Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Biografia

"Procurou as origens do arco-íris, a natureza
da transformação das plantas, o ritmo exacto
do movimento e da mudança dos planetas; o seu
horóscopo, por outro lado, tinha um aspecto
único - acumulação solar de influências no
zénite. Com tudo isto, passou mal algumas noites:
dúvidas quanto ao rumo a dar ao pensamento,
libertação de hesitações da fase de passagem
da adolescência à maturidade, a evocação de
um corpo desejado havia anos, em Itália, numa
época de plenitude. Porquê, pensou, perder tempo
com a especulação filosófica e a meditação
poética numa vida que tão pouco iria contar
num ciclo de eternidades?"
(...)

Nuno Júdice  em "Enumeração de Sombras" [1989]

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Saturno e os seus anéis

"Que singular capricho
E que vaidade humana
O tem persuadido
A usar no Infinito
Essas jóias tamanhas?

Que imitação terrena
A sua vida expande!
Como pode um planeta
Assemelhar-se tanto
A um mortal qualquer?

Que mistério profundo
Envolve aquele rasgo
De exibição e luxo?
Na amplidão do espaço
Os anéis de Saturno ..."

Cabral do Nascimento [1897-1978]

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Narciso

"Ouço dizer que as águas cantam o amor, correndo,
e que nas suas margens há arbustos debruçando
tristezas profundas. Mas nem as águas nem o vento
nos arbustos me falam de mim; eu, que solitário
me debruço numa ânsia de tocar-me, e o rosto perco
no abismo da superfície; que o segredo que oculto
em mim persigo, num silêncio me evocando entre
os alheios rumores da vida; e que o tempo esqueço,
absorto na minha própria alma que obscureço."

Nuno Júdice  em "Lira de Líquen" {1985}

terça-feira, 15 de maio de 2012

Para que esse autor regresse

"Veio uma época de perturbação: os valores, o clima, o equilíbrio das almas ... Até o escritor, quando pretendia exercer o seu trabalho de análise ou criação, encontrava perante ele as insuperáveis dificuldades da névoa, a indecisão do discurso, a pobreza de ideias (de ideais). A sua intervenção tornou-se pobre e difícil. Mas não desesperou. É ele quem, dia após dia, tenta renascer, ou procura apenas que, num instante súbito, o antigo génio regresse em pleno ao coração da página. Tornou-se lírico; mas preferia que o espírito da prosa o voltasse a iluminar.
Citou, para consigo próprio, casos terríveis como exemplo e frustração. A decadência, que nesses casos assumira as formas extremas da humilhação ou da loucura, tirava-lhe o ânimo. Só ao ouvir certos passos das obras ignoradas dos antigos mestres de música sentia um novo sopro aquecer-lhe a inspiração. Levantava-se do torpor, agitava o corpo, a cabeça. Mas nem isso lhe foi suficiente. Em conversas, falando com estranhos ou conhecidos, estes assuntos desapareciam: substituídos pelas coisas banais e quotidianas, ou pela política. Mas pouco a pouco, enquanto o ambiente escurecia com a proximidade do inverno, e a necessidade de colocar novas e mais temíveis máscaras surgia, as bocas torciam-se em risos despropositados, e as palavras perdiam os seus sentidos imediatos para se sobreporem a indicações precisas e coincidentes na direcção de uma definitiva queda.
Não vos volteis para o abismo, ó poetas. O brilho apaga-se na palma das mãos, e o génio não exerce o seu poderoso fascínio sobre as multidões amortecidas. Por que regressais ao vazio, ao refúgio em nada? Acaso não são estes os dias da exaltação e do medo? Dizem-me que de nada serve o perdido gesto pelo fogo ... mas - e a vida artificial do olhar? Os relâmpagos da pulsação? A sangrenta epopeia das reticências?"


Nuno Júdice  em "Nos Braços da Exígua Luz"  [1976]

domingo, 13 de maio de 2012

O meu corpo é um planeta

"O meu corpo é um planeta entregue a órbitas elípticas,
disposto em intervalos redimensionáveis em sequências
giratórias, tão vulneráveis a componentes gravitacionais
como a proximidade dos teus quadris num eixo ôntico
que descreve a rota de satélites e a natureza endémica
das intempéries; um veio magnético, magmático, coisas
como punhais, umbigos, umbrais, o desassossego
ou apenas a estância fúnebre do teu olhar."

José Rui Teixeira  (1974)

sábado, 12 de maio de 2012

Einstein foi uma espécie de pirilampo ...

"Einstein foi uma espécie de pirilampo, uma das raras
pessoas a possuir luz própria num século onde a maioria
tacteava no escuro.

24 july 1969 5 am. Neil Armstrong punha o primeiro
pé na lua. Eu dormia profundamente. E o meu sono
tornou-se nesse momento setenta quilos mais pesado.

Desde que os americanos descobriram que as estrelas
tinham pulgas que não me deixa esta comichão sideral."

Jorge de Sousa Braga  (1957)

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Pitágoras

"Do número, tudo nascia:
outros números, a verdade,
a curva que o astro seguia,
a beleza, a vida, a cidade.
Teu ousar tudo resolvia.
Só dentro de ti não cabia
raiz de dois ser realidade."

Eugénio Lisboa  (1930)

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Do fundo da inconsciência

"Do fundo da inconsciência
Da alma sobriamente louca
Tirei poesia e ciência
E não pouca.
Maravilha do inconsciente!
Em sonhos sonhos criei
E o mundo atónito sente
Como é belo o que lhe dei."

Fernando Pessoa  (1888-1935)

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Evolução

"Fui rocha, em tempo, e fui, no mundo antigo,
Tronco ou ramo na incógnita floresta ...
Onda, espumei, quebrando-me na aresta
Do granito, antiquíssimo inimigo ...

Rugi, fera talvez, buscando abrigo
Na caverna que ensombra urze e giesta;
Ou, monstro primitivo, ergui a testa
No limoso paul, glauco pascigo ...

Hoje sou homem - e na sombra enorme
Vejo, a meus pés, a escada multiforme,
Que desce, em espirais, na imensidade ...

Interrogo o infinito e às vezes choro ...
Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro
E aspiro unicamente à liberdade."

Antero de Quental  (1842-1891)

terça-feira, 8 de maio de 2012

O Painel da Natureza

"Minha sorte foi brilhante,
Minha sorte é hoje triste;
Nestas mudanças consiste
A sorte de todo o amante:
Sumiu-se a Lua radiante,

Que estava em fulgor acesa;
Minha dor, minha tristeza
Com mil reflexões misturo,
Vendo ora claro, ora escuro
O painel da Natureza

O Olimpo, assustando a Terra,
Dando-lhe mortais desmaios,
Raios em cima de raios
Das entranhas desencerra:
Os elementos em guerra
Blasonam mútua braveza;
Neste horror, nesta graveza,
Que não cede, não se acalma.
É o quadro da minha alma
O painel da Natureza."

Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)

quinta-feira, 19 de abril de 2012

A Praia de Tourgeville

«BOUDIN, Eugène - Pintor do ar livre, do céu e do mar, foi o primeiro a procurar fixar os aspectos de constante transformação da natureza.»

"Neste óleo sobre tela, assinado em baixo, à esquerda,
parece-me ver o excessivo amor com que, alguns dias, olho
o horizonte inteiro e as nuvens, como se chovesse, como se o rosto,
sob o peso da humidade, atraísse as suas próprias lágrimas.

Na orla do mar, manchas negras e nítidas, um grupo de mulheres
contempla, em silêncio, em religiosa veneração, a espuma embranquecida
das ondas que rebentam. Não longe de terra, e até à linha das falésias,
a leve impressão do voo das gaivotas, aves marinhas, sombras velozes sobre
o branco escurecido das velas. E o mar, forma enevoada no cinzento
pleno do amanhecer de inverno, atmosferiza em vago e dor o conjunto,
absorve cor, influencia indefinição. Já em terra, no canto inferior
esquerdo, um homem desatola um carro atrelado - e parece imóvel.
Revejo o pintor ao ar livre, pintando este quadro. Procurando,
na rigorosa imobilidade dos tons, o movimento natural da paisagem,
não precisou de psicologia, não recorreu à imaginação e ao sonho,
não imitou - reconstruiu um ambiente, perfilizou um horizonte,
fixou, sem liberdade de técnica, com mobilidade sugerida, a praia
de Tourgeville, o mar. A projecção de impressões sobre o solo, a água,
o céu, a intensidade esbatida da luz, tudo o que é efémero,
aqui encontro - sem contrastes violentos, com solidão descendente.

Na origem, a ausência quase de desenho. A sóbria oposição de umas
a outras manchas, o litoral sem o difícil contorno dos rochedos,
formas extensas e assimétricas - isto é, uma arte intimista que,
recusando o barroco, assume a inteira claridade do seu próprio
desenho, recusa o desígnio e a estética, interessa-se, com sábio
misticismo, pela melancolia e pela tristeza, pela fúria tranquila
da composição, pelo estudo da alma e da paisagem, pela descoberta
da sombra e da cor, pelo movimento da realidade, pela pura alusão."

Nuno Júdice  em "A Noção de Poema" [1972]

quarta-feira, 18 de abril de 2012

De Uma Noite de Tempestade

"A noite, agitada por crescentes tempestades,
como se torna subitamente imensa -,
como se habitualmente estivesse recolhida
nas ínfimas dobras do tempo.
Não acaba onde as estrelas tentam detê-la
nem começa no meio da floresta,
nem no meu semblante
nem na tua forma.
Os candeeiros balbuciam e não sabem:
mentimos luz?
É a noite a única realidade
desde há milhares de anos ..."

Rainer Maria Rilke  em "O Livro das Imagens"

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Pressentimento

"Sou como uma bandeira rodeada de distâncias.
Pressinto os ventos vindouros e tenho de vivê-los,
enquanto as coisas em baixo ainda nem se tocam:
as portas ainda se fecham suaves e há silêncio nas chaminés;
as janelas não vibram ainda e o pó ainda é pesado.

Mas eu já conheço as tempestades e agito-me como o mar.
E estendo-me e afundo-me dentro de mim
e lanço-me à terra e estou completamente só
na tempestade imensa."

Rainer Maria Rilke  em "O Livro das Imagens"

Implorando o sopro (Zunhis)

"Implorando o sopro do ser divino,
o sopro que dá a vida,
o sopro de muita idade,
o sopro das águas,
o sopro das sementes,
o sopro da fecundidade,
o sopro da abundância,
o sopro do poder,
o sopro da força,
o sopro de todas as espécies de sopro,
pedindo o seu sopro,
inspirando o seu sopro no calor do meu corpo,
incorporo o seu sopro
para que vivas sempre luminosamente."

"Poemas Ameríndios - Poemas mudados para Português por Herberto Helder"

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Solidão

"A solidão é como uma chuva.
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios ..."

Rainer Maria Rilke  em "O Livro das Imagens"

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A Criação (Koguis)

"Primeiro era o mar. E tudo estava escuro.
Não havia sol, nem lua, nem pessoas, nem animais, nem plantas.
Apenas o mar estava em toda a parte.

Era a Mãe.
Era água e água em toda a parte,
e era rio, lagoa, cascata e mar,
e estava em toda a parte.
Primeiro era apenas a Mãe.
A Mãe não era gente, nem nada, nem coisa nenhuma.
Era pensamento ou ideia.
Era espírito daquilo que viria,
era pensamento e memória.
A Mãe existiu apenas no mundo mais baixo,
nas profundidades,
só e única.

Então quando a Mãe assim existiu,
formaram-se em cima as terras, os mundos, até onde se encontra agora o nosso mundo.
Eram nove, os mundos, e formaram-se assim:
primeiro era a Mãe e a água e a noite.
Ainda não havia amanhecido.
Também existia um Pai.
Aquela Mãe e aquele Pai tinham um filho.
Mas não era gente, nem nada, nem coisa nenhuma.
Era espírito e pensamento.
Este foi o primeiro mundo, o primeiro sítio, o primeiro instante.

Formou-se então mais acima outro mundo, o segundo mundo.
Havia então um Pai que era um tigre.
Mas não era tigre como animal, era tigre na ideia.

Formou-se então mais acima outro mundo, o terceiro mundo.
E começou a haver pessoas. Mas eram pessoas sem ossos nem força.
Eram como vermes.
Nasceram da Mãe.

Formou-se então o quarto mundo.
Havia duas Mães e um Pai.
Este Pai foi quem primeiro soube como seriam as pessoas do nosso mundo,
foi quem primeiro soube que essas pessoas teriam corpo, braços, pernas, cabeças.

Formou-se então outro mundo e neste mundo estava a Mãe.
Ainda não havia casas, e então formou-se a primeira casa,
não com paus nem cipós nem palha, mas apenas no espírito.
Já havia pessoas, mas faltavam-lhes as orelhas, os olhos, os narizes.
Só tinham pés.
Então a Mãe ordenou que falassem.
Foi a primeira vez que as pessoas falaram,
mas como ainda não existia linguagem, vinham e diziam:
«noite-noite-noite»,
e já havia cinco mundos.

Formou-se então o sexto mundo.
Havia Mãe e Pai.
Começaram a formar um corpo inteiro com braços, pés e cabeça.
Começaram a nascer os Donos do Mundo.
Primeiro foram dois, e o mundo dividiu-se em duas partes, em dois lados:
o Azul e o Negro,
e em cada lado havia nove Donos do Mundo.
Os do Lado Esquerdo eram todos Azuis,
Os do Lado Direito eram todos Negros.

Formou-se então o oitavo mundo.
Havia Mãe e Pai.
Mas quando se formou este mundo, aquilo que a seguir ia viver não estava ainda completo.
Mas estava quase completo.

Ainda existia água em todos os lados.
Ainda não havia amanhecido.

Formou-se então o nono mundo, o nosso mundo.
Mas ainda não havia terra.
Ainda não havia amanhecido."

"Poemas Ameríndios - Poemas mudados para Português por Herberto Helder"

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

"Despojo"

"Já depois de colhido
pela mão do segredo,
o amor foi cortado
com a faca do medo.

Das metades mordidas
na vertente das fugas,
tão-somente ficaram:
remorsos, raivas, rugas."

David Mourão-Ferreira in "Tempestade de Verão (1950-1953)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

"Poema Inquieto"

"O que desejo causa-me desgosto.
O que desejo não amo.
- É um relâmpago, o que desejo,
breve passando no meu gosto.

E o meu amor anda bem longe do meu desejo.

Obedecendo-me,
às vezes
busco juntá-los.
Mas logo entre os dois me vejo,
na desolada estepe da distância,
em lágrimas de fogo a separá-los.

O que desejo sei donde vem,
sei onde vai acabar.

Mas o que eu amo? Mas o que amo é ânsia!
É o que tenho mais perto e mais distante!
Quando me sinto morto,
é uma origem de espírito,
que, misteriosa, adeja,
eterna luz ... mas instante
que me estrangula agora se possuo
e me ressurge logo quando beija.

O meu amor,
não sei donde ele vem nem onde vai acabar.

Não justifico o meu amor.

E a buscar-lhe o tamanho,
à volta do desejo,
penso no céu,
penso no mar,
no sol e nas estrelas.

Mas estas coisas grandes mais ainda amando,
todas elas, em meu amor,
já bem mesquinhas formas vão tomando.
E vejo todo o céu uma nuvem de algodão azul;
o mar um poço quase vazio;
o sol uma fogueira mísera,
extinguindo-se,
matando a luz, fonte de frio,
e as estrelas, insectos que pairassem baixo.

Não justifico o meu amor,
que, logo a um beijo seu,
qualquer milagre universal se opera:
tudo o que é enorme é já sem fim, depressa,
e para cada coisa sou visão sem fim ...

Se eu olho o sol, só vejo o sol,
bem frente à luz!
Se olho mundos a todos vejo perto
e a cada um,
porque se longe estou,
é só de mim.
Até que na minha queda,
por meu amor ainda,
um gesto da beleza me procura,
e a minha lama atingindo-o,
mesmo assim,
esse gesto me guia e me liberta
de tanta humana sepultura.

Matando o meu desejo eu continuo morto.
O meu desejo é forma, que do fogo à cinza
se completa e jamais insinua.
Porém o meu amor é alma, que se esfuma,
na terra,
e alma continua,
numa eterna inquieta miragem de céu aberto ...
Assim, de tudo o que amo ando afastado.
Ando afastado e perto!"

Edmundo de Bettencourt

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Luar

"Apenas o luar chegou,
desfez-se em asas no ar.
E toda a noite levou
a regressar devagar ...

Em noites alvas, de lua,
não há nudez com vergonha.
À luz do luar, o barro
é o mármore com que sonha.

À luz do luar, as aves
nocturnas, breves, enlanguescem
e, ao seu crepúsculo da sombra,
mortas de sonho adormecem ...

Os silêncios do luar são
além de notas agudas,
são gritos paralisados
em rictos de bocas mudas!

O luar rouba ao escuro
o que de dia é segredo.
À luz do luar podemos
ver respirar o arvoredo ...

Canção ouvida ao luar
não terá ritmos perdidos
-é som vivendo no olhar
-luz que fica nos ouvidos.

À luz do luar a água
soluça todas as dores,
que à luz do luar a água
tem na cor todas as cores.

Para se ouvir, da paisagem,
as baladas de que é tema,
a luz do luar é como
o silêncio no cinema...

A fantasia do luar,
com transparências, neblinas,
ressurge as cidades mortas,
desfaz as vivas em ruínas.

Exposta ao sol uma cruz
é Jesus ensanguentado.
Mas, à luz do luar exposta,
é Jesus aureolado!

Ó luar, em gestos de ramos
e ritmos da aragem leve,
compondo bailados de anjos
entre cenários de neve!

Luar! ó íman dos longes,
com magias de holofote,
para eu ver minha sombra
a desenhar D.Quixote!

Ó luar no meu olfacto
-aroma de violetas...
breve em meu olhar:-varandas
de Romeus e Julietas...

Luar do mar todo em franjas,
às brisas numa baía
-quero embarcar nos teus barcos
de soturna fantasia!

Luar da contradição,
com luz de todo o momento,
a dar mais corpo e mais alma
a um e outro elemento!

Sagrado luar velando
a cor do meu realismo.
E, humano, colorindo
a face ao meu romantismo...

Luar! Quando cerro os olhos
és lá doçuras de bruma,
como, nos olhos dum cego,
carícias brancas de pluma!..."

Edmundo de Bettencourt in "O Momento e a Legenda"