
José Luis Peixoto oferece-nos um texto mágico baseado na história de Francisco Lázaro, corredor da Maratona dos Jogos Olímpicos de 1912 ( onde falece no decorrer da mesma ) e dos seus irmãos, Marta, Maria e Simão.
Numa Lisboa sem tempo, nascem, vivem, sonham, casam, trabalham e morrem as personagens deste livro.
No ventre de uma oficina de carpintaria aninha-se o cemitério de pianos ( exílio voluntário onde se reflecte, faz-se amor; lugar de leituras clandestinas; espaço recatado de adúlteros; pátio de brincadeiras infantis e confessionário de mortos ) sendo este um espaço no qual encadeiam-se gerações.
Os narradores - pai e filho, em tempos diferentes, mas por vezes sobrepostos - desvendam a história da família, numa linguagem intercalada de sombras e luz, silêncio e riso, medo e esperança, culpa e perdão. Contam-nos histórias de amor, abandono, violência doméstica, e faltas nem sempre redimidas que, no entanto, acabam por ser resgatadas pelo poder esmagador da ternura e dos afectos.
Posso afirmar que a ternura, a morte e a renovação constituem as notas que pautam este romance cheio de música e ritmos peculiares, de palavras que respiram, correm e desfalecem ao compasso da vivência das personagens, numa melodia que ora comove e revolta, ora nos faz sorrir e angustia.
Por outro lado, é uma obra que começa com uma narrativa simples e linear, mas que aos poucos torna-se cada vez mais complexa, sendo necessária uma maior capacidade de concentração para entender as voltas e os saltos que o autor vai dando à narrativa. Mudanças, que, a meu ver, proporcionam movimento na escrita, fazendo-me sentir e vivenciar as situações.
Com uma fluência extraordinária e um travo a poesia que sacia os que lêem também pelo prazer das palavras, este é um livro para nunca mais esquecer.
Sem artifícios desnecessários, a escrita de José Luis Peixoto é de facto, de uma consistência irrepreensível e de uma beleza aliciante.