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domingo, 16 de junho de 2013

Talvez que seja a brisa

"Talvez que seja a brisa
Que ronda o fim da estrada,
Talvez seja o silêncio,
Talvez não seja nada ...
 
Que coisa é que na tarde
Me entristece sem ser?
Sinto como se houvesse
Um mal que acontecer.
 
Mas sinto o mal que vem
Como se já passasse ...
Que coisa é que faz isto
Sentir-se e recordar-se?"
 
Fernando Pessoa

Veneza

"Na ponte eu estava
Ao moreno anoitecer.
Distante veio um canto:
Douradas gotas corriam
Pela tremente planura.
Gôndolas, luzes, música -
Ébrias vogavam para a crepúsculo ...
 
A minh' alma, uma lira,
Cantava-se, invisivelmente vibrada,
Oculta canção de gondoleiro,
Tremente de irisada beatitude -
Mas alguém ouvia?"
 
Friedrich Nietzsche

quinta-feira, 13 de junho de 2013

E por vezes

"E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
 
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
 
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
 
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos"
 
David Mourão-Ferreira

domingo, 2 de junho de 2013

Amor como em casa

"Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraidíssimo percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde no café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa."
 
Manuel António Pina

quarta-feira, 15 de maio de 2013

"O Livro está em nós
Ou somos nós que estamos dentro do Livro?
Irá ele conduzir-nos para um além
Ou conduzi-lo-emos nós para o nada?
 
O Livro será entre nós ambos
Um fosso a preencher
Ou uma ponte a destruir?
 
O Livro será uma moradia ou um barco
Um vestuário uma máscara ou o nosso verdadeiro rosto?
Será ele nós por fim desvelado?
 
Os dados estão lançados e o nosso livro
Lá vai hesitante para o indefinido
De um destino que não se consumará."
 
Roberto Bréchon  em "Meditações Metapoéticas"

terça-feira, 14 de maio de 2013

"Eu quero abrir um livro
que tivesse a luz do trigo
onde pudesse beijar os joelhos de lua
de uma plácida mulher
 
Ou nela contemplar
em plena noite
a vasta delicadeza das constelações
enquanto lavasse as mãos
entre as imagens das estrelas
numa celha de água fresca."
 
António Ramos Rosa  em "Meditações Metapoéticas"

domingo, 12 de maio de 2013

"Abro os olhos e as janelas
Faço existir o dia
Volto a fechar o leito do tempo
Entro nos bastidores do sonho
Lavo o meu corpo na luz
Estou cheio de sons e de odores
Acordar é mudar de mundo."
 
Robert Bréchon  em "Meditações Metapoéticas"

sábado, 11 de maio de 2013

Ready-made

"Deixámos as águas
para nos retirarmos nas pedras
deixámos as pedras
para nos retirarmos nas árvores
deixámos as árvores
para nos retirarmos no ar
deixámos o ar
para construirmos as nossas estrelas
 
mas as pedras mas os pássaros
o ar e as estrelas
seguiram-nos no orbe do sonho."
 
Robert Bréchon em "Meditações Metapoéticas"

terça-feira, 7 de maio de 2013

"Símbolos? Estou farto de símbolos ...
Uns dizem-me que tudo é símbolo.
Todos me dizem nada.
 
Quais símbolos? Sonhos ...
Que o sol seja um símbolo, está bem ...
Que a lua seja um símbolo, está bem ...
Que a terra seja um símbolo, está bem ...
Mas quem repara no sol senão quando a chuva cessa
E ele rompe das nuvens e aponta para trás das costas
Para o azul do céu?
Mas quem repara na lua senão para achar
Bela a luz que ela espalha, e não bem ela?
Mas quem repara na terra, que é o que pisa?
Chama terra aos campos, às árvores, aos montes
Por uma diminuição instintiva,
Porque o mar também é terra ...
 
Bem, vá, que tudo isso seja símbolos ...
Mas que símbolo é, não o sol, não a lua, não a terra,
Mas neste poente precoce e azulando-se menos,
O sol entre farrapos vindos de nuvens,
Enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado,
E o que fica da luz do dia
Doira a cabeça da costureira que pára vagamente à esquina
Onde se demorava outrora (mora perto) com o namorado que a deixou?
 
Símbolos? ... Não quero símbolos ...
Queria só - pobre figura de magreza e desamparo! -
Que o namorado voltasse para a costureira."
 
Álvaro de Campos  em "O Engenheiro Aposentado (1931-1935)"

quinta-feira, 25 de abril de 2013

"Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.
(...)
Multipliquei-me para me sentir,
Para me sentir, precisei sentir tudo,
Transbordei, não fiz senão extravasar-me,
Despi-me e entreguei-me,
E há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente."
 
Álvaro de Campos  em "A Passagem das Horas"

sexta-feira, 29 de março de 2013

Canção de Outono

"Longos lamentos
Dos violinos
Do Outono
Trazem-me os finos
E doces ventos
De um monótono abandono.
 
Todo ofegante
A sós comigo
Chega o instante
E então demoro
No tempo antigo
E choro.
 
Tal como sou
No vento vou
Que me transporta
De cá p'ra lá
Semelhante à
Folha morta."
 
Manuel Alegre  em "Rouxinol do Mundo"

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

"Às vezes,
o mundo entra
pleno,
dentro de nós.
Ouvem-se cantar
todos os pássaros da terra;
tudo o que é silêncio
e tudo o que tem voz:
o sol, o mar, a chuva e o vento
e a noite com tudo o que ela encerra.
O mundo entra em nós, pleno
mas o homem só,
para tanto, é pequeno."
 
Maria Natália Duarte Silva  em "Mão Aberta - 1963"

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

"Encontro profundo
e universal
com o ser meu mundo
que é único, sem igual.
Com coisa nenhuma
partilhado
me torna em mim só uma
num todo variado."
 
Maria Natália Duarte Silva  em "Dispersos I - 1949-1950 [?]

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Borges

"Procuravas nos versos a entrada
de um labirinto sempre sem saída.
Nisso foste gastando a tua vida
como se nela não houvesse nada
 
mais precioso do que a melodia
ditada pelos sons do alfabeto.
Era o teu reino mágico e secreto,
o império de um cego que sabia
 
ver melhor que ninguém a luz da lua,
a sua claridade cor de prata
onde se projectava a imediata
transparência do mundo. Essa era a tua
 
maneira de atingires o mais divino
reflexo de um espelho imaginário,
o rosto do maior adversário
dentro e fora de ti, ó argentino
 
poeta que sofreste algures o lento
remorso de não teres sido feliz.
Uma vida é assim, Jorge Luis:
versos, poeira, sonho e esquecimento."
 
Fernando Pinto do Amaral  em "Saídas de Emergência"
 

sábado, 29 de dezembro de 2012

Às Escuras

"Não sei adormecer: a madrugada
respira num silêncio que é o teu
silêncio, nesta febre
a arder na minha alma tão antiga.
 
Lá fora os astros não respondem:
as montanhas diluem o tempo e o espaço
e todo o céu começa a dilatar-se
no êxtase mais negro enquanto bebo
o cego sofrimento de não estares aqui.
 
A tua ausência fala-me às escuras
e o olhar devora estas paredes,
o meu quarto vazio onde se oculta
o lume de uma estrela
pronta a morrer. A noite
chama ainda por ti dentro de mim
- sombra feita de luz,
à espera de outro sonho ou do teu próximo
sorriso."
 
Fernando Pinto do Amaral  em "Às Cegas" (1997)

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Gregory Heisler

"É sempre absoluta, essa primeira
serenidade ao ver-te: alguém me ensina
a obedecer aos astros,
a amar o teu enigma e a bebê-lo
gota a gota, perfeito
como um eclipse do tempo. Imóvel,
contemplo e absorvo
as lágrimas da luz na tua pele,
mas só de vez em quando é que vislumbro
uma estrela que desce ao coração
e deixa no teu rosto a flor de um beijo
para sempre adiado."
 
Fernando Pinto Amaral  em "Fragmentos de um Discurso Contemplativo"

domingo, 16 de dezembro de 2012

O Outro Lado

"Não consigo dormir. Há poucas horas
despedi-me de ti - «every time
we say goodbye
I die a little». Devo habituar-me
às fases dessa lua a que obedeces,
às estranhas marés de cada instante
que tu sabes viver como se fosse
o único, o melhor da tua vida
isenta de remorsos e de apegos,
tão próxima de tudo. A minha dor
vai-se apagando à medida que um anjo
desce ao meu quarto e começa a torná-lo
fugaz imitação de um paraíso
em que até o meu nome se alterasse.
 
Não há nada a fazer, no entanto
(...) sou ainda demasiado humano
para me libertar. Ainda não despertei,
ainda não tenho trinta e cinco anos
como Siddharta no momento em que
terá visto o vazio, escutado o inaudível.
 
Aquilo que vislumbro a esta hora
são rápidos reflexos de uma silhueta
que só podes ser tu
entre o céu e o mar, nessa noite
de lua cheia, quando abandonámos
um restaurante junto ao Guincho. Eu queria
ficar também assim, unir-me devagar
à linha do horizonte, sem saber
distinguir as fronteiras de coisa nenhuma.
 
Não hei-de conseguir: por mais que tente,
por mais que me desprenda ou desaprenda
os ritos e os ritmos do corpo ou da alma,
hei-de lembrar-me dos teus olhos vagos
e hei-de supor que estavam procurando
dizer-me qualquer coisa. Apenas o silêncio
poderia falar como eles
nessa plena doçura de existir
na maior paz do mundo. E contudo, para mim
cada palavra se conjuga sempre
com outras palavras, e assim por diante
até ao infinito, até formarem
por exemplo um poema como este
- inútil quer para mim, quer para ti
ou para qualquer leitor que nele ainda
pretendesse encontrar alguns vestígios
dessa tão pobre e má sabedoria
à qual, já só por hábito literário,
gostamos de chamar o coração."
(...)
 
Fernando Pinto do Amaral  em "A Escada de Jacob"

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

"Exercício espiritual"

"É preciso dizer rosa em vez de dizer ideia
é preciso dizer azul em vez de dizer pantera
é preciso dizer febre em vez de dizer inocência
é preciso dizer o mundo em vez de dizer um homem
 
É preciso dizer candelabro em vez de dizer arcano
é preciso dizer Para sempre em vez de dizer Agora
é preciso dizer O Dia em vez de dizer Um Ano
é preciso dizer Maria em vez de dizer aurora."
 
Mário Cesariny

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

"Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi
verdade - que não amei ninguém depois de ti nem
o meu corpo procurou nunca mais outro incêndio
que não fosse a memória de um instante junto
do teu corpo; e que deixei de ler quando partiste
por não suportar as palavras maiores longe da tua boca;
e que tranquei os livros na despensa e tranquei a despensa,
acreditando que, se não me alimentasse, acabaria
por sofrer de uma doença menor do que a saudade, mas
a que os outros, pelo menos, não chamariam loucura.
 
Se alguém me perguntar, direi que foi assim, e não de
outra maneira, como alguns parecem supor - que permiti,
bem sei, que outros homens me amassem e me aquecessem
a cama, mas em troca lhes dei apenas um nome diferente
do que tinham e os vi partir desesperados a meio
da noite sem sentir maior dor que a de saber que, afinal,
também eles não existiam para além de ti; e que no dia
seguinte dava comigo a trautear sem querer essa canção
que amavas (como se ela, sim, se tivesse deitado
no meu ouvido), mas que a sua melodia, em vez
de me alegrar como antes, me escurecia mais a vida.
 
Se alguém me perguntar, nada desmentirei, nem negarei
que os frutos todos que me deram a provar na tua ausência
me pareceram demasiado azedos ao pé dos que explodiam
em sumo nos teus lábios; e que, por isso, nunca mais quis
um beijo de ninguém, nem sequer inocente, e não voltei
também a aceitar as flores que me traziam por me lembrar
que, em mãos assim, tão grandes para o afecto, o seu
perfume anunciava invariavelmente a chegada do outono.
 
E contarei por fim, se alguém quiser saber, que o teu silêncio
foi de tal densidade, de tal espessura, que não consegui
escutar nenhuma das vozes que vieram depois de ti e, pior
do que isso, me esqueci com indiferença das mais antigas,
pelo que as minhas noites se tornaram uma tão longa
e solitária travessia que ainda esta manhã acordei ao lado
da tua sombra e respondi baixinho, mesmo sem ninguém
me perguntar, que há coisas que uma mala nunca leva."
 
Maria do Rosário Pedreira  em "O Canto do Vento nos Ciprestes"

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

"A Criação do Mundo"

"Olhou as mãos em concha e viu arredondar-se
um sonho dentro delas - um mundo
que ninguém podia adivinhar, pois dele
fariam também parte os magos e os profetas.

Abriu-as devagar e deixou cair as trevas como sementes,
para que então servissem unicamente de sombras
e prolongassem a memória das coisas por vir. Foi assim
que inventou a luz e separou um dia do seguinte.

Depois afastou o céu daquilo que viria a ser o mar,
como quem divide um lenço azul em dois e limpa
as lágrimas apenas a metade. No meio, deixou que
crescesse tudo quanto do chão quisesse escapar-se
para traçar a primeira geografia dos caminhos. E assim
 
descobriu a cor e encheu a sua paleta de animais
que rasgariam os céus, cruzariam os oceanos e
revolveriam as entranhas da terra na estação
das chuvas. Por fim, semeou pequenas clareiras
 
nas florestas, pedras nas vertentes das cordilheiras,
cristais de neve no contorno dos lagos, estrelas cadentes
na vizinhança do desespero e rios serpenteantes
entre as searas louras, mordidas por um sol que lhe caiu
quase sem querer dos dedos, mas lhes aproveitou o calor.
 
E, apesar da alegria que experimentou, sentiu que o seu
mundo era tão frágil que, se desviasse os olhos, tudo acabaria
por regressar ao pó, às trevas e ao verbo. Só por isso criou alguém
que também o visse e lhe dissesse todos os dias como era belo."
 
Maria do Rosário Pedreira  em "O Canto do Vento nos Ciprestes"