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sábado, 23 de agosto de 2008

Elsa Morante ( 1918 - 1985 )

" Os seus quatro romances abarcam todo um século: Menzogna e Sortilegio ( 1948 ) fala da busca obsessiva de encantamento e lança luz sobre a viragem do século XIX para o século XX. A Ilha de Arturo ( 1957 ) passa-se nos anos 20 e 30 e relata o adeus doloroso a uma infância e juventude paradisíacas; La Storia ( 1974 ) - um ajuste de contas com a Segunda Guerra Mundial - descreve o dia-a-dia de mulheres, crianças e animais inocentes expostos à violência da história; por fim, Aracoeli ( 1982 ), cuja acção se desenrola no período do pós-guerra, relata os esforços de um filho para descobrir o segredo em torno da vida da mãe, uma anadaluza exuberante, plena de alegria de viver, que as boas maneiras impostas pela sociedade só conseguiram revestir de uma camada de verniz fina e quebradiça.

No cerne de todas as histórias está a crise de um ser jovem, em formação, cuja experiência da adolescência é sentida como rejeição e desencantamento, como a expulsão do paraíso, e que se apropria da vida por intermédio da morte. A própria Elsa Morante chamou a atenção para os antecedentes originais da sua escrita: «A transição da fantasia para a tomada de consciência, da juventude para a maturidade, é, para todos nós, uma experiência fundamental e trágica. No meu caso, essa experiência apresentou-se-me acompanhada da guerra; daí que o meu encontro com a maturidade tivesse sido prematuro e se fizesse com violência sanguinária.» Os seus romances assemelham-se a sonhos, como observou no diário, surgido em 1938 - com a força da imaginação, transpor a nossa vida para uma outra realidade, enriquecendo-a.

Já nesse diário, à imagem do escritor Alberto Moravia, que Elsa Morante conheceu em 1936 e com quem viveu até 1962, impõe-se, como sempre, a da mãe: é a generosidade feminina em oposição ao egoísmo masculino. A autora reagia à sua identidade ferida de mulher com um arquétipo de feminilidade. A sua obra literária é, toda ela, ambivalente - com tanto de confortante, na solidariedade que envolve crianças e animais, quanto de ameaçador, na ferocidade indomável. "

Stefan Bollmann in "Mulheres que escrevem vivem perigosamente"

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Gao Xingjian

" Gao Xingjian nasceu na China em 1940 e vive em França desde 1988. Romancista, pintor, dramaturgo, encenador, crítico literário e poeta. As suas peças de teatro são interpretadas em todo o mundo e as suas tintas da China circulam nos quatro cantos do planeta. O seu magistral romance, A Montanha da Alma, teve, aquando da publicação em França em 1995, um excelente acolhimento, tanto por parte da crítica como dos seus leitores.
Gao Xingjian recebeu no ano 2000 o Prémio Nobel de Literatura. "

Retirado de "Uma Cana de Pesca para o meu Avô"

terça-feira, 1 de julho de 2008

Isabel Allende ( * 1942 )


" Alvo de um reconhecimento internacional muito grande, a chilena Isabel Allende deve a notoriedade, por um lado, ao apelido - o presidente Salvador Allende, assassinado quando do golpe militar no Chile em 1973, era primo do pai -, por outro, à fórmula imbuída de realismo mágico que adequou eficazmente aos seus fins. No cerne da sua obra estão o conflito de culturas e o poder libertador da escrita, com o qual se entrelaçam distanciamento e lembrança.

Em A Casa dos Espíritos ( 1982 ), a atormentada Alba é aconselhada a deixar-se de «lamúrias»: «Tens muito que fazer ... vai beber água e põe-te a escrever.» Motivada, pelo sucesso do primeiro romance, Isabel Allende toma, ela própria, esse conselho a peito: já escreveu vários romances e três livros juvenis, e as publicações sucedem-se a uma velocidade impressionante. Eva Luna ( 1987 ), o seu terceiro romance, conta a história da ascensão de uma rapariga pobre que, mais tarde, se consagrará como autora de telenovelas; por trás, esconder-se-á uma certa ironia da escritora sobre o seu percurso, já que, embora proveniente de uma família de diplomatas, trabalhou para televisão. Irónica é, igualmente, a inversão de conteúdo do episódio do pecado original a que procede para contar a história do continente latino-americano: Eva é filha de uma europeia que se perdera na floresta virgem e de um índio que fora mordido por uma serpente. Casada em segundas núpcias com um norte-americano e residente na Califórnia, em O Plano Infinito ( 1991 ), Isabel Allende põe em confronto a cultura anglo-saxónica e a subcultura dos Índios. Em Paula ( 1994 ), a autora-mãe relata à filha, em coma numa cama de hospital, a história da sua vida, na esperança de lhe adiar a morte, quem sabe, até, fintá-la, como Xerazade n'As Mil e Uma Noites. Mas Paula nunca mais acordará, e à narradora nada mais resta senão vergar-se perante o facto de a cadeia de transmissão entre gerações se ter quebrado. "

Stefan Bollmann in "Mulheres que escrevem vivem perigosamente "

terça-feira, 24 de junho de 2008

Agatha Christie ( 1890 - 1976 )

" A excentricidade não era seu apanágio; essa, Agatha Christie, cedeu-a a rodos aos assassinos dos sessenta e seis romances policiais que escreveu, os quais, mesmo quando se desembaraçam das vítimas de forma limpa e meticulosa, se situam sempre na zona de fronteira em que a marginalidade e a extravagância raiam a loucura. Nunca procedeu a uma análise sociológica do móbil dos seus criminosos, preferindo justificar-lhes a natureza assassina com a demência, que considerava uma falha genética. «Uma malformação das células cinzentas pode facilmente sobrepor-se ao rosto de uma virgem.»

Agatha Christie pertenceu à linhagem de filhas da alta burguesia inglesa entregues à guarda de uma nursemaid e que só raramente recebiam uma educação convencional. Foi, pois, no universo mágico da biblioteca da casa paterna que adquiriu o seu saber, e é nessa fase da sua vida que lhe nasce a predilecção por mistérios; quando, aos cinco anos, se apercebeu de que a preceptora se entretinha a tagarelar a seu respeito, jurou a si mesma que passaria a fazer segredo de tudo o que lhe dissesse respeito.

Persuadida do talento da filha, a mãe, que entretanto enviuvara, estimulava a jovem Agatha a redigir contos e romances, despertando nela o magnífico hábito da escrita, que - como observava com ironia - «ocupou, por assim dizer, o lugar dos bordados ou da pintura em porcelana». O que, no entanto, não a impediu de alcançar com vertiginosa rapidez o êxito que a guindou à condição de escritora mais lida no mundo e se deveu a um muito discreto profissionalismo.

A literatura policial, que, na opinião de W.H.Auden, devia consistir em «esconder o orgulho demoníaco do assassino quer das restantes personagens do romance, como do leitor» - teve a sua época áurea entre as duas guerras mundiais. Agatha Christie foi tão longe na arte de ocultar que, no mais perfeito e, simultaneamente, mais controverso dos seus romances, o eu-narrador acaba, ele próprio, por ser desmascarado como assassino. «Ela levou-nos a todos à certa», disse, maravilhada, a sua colega Dorothy Sayers. "
Stefan Bollmann in "Mulheres que escrevem vivem perigosamente"

sábado, 21 de junho de 2008

Doris Lessing ( * 1919 )


" Nascida na antiga Pérsia ( actual Irão ), criada na outrora Rodésia ( hoje África do Sul ), Doris Lessing vive em Londres desde 1949. A sua obra mais famosa, O Caderno Dourado, veio a lume em 1962. Leitoras do mundo inteiro viram nela a reprodução fiel da sua própria experiência, identificando na figura da protagonista - Anna Wulf, uma mulher desiludida com os homens, atormentada por dúvidas quanto ao compromisso político assumido e bloqueada na sua capacidade de escrita - alguém como elas. O livro tornou-se, pois, um ícone do feminismo, facto que a autora menospreza não porque lhe repugnem os objectivos do movimento feminista, mas por recusar ser tomada como uma figura salvadora - sem esquecer o facto de, apesar de se tratar de um romance filosófico, O Caderno Dourado não ser uma tese. Serve-lhe de enquadramento uma história convencional, intitulada Mulheres Livres, que retrata a crise existencial de Anna, uma mulher na casa dos quarenta, mãe divorciada de uma filha e em tratamento psicoterapêutico. A acção é intercalada pelos apontamentos que, receando o caos que lhe vai na alma, Anna regista em quatro pequenos cadernos: um preto, com as lembranças da África do Sul; outro vermelho, dedicado às suas actividades políticas em Londres; um amarelo, contendo os «esforços da sua imaginação», com ideias e projectos de livros que tenciona escrever; um azul, correspondendo à busca da sua identidade como escritora. Enfim, o quinto caderninho, o dourado, trata de um amour fou, que será, quer no caso de Anna quer no do amante, a via para a autocura.

São visíveis, na obra de Doris Lessing, laivos do conceito de «individualização», elaborado pelo psicanalista suíço Carl Gustav Jung e segundo o qual as crises existenciais correspondem a histórias do desenvolvimento do ser humano no sentido de uma tomada de consciência mais vasta. Por outras palavras: o consciente é amputado de uma parte anacrónica e, desse processo doloroso, resulta, em circunstâncias favoráveis, um novo todo da personalidade. É este, também, o modelo dos livros imbuídos de ficção visionária de Doris Lessing, entre os quais, por exemplo, The Memoirs of a Survivor, surgido em 1974, quando a consciência da catástrofe no mundo ocidental se agudizou ao extremo.

Stefan Bollmann in "Mulheres que escrevem vivem perigosamente"

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Sophie Scholl ( 1921 - 1943 )


" Não era escritora. Escrevia cartas de amor, mantinha um diário, redigia historietas - em suma, quase tudo o que as mulheres jovens da época faziam, dando expressão aos seus sentimentos e às suas representações da vida. Quando a última carta que escreveu ao namorado chegou às mãos deste - internado num hospital militar em Estalinegrado, depois de ter sido ferido em combate -, a sentença que a condenara à morte já fora executada. Quatro dias, quatro longos dias de interrogatórios intermináveis transcorreram entre a prisão e a execução. Afinal, Sophie Scholl sempre foi escritora; redigiu e distribuiu panfletos em que se lia: «Cada palavra que sai da boca de Hitler é uma mentira.» E: «Se formos muitos, poderemos, num derradeiro e prodigioso esforço, derrubar este sistema. "

Stefan Bollmann in "Mulheres que escrevem vivem perigosamente"

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Virginia Woolf ( 1882 - 1941 )


" Movimentos ondulatórios marcaram-lhe o percurso de vida: a casa paterna, vitoriana, a atmosfera sem restrições do Bloomsbury Group, a consolidação como divulgadora, o suicídio aos cinquenta e nove anos. O nome de Virginia Woolf simboliza, além disso, uma síntese invulgar da escritora de vanguarda que dá voz à vida interior e aos estados de alma do ser humano com a editora que, com o marido, Leonard, publica os livros da avant-garde literária. O seu livro O Quarto de Jacob (1922) surgiu no mesmo ano do Ulisses de James Joyce e do poema de T.S.Elliot A Terra Devastada, abrindo-lhe o caminho para o êxito literário. O livro foi publicado na própria editora dos Woolf, a Hogarth Press, onde, inicialmente, Virginia foi responsável editorial e compositora, e o marido gerente e tipógrafo. A Hogarth Press assegurar-lhe-ia a independência como escritora, permitindo-lhe considerar-se a única mulher «com liberdade para escrever o que quer» na Inglaterra do seu tempo.

Apesar da doença psíquica que a afectava, e não por causa dela - de facto, o mal ter-se-ia manifestado mesmo que não tivesse escrito -, Virginia Woolf revelou-se uma escritora de excepção, embora a escrita tenha sido, para ela, uma experiência necessariamente ambivalente: vivia dominada pelo receio de que os outros não encontrassem sentido no que escrevia e de que a tomassem por louca em vez da mulher brilhante que foi.

Revelou-se, todavia, uma observadora sagaz, incorrupta e infatigável da sua época e da vida. Como autora, deixou patentes na sua obra as experiências-limite que caracterizaram as diferentes fases da doença, dando-nos visões inestimáveis da fragilidade e vulnerabilidade da existência humana. Nada para si era mais importante do que preservar intacta a sua percepção e a integridade da sua arte. Apesar da doença, do medo e do sofrimento, a sua vida foi tudo menos submissa, pelo contrário: mostrou-se sempre uma mulher heróica, que, antes de deixar o marido para sempre, lhe escreveu: «Não creio que dois seres pudessem ter sido mais felizes do que nós.» "

Stefan Bollmann in "Mulheres que escrevem vivem perigosamente"

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Selma Lagerlöf ( 1858 - 1940 )

" Por duas vezes o gnomo Nils Holgersson desistiu de regressar ao mundo dos adultos: a primeira para ajudar um estudante universitário em desespero, a segunda para proteger o ganso Martin, às costas do qual sulca os céus da Suécia a fim de o poupar ao destino que lhe estava reservado se permanecesse fechado na capoeira da mãe: torcerem-lhe o pescoço, ir ao forno e ser depois servido à mesa. Nils acorre em seu auxílio e apresenta-se aos pais, contra a sua vontade, na forma de um gnomo. Nesse momento, readquire o tamanho normal, desaprende a linguagem dos animais e a sua infância chega ao fim. Ao reconhecerem perante os pais que não passam de dez réis de gente e dependem inteiramente deles as crianças mostram ter alcançado maturidade para abandonar o seu estatuto infantil.

A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia (1906-07) é, simultaneamente, um romance de aventuras, um «romance formativo», uma narrativa fantástica e, ainda, uma obra didáctica. Concebida para satisfazer a encomenda de um livro de leitura destinado aos alunos da primária feita à professora Selma Lagerlöf pelo Ministério da Educação sueco, acabaria por se converter também num manual da geografia da Suécia. A influência de O Livro da Selva, de Rudyard Kipling, surgido 1894, é patente: do mesmo modo que Máugli vive entre os lobos, também Nils Holgersson vive entre os patos. A fabulosa transformação de Nils num gnomo permite à autora alternar constantemente a perspectiva aérea com a obtida a partir do solo, proporcionando ao leitor uma visão do conjunto (a Suécia vista de cima) e, ao mesmo tempo, dos pormenores que costumam passar despercebidos. Uma deformação da anca reduzira Selma Lagerlöf ao papel de observadora; na ficção, a autora ganhou mobilidade.


Selma Lagerlöf foi a primeira mulher a receber o Prémio Nobel da Literatura em 1909. Desde então, mais oito escritoras conquistaram o galardão: Grazia Deledda (1926), Pearl S Buck (1938), Gabriela Mistral (1945), Nelly Sachs (1966), Nadine Gordimer (1991), Toni Morrison (1993), Elfriede Jelinek (2004) e Doris Lessing (2007). "

Stefan Bollmann in "Mulheres que escrevem vivem perigosamente"

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Jane Austen ( 1775 - 1817 )

" O entusiasmo, aparentemente, não era um traço distintivo delas, pelo contrário: o que impressiona nas personagens conhecidas dos romances de Jane Austen é, sobretudo, o carácter resoluto, mas só na medida em que são sujeitos da acção. Então, determinadas e animadas de presença de espírito, avançam em direcção ao objectivo traçado, sempre movidas por um sincero entusiasmo, sem vestígios de egoísmo ou oportunismo. É certo que, entre a escolha e o momento de alcançar a meta, têm de vencer todo um percurso de obstáculos, feito de preconceitos e convenções, e dos inerentes aborrecimentos e privações. A dose certa de sentimento e carácter não basta para se ser totalmente livre: antes e não raro, a liberdade tem de se mostrar associada ao sofrimento.

Pouco sabemos da vida de Jane Austen. «Duvido», escreveu James Edward Austen-Leigh, seu sobrinho, que «fosse possível nomear outro autor importante cuja pessoa tivesse permanecido mergulhada numa tão absoluta obscuridade.» Mas não devemos ver nisso uma manifestação de automodéstia feminina: são muitas as provas de que a opção de Jane Austen pela invisibilidade foi plenamente consciente, por entender ser a atitude certa a tomar como escritora. Não queria que a identificassem pela sua vida exterior, e sim pelas suas obras. Mas o nosso desconhecimento prende-se, também, com a situação das fontes. Cassandra, irmã de Jane Austen e autora do único retrato autêntico que nos chegou dela - ainda que apenas um esboço -, não só destruiu ou apagou excertos das cartas que lhe escreveu, como fez o mesmo com as que recebeu dela.

Jane Austen apresenta-nos os seres humanos quando as modernas formas de auto-realização ainda não determinavam os seus percursos de vida, logo sem o stresse e o sentimento de exaustão que elas envolvem. As personagens principais, sobretudo as femininas, assumem o seu destino com coragem, sinceridade e sem regatear. Fazem-no em nome de um dever com elas próprias e não com as convenções instituídas. A nobreza da sua autonomia radica numaa felicidade suprema que Jean-Jacques Rousseau, fonte inspiradora de Jane Austen, designou por «sentimento da existência» - um estado de amor a si que permite ao ser humano desfrutar-se exclusivamente, bem como à sua existência, e bastar-se por completo. "

Stefan Bollmann in "Mulheres que escrevem vivem perigosamente"