segunda-feira, 31 de março de 2008

Lês com uma ferocidade suspensa ... !


" Lês com uma ferocidade suspensa. Como se indefinidamente pudesses guardar a respiração. Como se interminavelmente voasses à mesma altura sobre as páginas que vais regularmente passando, sobre uma paisagem aparentemente uniforme, visto que se trata de um desses livros gloriosos que interminavelmente falam. Quem o conhece já, calcula talvez: agora irás sobre o incêndio da casa, afastada da cidade, em cujo estábulo vivia o negro que era quase branco; ou sobre a mulher que ao princípio chega à serração enquanto o homem lá trabalha, esquecido, com uma devoção alheia e insistente. Com uma devoção contrária tu lês ... "


Manuel Gusmão in " O Leitor escreve para que seja possível "


domingo, 30 de março de 2008

" O CASTELO " DE FRANZ KAFKA



" Juntamente com O Processo e América, O Castelo forma, na obra de Kafka, aquilo a que Max Brod chamava a «trilogia da solidão».
Estes três romances marcam também os mais altos momentos da criação kafkiana e aquele que ora apresentamos não é certamente dos menos conseguidos.
Hermann Hesse considerava-o mesmo «o mais misterioso e o mais belo dos grandes romances de Kafka».
Toda a acção gira à volta dum misterioso indivíduo, K. de seu nome, que chega a uma aldeia contratado pelo castelo de que esta depende, para nela exercer a sua profissão de agrimensor, e dos seus desesperados esforços para entrar em contacto com o tal Castelo. "
Nesta obra deparamo-nos com uma crítica excepcionalmente inteligente à sociedade em decadência, à burocracia estatal.


O personagem surge como alguém enigmático que não encontra respostas para as suas dúvidas e que empreende uma luta desesperante contra um mundo em silêncio, contra uma autoridade inatingível e indiferente, contra o fenómeno da incomunicabilidade, fenómeno este, tão patente nos dias de hoje.


Esta narrativa foi interrompida abruptamente por seu autor no meio de uma frase. Todavia, e apesar das fortes críticas, o facto de ter sido deixada em aberto a intenção do escritor, proporcionou-me a liberdade para imaginar o seu final e ponderar até que ponto é que não seria o castelo uma divagação do inconsciente de K.!

sábado, 29 de março de 2008

AMAR


Eu quero amar, amar perdidamente !

Amar só por amar: Aqui ... além ...

Mais este e aquele, o outro e toda a gente ...

Amar ! Amar ! E não amar ninguém !


Recordar ? Esquecer ? Indiferente ! ...

Prender ou Desprender ? É mal ? É bem ?

Quem disser que se pode amar alguém

Durante a vida inteira é porque mente !


Há uma primavera em cada vida:

É preciso cantá-la assim florida,

Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar !


E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada

Que seja a minha noite uma alvorada,

Que me saiba perder ... pra me encontrar ...


Florbela Espanca

quinta-feira, 27 de março de 2008

NÃO É O AMOR ...


" Não é o amor o resultado do impulso, de uma força súbita que parece ter raízes no fundo das entranhas e emerge, cega e desvairada, como a fúria do vendaval ?

Não é o amor a incarnação mesma da espontaneidade ?

Não é o amor fogo que consome alma e corpo, que tudo corrói, numa cegueira que se não sabe de onde vem ou para onde vai ?

Não é o amor fulguração e fascínio, fogueira de corações e arrebatamento de sentidos ? "


Ovídio in " Arte de Amar "

quarta-feira, 26 de março de 2008

ARTE ... ORIGINALIDADE !

Johannes Vermeer - The Girl with the Pearl Earring

" ( ... ) a arte teve e tem de ter uma história. Se não tivesse, se os artistas estivessem apenas preocupados em fazer bonitas pinturas, ou poemas, ou sinfonias, etc, a possibilidade de criação de objectos esteticamente agradáveis ficaria rapidamente esgotada. Teríamos ( talvez ) várias pinturas adoráveis, mas iríamos cansar-nos delas rapidamente, pois seriam todas mais ou menos iguais. Porém, os artistas não procuram apenas produzir obras de beleza. Procuram produzir obras originais de beleza. E quando conseguem obter esta originalidade chamamos «grandes» às suas obras não apenas porque são belas mas também porque desvendaram, tanto para os artistas como para os apreciadores, domínios de beleza desconhecidos e inexplorados.

Homens como Leonardo, Rembrandt, Haydn, Goethe e Vermeer são grandes não apenas pela excelência das suas obras mas também pela sua originalidade criativa que passou a inspirar outros artistas conduzindo a desenvolvimentos novos e esteticamente valiosos na história da arte. É, na realidade, a própria procura da originalidade criativa que assegura a continuação e a importância de tal história. "


Ludwig Wittgenstein

segunda-feira, 24 de março de 2008

O Leitor Ama !


" Figura luminosa no meio da noite, o leitor irradia pela sala a aventura do livro. O leitor ama. O seu nome, o seu amor ecoa nas sílabas imóveis da frase que os seus olhos perseguem. As letras da sua história rolam arrastadas pelas frases do livro, rolam como de um rio águas e populações, chocando-se, depositando-se em movimento lento no leito dessas frases. Conquistam um sentido heróico e falso. "


Manuel Gusmão in " O Leitor escreve para que seja possível "

domingo, 23 de março de 2008

ARTE


Vejo a arte definida

Na forma de descrever

O bem ou o mal que a vida

Nos faz gozar ou sofrer


Um poeta de verdade,

Se se souber compreender,

Não deve ter vaidade

De o ser, porque o é sem querer.


Ser artista é ser alguém!

Que bonito é ser artista ...

Ver as coisas mais além

Do que alcança a nossa vista!


A arte é força imanente,

Não se ensina, não se aprende,

Não se compra, não se vende,

Nasce e morre com a gente.


A arte é dom de quem cria;

Portanto não é artista

Aquele que só copia

As coisas que tem à vista.


A arte em nós se revela

Sempre de forma diferente:

Cai no papel ou na tela

Conforme o artista sente.


António Aleixo


O QUE É A ARTE ?

" A Grandeza de uma obra de arte está fundamentalmente no seu carácter ambíguo, que deixa ao espectador decidir sobre o seu significado. "
Theodor Adorno


No livro "O que é a Arte?" de Nigel Warburton, são abordadas algumas teorias bastante interessantes de definição do conceito.


Para Clive Bell a arte é FORMA SIGNIFICANTE ( combinação de linhas, formas e cores em certas relações, com poder para produzir uma emoção estética ).
É uma teoria centrada exclusivamente nos aspectos visuais das obras de arte: as intenções dos artistas, o contexto histórico, e assim por diante, são irrelevantes. O que faz de algo uma obra de arte é a sua capacidade para produzir um certo tipo de efeito no apreciador sensível em virtude da sua aparência.


Numa perspectiva essencialmente romântica do artista, R.G. Collingwood defende que A VERDADEIRA ARTE É A EXPRESSÃO IMAGINATIVA DA EMOÇÃO, ou seja, a clarificação de um sentimento inicialmente vago que através da sua expressão se torna claro.


Ludwig Wittgenstein parte da ideia de que a ARTE não pode ser definida isolando as suas qualidades essenciais, sendo esta um CONCEITO ABERTO. Como tal, permite a possibilidade de casos novos e inesperados que não partilham necessariamente uma presumível característica comum.


A teoria institucional, que teve como principal defensor o filósofo americano George Dickie, não destaca o aspecto de uma obra de arte mas o seu CONTEXTO: o modo como é tratada por quem quer que a tenha criado e por quem a expôs e apreciou. É uma teoria que explica o que as obras de arte têm em comum ao chamar a nossa atenção para as suas PROPRIEDADES RELACIONAIS e NÃO VISÍVEIS.


Para o autor do livro, e perante as inadequações de um conjunto de definições existentes, a hipótese mais plausível é que O TERMO "ARTE" NÃO É PASSÍVEL DE SER DEFINIDO.
Devemos deixar de perder tempo com a tentativa de encontrar uma definição completamente abrangente. É MELHOR CENTRARMO-NOS EM OBRAS PARTICULARES E INTERROGARMO-NOS POR QUE SÃO ARTE E QUE IMPORTÂNCIA PODERÁ TER PARA NÓS ESSE FACTO.

sábado, 22 de março de 2008

" Mulheres Que Lêem São Perigosas ! "


" As imagens de mulheres a ler possuem uma beleza muito particular, um encanto e uma expressividade únicos. "


Stefan Bollmann in "Mulheres que lêem são perigosas"

sexta-feira, 21 de março de 2008

O Leitor ...


" ... o leitor muda de página e muda ao mesmo tempo de paisagem, de país, de fuso horário, de século: a leitura é uma máquina histórica e geográfica, uma esquizofrenia generalizada ... "


Eduardo Prado Coelho in " Se o Leitor escreve, tu escreves "

quinta-feira, 20 de março de 2008

A Natureza da Paixão


" É essa a natureza da paixão ... Arde intensamente e depressa e consome-se com demasiada avidez para que apenas o sexo a mantenha satisfeita. Por isso, assim que o sexo segue o seu curso, as chamas da paixão extinguem-se e, se tivermos sorte, sobrevivemos à queda. "


Robert Wilson in " As Mãos Desaparecidas "

terça-feira, 18 de março de 2008

"Expiação " De Ian McEwan


Citando Jane Austen e Henry James, esta obra-prima de Ian McEwan reporta o desmonoramento de todo um tecido familiar e afectivo provocado por um simples olhar e imaginação de uma criança de 13 anos, após assistir a uma cena bizarra entre a irmã mais velha e o filho de uma empregada.

Numa tentativa infantil de repor a organização do seu mundo interno, acaba por acusar um inocente de um crime sexual que ele não cometeu. A partir desta altura, a sua vida assume a forma de um constante duelo moral que Briony tentará expiar através do solitário ofício de imaginação da escrita. Mas será possível a expiação ?

segunda-feira, 17 de março de 2008

21 DE MARÇO ... DIA MUNDIAL DA POESIA !


A NÃO PERDER ... EU VOU LÁ ESTAR !



"Com o objectivo primeiro de defesa da diversidade linguística, a UNESCO decidiu, em 1999, proclamar o dia 21 de Março Dia Mundial da Poesia.Venha comemorar connosco este dia, entre as 14:00 e as 19:30.O Plano Nacional de Leitura (Ministérios da Educação e Assuntos Parlamentares) e o Centro Cultural de Belém (Ministério da Cultura) associaram-se para assinalar a data, no ano de 2008. Excepcionalmente, e porque este ano o dia 21 de Março é Sexta-Feira Santa, vamos comemorar o Dia Mundial da Poesia no sábado, dia 22 de Março.
22 Mar 2008 - 12:00 às 20:30
Para todo o público

VÁRIOS LOCAIS

Entrada pela Recepção do Módulo 1 ou pelo Foyer dos Auditórios/Praça Museu
ENTRADA LIVRE

O programa, que se estenderá das 12:00 às 20:30, ocupando todo o piso térreo do Centro de Reuniões, inclui uma feira do livro de poesia, conferências, audição de DVDs de poetas, uma exposição de poesia visual e culminará com um espectáculo no Grande Auditório. "


Ver o Programa em http://www.ccb.pt !

domingo, 16 de março de 2008

O Corpo


" Nunca estive tão só diz o meu corpo e eu rio-me

porque o corpo é o corpo

não tem nada a fazer
não tem para onde ir

não lembra
não se lembra
quer estar sempre agarrado

suprimido

apertado

e se é belo é pior

vive num amarrote permanente "


Mário Cesariny in " A Cidade Queimada "

sábado, 15 de março de 2008

" Diário De Um Casal II "


Diário da Maria

Quando o amor se torna previsível deve ser uma grande chatice !


" Que dia que vou ter hoje. Trabalho de manhã e à tarde, compras no supermercado à hora de almoço, tomar café com a Marta que está cheia de problemas com o marido, ir para casa, fazer o jantar, arrumar a loiça e, finalmente, esticar-me um bocado a conversar com o Manel. Pergunta-me a Marta, uma descrente da conjugalidade, mas o que é que ainda tens para lhe dizer?

Houve tempo em que também me fazia confusão pensar em viver muito tempo com uma pessoa. Agora já não. Mas tenho a perfeita noção de que qualquer relação pode acabar quase de um dia para o outro. É a chamada imprevisibilidade do amor, que quando se torna previsível deve ser uma grande chatice.

Se eu soubesse o que sei hoje se calhar não me tinha metido num casamento, mas todos nós se soubéssemos o que nos vai acontecendo ao longo da vida, não vivíamos, oscilávamos entre a exaltação e a fossa. Se alguém me dissesse, hoje, que já desejei tanto acabar com esta relação, que a raiva que senti me inundou completamente, eu dir-lhe-ia que estava a ver outro filme. Como é que eu consegui limpar dentro de mim tudo isto e não ficar amarga e chata?

A Marta passa a vida a dizer-me - tu não conheces os homens, dão muito jeito para muita coisa, mas não são fiáveis, eles passam e os filhos ficam ...

Mas o que é isto de ser fiável, é jurar amor eterno numa espécie de investimento que rende sempre a mesma taxa de juro ao longo de dezenas de anos? "


José Gameiro