quinta-feira, 29 de novembro de 2012

"Exercício espiritual"

"É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem
 
É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora."
 
Mário Cesariny

domingo, 25 de novembro de 2012

Gravidez

"Não sei que nome dar à linha que vai crescendo dia a dia no teu corpo, como um horizonte convexo. É uma curva perfeita. Só sei isso. Uma curva perfeita. Abóbada celeste vista de fora."
 
José Mário Silva  em "Efeito Borboleta e Outras Histórias"

sábado, 24 de novembro de 2012

"Quatro Sonhos"

"Sonho 1: O que vejo é uma espécie de lavoura celeste, astros abrindo sulcos no negrume do espaço sideral, uma cornucópia de cometas espalhando fogo pela galáxia e eu lá no meio, imóvel como o bebé cósmico de 2001, assistindo a tudo na plateia do universo, as várias dimensões da realidade sobrepondo-se - quarks, electrões, átomos, moléculas, células, gases a temperaturas inauditas, matéria incandescente, estrelas a nascer e a morrer, explosões de supernovas - e depois a fusão de tudo, um colapso da frente para trás, o big bang ao contrário, o silêncio do nada, o vazio anterior ao verbo divino e ao instante zero, uma escuridão que é só uma luz demasiado forte."
 
José Mário Silva  em "Quatro Sonhos"

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

"Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi
verdade - que não amei ninguém depois de ti nem
o meu corpo procurou nunca mais outro incêndio
que não fosse a memória de um instante junto
do teu corpo; e que deixei de ler quando partiste
por não suportar as palavras maiores longe da tua boca;
e que tranquei os livros na despensa e tranquei a despensa,
acreditando que, se não me alimentasse, acabaria
por sofrer de uma doença menor do que a saudade, mas
a que os outros, pelo menos, não chamariam loucura.
 
Se alguém me perguntar, direi que foi assim, e não de
outra maneira, como alguns parecem supor - que permiti,
bem sei, que outros homens me amassem e me aquecessem
a cama, mas em troca lhes dei apenas um nome diferente
do que tinham e os vi partir desesperados a meio
da noite sem sentir maior dor que a de saber que, afinal,
também eles não existiam para além de ti; e que no dia
seguinte dava comigo a trautear sem querer essa canção
que amavas (como se ela, sim, se tivesse deitado
no meu ouvido), mas que a sua melodia, em vez
de me alegrar como antes, me escurecia mais a vida.
 
Se alguém me perguntar, nada desmentirei, nem negarei
que os frutos todos que me deram a provar na tua ausência
me pareceram demasiado azedos ao pé dos que explodiam
em sumo nos teus lábios; e que, por isso, nunca mais quis
um beijo de ninguém, nem sequer inocente, e não voltei
também a aceitar as flores que me traziam por me lembrar
que, em mãos assim, tão grandes para o afecto, o seu
perfume anunciava invariavelmente a chegada do outono.
 
E contarei por fim, se alguém quiser saber, que o teu silêncio
foi de tal densidade, de tal espessura, que não consegui
escutar nenhuma das vozes que vieram depois de ti e, pior
do que isso, me esqueci com indiferença das mais antigas,
pelo que as minhas noites se tornaram uma tão longa
e solitária travessia que ainda esta manhã acordei ao lado
da tua sombra e respondi baixinho, mesmo sem ninguém
me perguntar, que há coisas que uma mala nunca leva."
 
Maria do Rosário Pedreira  em "O Canto do Vento nos Ciprestes"

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

"A Criação do Mundo"

"Olhou as mãos em concha e viu arredondar-se
um sonho dentro delas - um mundo
que ninguém podia adivinhar, pois dele
fariam também parte os magos e os profetas.

Abriu-as devagar e deixou cair as trevas como sementes,
para que então servissem unicamente de sombras
e prolongassem a memória das coisas por vir. Foi assim
que inventou a luz e separou um dia do seguinte.

Depois afastou o céu daquilo que viria a ser o mar,
como quem divide um lenço azul em dois e limpa
as lágrimas apenas a metade. No meio, deixou que
crescesse tudo quanto do chão quisesse escapar-se
para traçar a primeira geografia dos caminhos. E assim
 
descobriu a cor e encheu a sua paleta de animais
que rasgariam os céus, cruzariam os oceanos e
revolveriam as entranhas da terra na estação
das chuvas. Por fim, semeou pequenas clareiras
 
nas florestas, pedras nas vertentes das cordilheiras,
cristais de neve no contorno dos lagos, estrelas cadentes
na vizinhança do desespero e rios serpenteantes
entre as searas louras, mordidas por um sol que lhe caiu
quase sem querer dos dedos, mas lhes aproveitou o calor.
 
E, apesar da alegria que experimentou, sentiu que o seu
mundo era tão frágil que, se desviasse os olhos, tudo acabaria
por regressar ao pó, às trevas e ao verbo. Só por isso criou alguém
que também o visse e lhe dissesse todos os dias como era belo."
 
Maria do Rosário Pedreira  em "O Canto do Vento nos Ciprestes"

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Pedro

"Contavam as sereias que na tempestade dos seus olhos
os barcos adormeciam tontos, cansados das marés;
que os seus beijos sabiam a mar e que na sua pele crestada
pelo sol havia a cintilância das ondas ao meio-dia;
que os seus ombros lembravam promontórios e que neles
as mulheres deixavam naufragar as mãos e os lábios;
que uma noite tocara a lua com os seus dedos-mastros
e ouvira uma voz dentro de si, vinda de muito longe;
que era hábil com as redes, como com as palavras.
 
Alguém veio pedir-lhe que abandonasse os peixes
pelos homens. Em troca, receberia
um templo eterno, uma chave, o privilégio de decidir
todos os lugares da chuva, um nome novo
para poder negar tudo o que vira antes."
 
Maria do Rosário Pedreira  em "A casa e o cheiro dos livros"

domingo, 11 de novembro de 2012

"O Amor, Meu Amor"

"Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.
 
Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.
 
E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.
 
E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.
 
Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.
 
Pudesse eu ser tu
e em tua saudade ser a minha própria espera.
 
Mas eu deito-me em teu leito
quando apenas queria dormir em ti.
 
E sonho-te
quando ansiava ser um sonho teu.
 
E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.
 
Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar."
 
Mia Couto

terça-feira, 6 de novembro de 2012

"A uma distância suficiente sobre os bosques, o som adquire certo sussurro vibrante, como se agulhas dos pinheiros no horizonte fossem roçadas como as cordas de uma harpa. Todo o som, ouvido à maior distância possível, produz um só efeito, uma vibração de lira universal, exactamente como a atmosfera que nos circunda torna interessante aos nossos olhos uma remota aresta da terra, graças ao tom de azul que lhe confere. Neste caso, chegava até mim uma melodia filtrada pelo ar e que havia conversado com todas as folhas e hastes do bosque, aquela porção de som que os elementos apreenderam, modularam e ecoaram de um vale ao outro. O eco, até certo ponto, é um som original, e daí a sua magia e encantamento. Não é mera repetição do que merecia ser repetido pelo sino, é em parte a voz do bosque; as mesmas palavras e notas triviais cantadas por uma ninfa."
 
Henry David Thoreau  em "Walden ou a vida nos bosques"

domingo, 4 de novembro de 2012

"Apelo lançado ao meu sangue
Dum amor passado, não sei onde, que volve
E ainda tem força para me atrair e puxar,
Que ainda tem força para me fazer odiar esta vida
Que passo entre a impenetrabilidade física e psíquica
Da gente real com que vivo!
 
Ah, seja como for, seja para onde for, partir!
Largar por aí fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar,
Ir para Longe, ir para Fora, para a Distância Abstracta,
Indefinidamente, pelas noites misteriosas e fundas,
Levado, como a poeira, plos ventos, plos vendavais!
Ir, ir, ir, ir de vez!
Todo o meu sangue raiva por asas!
Todo o meu corpo atira-se prá frente!
Galgo pla minha imaginação fora em torrentes!
Atropelo-me, rujo, precipito-me! ...
Estoiram em espuma as minhas ânsias
E a minha carne é uma onda dando de encontro a rochedos!"
 
Álvaro de Campos em "Ode Marítima"

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Capas de Livros por Lizzy Stewart











Colecção de capas de livros concebidas pela ilustradora Lizzy Stewart.
Umas imaginadas, outras nem por isso ... :)
"Às vezes as pessoas comentam que o estudo dos clássicos acaba por abrir caminho a estudos mais modernos e práticos; mas o estudante ousado sempre se dedicará aos clássicos, em qualquer língua que estejam escritos e por mais antigos que sejam. Pois o que são os clássicos senão o registo dos mais nobres pensamentos do homem? São os únicos oráculos que não entraram em decadência e há neles respostas a indagações actuais como Delfos e Dodona nunca deram."
 
Henry David Thoreau em "Walden ou a vida nos bosques"