terça-feira, 7 de maio de 2013

"Símbolos? Estou farto de símbolos ...
Uns dizem-me que tudo é símbolo.
Todos me dizem nada.
 
Quais símbolos? Sonhos ...
Que o sol seja um símbolo, está bem ...
Que a lua seja um símbolo, está bem ...
Que a terra seja um símbolo, está bem ...
Mas quem repara no sol senão quando a chuva cessa
E ele rompe das nuvens e aponta para trás das costas
Para o azul do céu?
Mas quem repara na lua senão para achar
Bela a luz que ela espalha, e não bem ela?
Mas quem repara na terra, que é o que pisa?
Chama terra aos campos, às árvores, aos montes
Por uma diminuição instintiva,
Porque o mar também é terra ...
 
Bem, vá, que tudo isso seja símbolos ...
Mas que símbolo é, não o sol, não a lua, não a terra,
Mas neste poente precoce e azulando-se menos,
O sol entre farrapos vindos de nuvens,
Enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado,
E o que fica da luz do dia
Doira a cabeça da costureira que pára vagamente à esquina
Onde se demorava outrora (mora perto) com o namorado que a deixou?
 
Símbolos? ... Não quero símbolos ...
Queria só - pobre figura de magreza e desamparo! -
Que o namorado voltasse para a costureira."
 
Álvaro de Campos  em "O Engenheiro Aposentado (1931-1935)"

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