Mostrar mensagens com a etiqueta Excertos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Excertos. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

As palavras

"As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras
estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam: são como carraças: vêm nos livros, nos jornais, nos slogans publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras.
(...)
Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão."

José Saramago in "As palavras"

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Villa Wahnfried

"A Mãe é wagneriana - a leitora melómana já o teria suspeitado - e é das piores porque se converteu em crescida. Até idade meia madura outros deuses governaram o seu firmamento musical, mas um namorado qualquer levou-a pelos cabelos a Bayreuth e encontrou lá a sua Estrada de Damasco. Desde esse dia não falhou um festival; todos os anos a 13 de Fevereiro manda desfolhar onze rosas brancas num canal de Veneza e durante a Guerra de Espanha encomendou a um pintor catalão fugido em França que fora amigo de Juan Gris, óleos com vista da Villa a partir de daguerreótipos que lhe facultou."

José Cutileiro in "Bilhetes de Colares de A.B.Kotter"

domingo, 4 de setembro de 2011

"Como A.N. Whitehead afirmou celebremente, a filosofia ocidental é uma nota de rodapé a Platão e, poder-se-ia acrescentar, a Aristóteles e Plotino, a Parménides e Heraclito. O ideal socrático da vida reflectida, a demanda platónica de certezas transcendentes, as investigações aristotélicas das relações problemáticas existentes entre a palavra e o mundo, estabeleceram a via tomada por Tomás de Aquino e Descartes, por Kant e Heidegger. Assim, estes três notáveis dignitários do intelecto humano e da formação da sensibilidade - música, matemática, metafísica - subscrevem a afirmação de Shelley de que «somos todos gregos»."

George Steiner in "A Ideia de Europa"


"O café é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, para o flâneur e o poeta ou metafísico debruçado sobre o bloco de apontamentos. Aberto a todos, é todavia um clube, uma franco-maçonaria de reconhecimento político ou artístico-literário e presença programática. Uma chávena de café, um copo de vinho, um chá com rum assegura um local onde trabalhar, sonhar, jogar xadrez ou simplesmente permanecer aquecido durante todo o dia. É o clube dos espirituosos e a poste-restante dos sem abrigo. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino."

George Steiner in "A Ideia de Europa"

terça-feira, 30 de agosto de 2011

"A Europa é feita de cafetarias, de cafés.Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo.
(...)
Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da «ideia de Europa».

George Steiner in "A Ideia de Europa"
"Estar à vontade no mundo da cultura significa estar à vontade em muitos mundos, muitas linguagens: estar à vontade na história das ideias, na literatura, na música, na arte. Requer erudição e a capacidade de ver as relações existentes entre os vários mundos.
(...)
É essencial ser elitista - mas no sentido original da palavra: assumir responsabilidade pelo «melhor» do espírito humano. Uma elite cultural deve ter responsabilidade pelo conhecimento e preservação das ideias e dos valores mais importantes, pelos clássicos, pelo significado das palavras, pela nobreza do nosso espírito. Ser elitista, como explicou Goethe, significa ser respeitador: respeitador do divino, da natureza, dos nossos congéneres seres humanos, e, assim, da nossa própria dignidade humana."

Rob Riemen, Director fundador do Nexus Institute

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

"A nobreza de nascimento é puramente acidental e, por conseguinte, insignificante para mim. Procuro noutro local as fontes da nobreza, e bebo dessa nascente. Aqui, uma vez mais, podemos testemunhar o nascimento da nobilitas literaria: a verdadeira nobreza é a nobreza de espírito. As artes, as humanidades, a filosofia e a teologia, a beleza - cada uma delas existe para enobrecer o espírito, para permitir à humanidade descobrir e reivindicar a posse da sua forma mais elevada de dignidade. É a herança cultural, as importantes obras de poetas e pensadores, artistas e profetas, que uma pessoa tem de usar para a cultura animi (a expressão é de Cícero), o cultivo da alma e do espírito humanos - para que a pessoa possa ser mais do que aquilo que também é: um animal."

Carta do humanista Ulrich von Hutten a Willibald Pirkheimer

domingo, 14 de agosto de 2011

Tarte de Cebolas à la Geoffrey Chaucer

"225 g de massa quebrada simples
1 colher de sopa de tomilho cortado fresco
25 g de manteiga
2 colheres de sopa de azeite
8 cebolas, cortadas em rodelas finas
Sal e pimenta preta
2 colheres de chá de açúcar
1/4 de colher de chá de noz-moscada moída, e a mesma quantidade de gengibre moído
2 ovos, mais 2 gemas de ovo
425 ml de natas para montar
Um punhado generoso de rama de açafrão

Falou enfim o nosso Anfitrião:
- Ouvimos já de cada um do nosso séquito
As receitas que tinham a contar, excepto
De Maister Graham, que prefere sobretudo,
Conforme consabido, histórias de cornudo.
E vós, mulher de Bloomesbury, taciturna,
Mostrastes ousadia tomando o seu turno.
E Deus, que sabe bem o que vos vai em mente,
Por vosso clafoutis vos salve duplamente.
E vós, prior de Praga, esquivai as leituras,
Não serve Ovídio ao pasto que ora se apura,
A haver metamorfoses, sejam da cozinha:
Do caos dos condimentos criamos o cadinho.

«E quando bem conta aplica a voz
À Ars Culinaria, como o fizestes vós,
Não se saciam só as almas dos Cristãos
Como também a pança e os órgãos de expulsão.
E vós, ó Aduaneiro, que tudo isto ouvistes
Sempre a beber cerveja e a anotar alvitres,
Contai-nos, por quem sois, um alegre acepipe,
Pois é altura já que entreis neste despique.»
-De bom grado - anuiu.
-Decerto sei grelhar, guisar, cozer, fritar,
Mas creio que a suprema arte é a da tarte.
Relatarei, portanto, o melhor que souber,
Receita com que espero a todos guarnecer.
Ora escutai atentamente o que eu disser.

Aqui começa a receita do Aduaneiro:
«Estendei fina a massa em pedra enfarinhada,
Acrescentai tomilho e ponde em forma untada.
Com faca de cozinha cortai o excedente
E levai a enrijar em forno meio quente
Derretei a manteiga e untai uma sertã
Que, como sabeis, convém vedar com tampa.
Juntai então cebola em corte vertical,
E mandai lá pra dentro o açúcar e o sal.
Cobri o tacho e ponde o gás em lume brando,
Pra não pegar, é bom mexer de vez em quando;
Fervei a descoberto uns minutos e tal,
Para apurar o molho em tom acastanhado.
Juntai a noz-moscada, mas reservai um tanto,
Ponde o gengibre e devolvei ao gás ligado.
Mexei claras e gemas com mui gentil esmero,
E juntai a pimenta e sal como tempero.
Amornai as natas com basto açafrão,
E ponde os ovos já mexidos na poção.
Vertei a cebolada pla forma da massa,
E acamai a nata e os ovos sobre a base.
Levai ao forno e, ao minuto vinte e sexto,
Dourada há-de ficar a tarte com preceito.»
E disse o nosso Anfitrião: -Vos guarde Deus,
Pois que a todos vosso exemplo enalteceu,
Visto que bem sabeis dessa virtuosa arte,
E haveis cumprido cabalmente vossa parte.
Mas, caro irmão, na culinária não há nada
Que outrem não possa ter já dito no passado.
E só se cria, então, plo modo de contar.
Por vosso ofício, pois, não vos hão-de lembrar,
Inda que vossa aduana seja rara em tudo:
É aos contos, de futuro, que heis de colher tributo.»

Aqui acaba a receita do Aduaneiro de Londres"

Mark Crick in "À mesa com Kafk


domingo, 31 de julho de 2011

" (...) A serenidade não é feita nem de troça nem de narcisismo, é conhecimento supremo e amor, afirmação da realidade, atenção desperta junto à borda dos grandes fundos e de todos os abismos. É o segredo da beleza e a verdadeira substância de toda a arte. O poeta que celebra, na dança dos seus versos, as magnificências e os terrores da vida, o músico que lhes dá os tons duma pura presença, trazem-nos a luz; aumentam a alegria e a claridade sobre a Terra, mesmo se primeiro nos fazem passar por lágrimas e emoções dolorosas. Talvez o poeta cujos versos nos encantam tenha sido um triste solitário, e o músico um sonhador melancólico: isso não impede que as suas obras participem da serenidade dos deuses e das estrelas. O que eles nos dão, não são mais as suas trevas, a sua dor ou o seu medo, é uma gota de luz pura, de eterna serenidade. Mesmo quando povos inteiros, línguas inteiras, procuram explorar as profundezas cósmicas em mitos, cosmogonias, religiões, o último e o supremo termo que poderão atingir é essa serenidade. (...)"

Hermann Hesse in "Música"

quinta-feira, 28 de julho de 2011

"As origens da música são muito remotas. A música nasce da medida e tem as suas raízes no grande Um. O grande Um engendra os dois pólos; os dois pólos engendram a força da treva e da luz.
Quando o mundo está em paz, quando todas as coisas estão em repouso e seguem as suas superiores nas suas metamorfoses, então pode-se fazer bem música. Quando os desejos e as paixões não vão por falsos caminhos, então pode aperfeiçoar-se a música. A música perfeita tem a sua causa. Nasce do equilíbrio. O equilíbrio nasce do que é justo, o que é justo nasce do sentido do mundo. Por isso só se pode falar de música com um homem que compreendeu o sentido do mundo.
A música repousa sobre a harmonia entre o Céu e a Terra, sobre a conformidade entre o que é obscuro e a luz."

Liu Bou We in "Primavera e Outono"

sábado, 23 de julho de 2011

Ouvindo uma Música de Schumann


"Nesta música, há um vento persistente. Não um vento permanente, sufocante, pesado, uniforme, e sim uma brisa saltitante, jovial, em rajadas traquinas, sempre surpreendentes, sempre extraviando-se. Parece-nos ver nele a pequena dança em remoinho da areia e da folhagem. É um vento bom, um excelente companheiro de passeio, um camarada de folguedos, alegre, cheio de ideias, ora com vontade de cavaquear ora de correr ou dançar. Flutua e sopra, embala-se e agita-se, dança e saltita nesta música cheia de graça e mocidade, ri e sorri, brinca e graceja, ora traquinas ora afectuoso. Parece mentira que a melancolia tenha feito definhar e morrer o criador de semelhante feitiço. É verdade que a esta música falta sossego, serenidade e até, de certa forma, uma pátria; é, talvez, demasiado alegre, infatigável, agitada e abanada ao vento, mexida e tumultuosa, e terá de acabar por se esgotar. Entre a música de um Schumann com saúde e a vida e fim do doente abre-se o mesmo abismo que existe entre a drôlerie do jovem Clemens Brentano e a austeridade da sua velhice. E, para o nosso mundo complicado e também um tanto sentimental, esta bela música graciosa e agitada, com o seu desassossego juvenil, soa-nos tanto mais fascinante, jovial e adorável quanto sabemos das trevas e profunda melancolia que esperavam o seu autor."

Hermann Hesse in "Música"
"Primavera
Farrapos de névoa cobrem os campos e as colinas. Os dias são longos, comparados com os do inverno, e o vento menos cortante. Quando sobrevém a primavera, as águas nos vales, assim como as cotovias no céu azul, os pássaros nos bosques e as rãs - essa tribo solene e estridente - enchem o ar de cantos joviais.
( ... )

Verão
O calor do dia e a frescura do entardecer são coisas simples e elementares, mas é ilimitada a poesia que nelas reside. O mesmo se passa com a chuva, pesada e monótona, e que no entanto transfigura tudo, mesmo o coração do homem.
( ... )

Outono
O outono não se caracteriza apenas pela queda das folhas, mas também pelo declínio das forças vitais de todos os seres, incluindo o homem.
A Via Láctea torna-se mais nítida. Todavia é a lua a alma desta estação. Na sua remota proximidade adensa o mistério da nossa existência.
( ... )

Inverno
O inverno é a estação do frio; não só o frio que enregela os animais, mas também o frio de cujo significado profundo e interior nos apercebemos apenas em raros momentos de medo ou de solidão.
... a poesia do inverno é sobretudo a poesia da imobilidade e do silêncio."

Matsuo Bashô in "O Gosto Solitário do Orvalho"

sexta-feira, 15 de julho de 2011

"É o mistério da música, que só nos desafia a alma, mas não a inteligência e a educação, e que, acima de todas as ciências e línguas, representa de várias maneiras, sempre naturais, apenas a alma do homem. Quanto maior for o Mestre, mais ilimitadas e profundas serão a sua contemplação e vivência. Mais: quanto mais perfeita e pura for a forma musical, maior será o seu efeito sobre a nossa alma. Quer o Mestre não aspire senão a encontrar a expressão mais forte e apurada dos seus estados de alma, quer persiga nostalgicamente um sonho de pura beleza, a sua obra terá sempre um efeito natural e incondicional. A técnica só vem muito mais tarde. Pode ser agradável e útil saber que nalguma composição de Beethoven há uma volta que não é muito fácil para o violinista, que nalgum lugar Berlioz se atreve a integrar uma entrada pouco usual das trompas, que este ou aquele efeito espectacular depende de um ou outro acorde do órgão, do silenciar dos violoncelos ou seja do que for, mas é tudo desnecessário para se apreciar uma música.
( ... )
É claro que o entendido desfruta de prazeres que a nós, ignorantes, nos estão vedados. No entanto, só no que diz respeito a pormenores técnicos, porque nenhum ouvido sensível precisa de grandes conhecimentos para perceber a harmonia de um quarteto de cordas constituído por instrumentos puros e antigos, o doce encanto de um tenor extraordinário, a voz quente de um contralto invulgar. Sentir tudo isto é uma questão de sensibilidade e não de formação, embora, naturalmente, também o prazer dos sentidos possa ser educado."

Hermann Hesse in "Música"

terça-feira, 12 de julho de 2011

" ... possuía um espírito sonhador com vontade de escrever contos, uma nostalgia constante que pretendia ligar a insignificante vida diária à grandiosa vida que é apresentada em canções e pinturas, em belos livros e nas tempestades que ressoam nos bosques e nos mares. Não a contentava a ideia de que uma flor fosse apenas uma flor, que um passeio fosse apenas isso mesmo. A flor deveria ser uma sílfide, um espírito dotado de beleza e sujeito a uma metamorfose igualmente bela, ao passo que um passeio não seria um mero exercício físico praticado por obrigação ou com intuitos recreativos, era antes uma apreensiva viagem em busca do desconhecido, um contacto com o vento e os ribeiros, uma conversa com as coisas mudas."

Hermann Hesse in "Música"


segunda-feira, 4 de julho de 2011

"E um jovem disse,
Fala-nos da Amizade.
E ele respondeu, dizendo:

O vosso amigo é a resposta às vossas necessidades.
Ele é o campo que cultivais com amor e colheis com gratidão.
E é o vosso apoio e o vosso abrigo.
Pois ides até ele com fome e procurai-lo para terdes paz.

Quando o vosso amigo fala livremente, vós não receias o «não»,
nem retendes o «não».
E quando ele está calado o vosso coração não deixa de ouvir o
coração dele;
Pois na amizade, todos os pensamentos, todos os desejos, todas
as esperanças nascem e são partilhadas sem palavras, com
alegria.
Quando vos separais de um amigo não fiqueis em dor,
Pois aquilo que mais amais nele tornar-se-á mais claro com a
sua ausência, tal como a montanha, para quem a escala, é mais
nítida vista da planície.
E não deixeis que haja outro propósito na amizade que não o
aprofundamento do espírito.
Pois o amor que só procura a revelação do seu próprio mistério,
não é amor mas uma rede lançada que só apanha o que não é
essencial.

E deixai que o que de melhor há em vós seja para o vosso
amigo.
Já que ele tem de conhecer o refluxo da vossa maré, que
conheça também o seu fluxo.
Pois para que serve o vosso amigo se só o procurais para matar
o tempo ?
Procurai-o também para viver.
Pois ele preencher-vos-à os desejos, mas não o vazio.
E na doçura da amizade que haja alegria e a partilha de prazeres.
Pois é nas pequenas coisas que o coração encontra a frescura da
sua manhã."

Kahlil Gibran in "O Profeta"

sábado, 2 de julho de 2011

"Então Almitra disse,
Fala-nos do Amor.

E ele ergueu a cabeça e olhou para o povo e caiu uma grande
imobilidade sobre eles. E em voz poderosa ele disse:

Quando o amor vier ter convosco,
segui-o,
embora os seus caminhos sejam árduos e sinuosos.
E quando as suas asas vos envolverem,
abraçai-o,
embora a espada oculta sob as asas vos possa ferir.
E quando ele falar convosco,
acreditai,
embora a sua voz possa abalar os vossos sonhos
como o vento do norte devasta o jardim.
( ... )

Mesmo que ele suba até vós
e acaricie os mais ternos ramos que tremem ao sol,
também até às raízes ele descerá e abaná-las-á
Enquanto elas se agarram à terra.
( ... )

O amor só se dá a si e não tira nada senão de si.
O amor não possui nem é possuído;
pois o amor basta-se a si próprio."

Kahlil Gibran in "O Profeta"
"E um velho sacerdote disse,
Fala-nos da Religião.
E ele respondeu:

Aquele que usa a sua moral como a sua melhor indumentária
faria melhor se andasse nu.
O vento e o sol não abrirão buracos na sua pele.

E aquele que rege a sua conduta pela ética
está a aprisionar numa gaiola o pássaro que canta.
Os cânticos mais livres não saem
através de grades nem grilhetas.

E aquele para quem a devoção é uma janela,
para abrir mas também para fechar,
ainda não visitou a morada da sua alma
Cujas janelas vão de aurora a aurora."

Kahlil Gibran in "O Profeta"

domingo, 26 de junho de 2011

"E o tecelão disse,
Fala-nos das Roupas.
E ele respondeu:

As vossas roupas ocultam muita da vossa beleza,
no entanto não ocultam a fealdade.
E embora procureis no vestuário
a liberdade da privacidade, podereis encontrar nele grilhetas.
Pudesseis vós enfrentar
o sol e o vento com mais pele e menos vestuário.
Pois o sopro da vida está na luz do sol
e a mão da vida, no vento.

Alguns de vós dizeis,
«Foi o vento do norte que teceu as roupas que vestimos.»
E eu digo,
ah, sim, foi o vento do norte, mas a vergonha era o seu ofício
e o amolecimento dos tendões o seu tear.
E depois de acabar o seu trabalho foi-se rir para a floresta.

Não esqueçais que a modéstia
é um escudo contra o olho do impuro.
E quando o impuro deixar de o ser,
que será a modéstia senão um entrave do espírito ?

E não vos esqueçais que a terra adora sentir os vossos pés nus,
e os ventos anseiam por brincar com os vossos cabelos."

Kahlil Gibran in "O Profeta"

quinta-feira, 23 de junho de 2011

"Então um homem disse,
Fala-nos do Auto-conhecimento.
E ele respondeu, dizendo:

Os vossos corações conhecem em silêncio
os segredos dos dias e das noites.
Mas os vossos ouvidos anseiam
pelo som do conhecimento do vosso coração.
Vós sabeis por palavras
aquilo que sempre soubestes em pensamento.
Tocais com a ponta dos dedos o corpo nu dos vossos sonhos.

E ainda bem que assim é.
A nascente oculta da vossa alma
deve erguer-se e correr a murmurar para o mar,
e o tesouro das vossas profundezas infinitas
será revelado perante os vossos olhos.
Mas que não haja medidas
para pesar o vosso tesouro desconhecido;
E não procureis
as profundezas do vosso conhecimento com limites.
Pois o ser em si não tem limites nem medidas.
Não digais "Encontrei a verdade",
Mas antes "Encontrei uma verdade".

Não digais "Encontrei o caminho para a alma",
mas antes "Encontrei a alma a seguir o meu caminho".
Pois a alma percorre todos os caminhos.
A alma não percorre uma linha, nem cresce como um caniço.
A alma desvenda-se a si própria
Como um lotus de incontáveis pétalas."

Kahlil Gibran in "O Profeta"

domingo, 12 de junho de 2011

"Eu sou uma menina do mar. Chamo-me Menina do Mar e não tenho outro nome. Não sei onde nasci. Um dia uma gaivota trouxe-me no bico para esta praia. Pôs-me numa rocha na maré vaza e o polvo, o caranguejo e o peixe tomaram conta de mim. Vivemos os quatro numa gruta muito bonita. O polvo arruma a casa, alisa a areia, vai buscar a comida. É de nós todos o que trabalha mais, porque tem muitos braços. O caranguejo é o cozinheiro. Faz caldo verde com limos, sorvetes de espuma, e salada de algas, sopa de tartaruga, caviar e muitas outras receitas. É um grande cozinheiro. Quando a comida está pronta o polvo põe a mesa. A toalha é uma alga branca e os pratos são conchas. Depois, à noite, o polvo faz a minha cama com algas muito verdes e muito macias. Mas o costureiro dos meus vestidos é o caranguejo. E é também o meu ourives: ele é que faz os meus colares de búzios, de corais e de pérolas. O peixe não faz nada porque não tem mãos, nem braços com ventosas como o polvo, nem braços com tenazes como o caranguejo. Só tem barbatanas e as barbatanas servem só para nadar. Mas é o meu melhor amigo. Como não tem braços nunca me põe de castigo. É com ele que eu brinco. Quando a maré está vazia brincamos nas rochas, quando está maré alta damos passeios no fundo do mar. Tu nunca foste ao fundo do mar e não sabes como lá tudo é bonito. Há florestas de algas, jardins de anémonas, prados de conchas. Há cavalos marinhos suspensos na água com um ar espantado, como pontos de interrogação. Há flores que parecem animais e animais que parecem flores. Há grutas misteriosas, azuis-escuras, roxas, verdes e há planícies sem fim de areia fina, branca, lisa. Tu és da terra e se fosses ao fundo do mar morrias afogado. Mas eu sou uma menina do mar. Posso respirar dentro da água como os peixes e posso respirar fora da água como os homens. E posso passear pelo mar todo e fazer tudo quanto eu quero e ninguém me faz mal porque eu sou a bailarina da Grande Raia. E a Grande Raia é a dona destes mares."

Sophia de Mello Breyner Andresen in "A menina do mar"