quarta-feira, 15 de maio de 2013

"O Livro está em nós
Ou somos nós que estamos dentro do Livro?
Irá ele conduzir-nos para um além
Ou conduzi-lo-emos nós para o nada?
 
O Livro será entre nós ambos
Um fosso a preencher
Ou uma ponte a destruir?
 
O Livro será uma moradia ou um barco
Um vestuário uma máscara ou o nosso verdadeiro rosto?
Será ele nós por fim desvelado?
 
Os dados estão lançados e o nosso livro
Lá vai hesitante para o indefinido
De um destino que não se consumará."
 
Roberto Bréchon  em "Meditações Metapoéticas"

terça-feira, 14 de maio de 2013

"Eu quero abrir um livro
que tivesse a luz do trigo
onde pudesse beijar os joelhos de lua
de uma plácida mulher
 
Ou nela contemplar
em plena noite
a vasta delicadeza das constelações
enquanto lavasse as mãos
entre as imagens das estrelas
numa celha de água fresca."
 
António Ramos Rosa  em "Meditações Metapoéticas"

domingo, 12 de maio de 2013

"Abro os olhos e as janelas
Faço existir o dia
Volto a fechar o leito do tempo
Entro nos bastidores do sonho
Lavo o meu corpo na luz
Estou cheio de sons e de odores
Acordar é mudar de mundo."
 
Robert Bréchon  em "Meditações Metapoéticas"

sábado, 11 de maio de 2013

Ready-made

"Deixámos as águas
para nos retirarmos nas pedras
deixámos as pedras
para nos retirarmos nas árvores
deixámos as árvores
para nos retirarmos no ar
deixámos o ar
para construirmos as nossas estrelas
 
mas as pedras mas os pássaros
o ar e as estrelas
seguiram-nos no orbe do sonho."
 
Robert Bréchon em "Meditações Metapoéticas"

terça-feira, 7 de maio de 2013

"Símbolos? Estou farto de símbolos ...
Uns dizem-me que tudo é símbolo.
Todos me dizem nada.
 
Quais símbolos? Sonhos ...
Que o sol seja um símbolo, está bem ...
Que a lua seja um símbolo, está bem ...
Que a terra seja um símbolo, está bem ...
Mas quem repara no sol senão quando a chuva cessa
E ele rompe das nuvens e aponta para trás das costas
Para o azul do céu?
Mas quem repara na lua senão para achar
Bela a luz que ela espalha, e não bem ela?
Mas quem repara na terra, que é o que pisa?
Chama terra aos campos, às árvores, aos montes
Por uma diminuição instintiva,
Porque o mar também é terra ...
 
Bem, vá, que tudo isso seja símbolos ...
Mas que símbolo é, não o sol, não a lua, não a terra,
Mas neste poente precoce e azulando-se menos,
O sol entre farrapos vindos de nuvens,
Enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado,
E o que fica da luz do dia
Doira a cabeça da costureira que pára vagamente à esquina
Onde se demorava outrora (mora perto) com o namorado que a deixou?
 
Símbolos? ... Não quero símbolos ...
Queria só - pobre figura de magreza e desamparo! -
Que o namorado voltasse para a costureira."
 
Álvaro de Campos  em "O Engenheiro Aposentado (1931-1935)"