ...

Neste romance de carácter introspectivo, o autor aborda directamente o problema da emigração do Leste Europeu antes e após o terminus da Guerra Fria, em Novembro de 1989.

Fala-se de nostalgia, de memória, de desenraizamento e enfraquecimento dos vínculos sociais em relação ao local de origem, principalmente quando se trata de refugiados políticos.
No entanto, a distância esmorece os laços familiares e deparamo-nos, por um lado, com um certo ressentimento por parte de quem fica e, por outro lado, com uma constante frustração em não conseguir relatar a própria odisseia, por parte de quem regressa.
A ausência de perguntas em relação aos anos passados fora do país é uma constante e tudo conspira para a destruição progressiva da vontade de voltar.
Ou seja, nesta obra o exílio é retratado não do modo como o entendemos, mas sim como um exílio que se segue ao exílio: o exílio que se vive depois que se decide voltar, o exílio de si mesmo, dentro de si mesmo, no interior de casa.

Interessante a forma como Kundera "subverteu" a noção de nostalgia:

"O regresso, em grego, diz-se nostos. Algos significa sofrimento. A nostalgia é portanto o sofrimento causado pelo desejo insatisfeito de regressar. Para esta noção fundamental, a maior parte dos Europeus pode utilizar uma palavra de origem grega (nostalgia) e, além disso, outras palavras com raízes na sua língua nacional: añoranza, dizem os Espanhóis; saudade, dizem os Portugueses.
(...)
Em espanhol, añoranza vem do verbo añorar (ter nostalgia), que vem do catalão enyorar, derivado, por seu turno, da palavra latina ignorare (ignorar). A este luz etimológica, a nostalgia aparece como o sofrimento da ignorância. Tu estás longe, e eu não sei o que te acontece. O meu país está longe, e não sei o que lá se passa."

O escritor relembra então a etimologia da palavra, que em sua origem grega remete ao sofrimento causado pelo desejo irrealizado de retornar. Esse sentimento liga-se também à ignorância. Só há nostalgia daquilo de que não temos mais notícia.

Gostei deste livro. E, para não variar, gostei uma vez mais das dissertações psico-filosóficas de Milan Kundera. Da sua imprevisibilidade. Da sua intelectualidade refinada. ;)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Arte Poética

"A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.
Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema fala não de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, perfume da tília e do orégão.
É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.
É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é, da relação com uma matéria, como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia à qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz «obscuro», «amplo», «barco», «pedra» é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o «obstinado rigor» do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.
E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida."

Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Geografia"