sábado, 29 de dezembro de 2012

Às Escuras

"Não sei adormecer: a madrugada
respira num silêncio que é o teu
silêncio, nesta febre
a arder na minha alma tão antiga.
 
Lá fora os astros não respondem:
as montanhas diluem o tempo e o espaço
e todo o céu começa a dilatar-se
no êxtase mais negro enquanto bebo
o cego sofrimento de não estares aqui.
 
A tua ausência fala-me às escuras
e o olhar devora estas paredes,
o meu quarto vazio onde se oculta
o lume de uma estrela
pronta a morrer. A noite
chama ainda por ti dentro de mim
- sombra feita de luz,
à espera de outro sonho ou do teu próximo
sorriso."
 
Fernando Pinto do Amaral  em "Às Cegas" (1997)

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Gregory Heisler

"É sempre absoluta, essa primeira
serenidade ao ver-te: alguém me ensina
a obedecer aos astros,
a amar o teu enigma e a bebê-lo
gota a gota, perfeito
como um eclipse do tempo. Imóvel,
contemplo e absorvo
as lágrimas da luz na tua pele,
mas só de vez em quando é que vislumbro
uma estrela que desce ao coração
e deixa no teu rosto a flor de um beijo
para sempre adiado."
 
Fernando Pinto Amaral  em "Fragmentos de um Discurso Contemplativo"

domingo, 16 de dezembro de 2012

O Outro Lado

"Não consigo dormir. Há poucas horas
despedi-me de ti - «every time
we say goodbye
I die a little». Devo habituar-me
às fases dessa lua a que obedeces,
às estranhas marés de cada instante
que tu sabes viver como se fosse
o único, o melhor da tua vida
isenta de remorsos e de apegos,
tão próxima de tudo. A minha dor
vai-se apagando à medida que um anjo
desce ao meu quarto e começa a torná-lo
fugaz imitação de um paraíso
em que até o meu nome se alterasse.
 
Não há nada a fazer, no entanto
(...) sou ainda demasiado humano
para me libertar. Ainda não despertei,
ainda não tenho trinta e cinco anos
como Siddharta no momento em que
terá visto o vazio, escutado o inaudível.
 
Aquilo que vislumbro a esta hora
são rápidos reflexos de uma silhueta
que só podes ser tu
entre o céu e o mar, nessa noite
de lua cheia, quando abandonámos
um restaurante junto ao Guincho. Eu queria
ficar também assim, unir-me devagar
à linha do horizonte, sem saber
distinguir as fronteiras de coisa nenhuma.
 
Não hei-de conseguir: por mais que tente,
por mais que me desprenda ou desaprenda
os ritos e os ritmos do corpo ou da alma,
hei-de lembrar-me dos teus olhos vagos
e hei-de supor que estavam procurando
dizer-me qualquer coisa. Apenas o silêncio
poderia falar como eles
nessa plena doçura de existir
na maior paz do mundo. E contudo, para mim
cada palavra se conjuga sempre
com outras palavras, e assim por diante
até ao infinito, até formarem
por exemplo um poema como este
- inútil quer para mim, quer para ti
ou para qualquer leitor que nele ainda
pretendesse encontrar alguns vestígios
dessa tão pobre e má sabedoria
à qual, já só por hábito literário,
gostamos de chamar o coração."
(...)
 
Fernando Pinto do Amaral  em "A Escada de Jacob"

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

" ... eu trotava atrás deles, como toda a vida fiz no encalço das pessoas que me interessam, porque as únicas pessoas autênticas, para mim, são as loucas, as que estão loucas por viver, loucas por falar, loucas por serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, as que não bocejam nem dizem nenhum lugar-comum, mas ardem, ardem, ardem como fabulosas grinaldas amarelas de fogo-de-artifício a explodir, semelhantes a aranhas, através das estrelas e, no meio, vê-se o clarão azul a estourar e toda a gente exclama: «Aaaah!»".

Jack Kerouac  em "Pela Estrada Fora"

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Vennesla Library & Cultural Center

 
















Fantástica esta biblioteca localizada na cidade de Vennesla (Noruega) e concebida pela dupla de arquitectos Helen & Hard !