
« Veneza é o lugar onde navegam violinos. »

« À data de 25 de Março deu-se em São Petersburgo um acontecimento de inaudita estranheza. O barbeiro Ivan Iákovlevitch (...) acordou bastante cedo e cheirou-lhe a pão quente. (...) Vestiu, por respeito das conveniências, a casaca por cima da camisa e, sentando-se à mesa, serviu-se de sal, preparou duas cebolas, pegou na faca e, com uma expressão eloquente na cara, pôs-se a cortar o pão. Ao separá-lo em dois, olhou para o miolo e, surpresa sua, viu algo esbranquiçado. (...) Enfiou os dedos e tirou - um nariz!...” Ao mesmo tempo, o assessor de colégio Kovaliov fica perplexo ao descobrir que “o sítio do seu nariz era um lugar perfeitamente raso”, correndo ao encontro do chefe da polícia.
" Piskariov ... Este jovem cavalheiro pertencia àquela categoria de pessoas que constituem, entre nós, um estranho fenómeno e fazem tanto parte dos cidadãos de Petersburgo como o indivíduo que nos aparece em sonho faz parte do mundo real. Esta classe exclusiva é muito invulgar na cidade em que todos são ou funcionários, ou comerciantes, ou artesãos alemães. Era pintor. Fenómeno estranho, não é ? Um petersburguense pintor ! Um pintor na terra das neves, um pintor no país dos finlandeses, onde tudo é molhado, liso, plano, pálido, cinzento, nebuloso. Estes pintores não têm qualquer semelhança com os pintores italianos, orgulhosos, ardentes, como ardentes são a Itália e o céu italiano; pelo contrário, trata-se, na sua maioria, de gente bondosa e meiga, tímida, despreocupada, silenciosamente apaixonada pela sua arte; gente que, num quartinho pequeno, toma chá na companhia dos seus dois companheiros, discorrendo modestamente sobre a sua matéria dilecta e descurando o supérfluo ... "
Através da sua escrita peculiar e inconfundível, Mia Couto conduz-nos a um universo mágico animado por uma chuva miudinha que hesita entre cair e ficar suspensa, pasmada sobre as nossas cabeças e até por um avô que dá nomes aos dedinhos do pé ! ;)

" Avenida Névski, mais um dos cinco «contos de Petersburgo». O espaço de privação, de sofrimento e de alienação que é a Petersburgo gogoliana cristaliza-se aqui na sua artéria principal - a Avenida Névski.

" Em Crime e Castigo, Raskolnikov, um pobre estudante e advogado fracassado, está dominado pela ideia de liberdade a que o ser superior tem direito. Para salvar da miséria a sua mãe e a irmã, Dunia, que vivem na província, e apesar de ser sustentado com o que Dunia ganha como professora, Raskolnikov planifica com absoluta premeditação o assassinato de uma velha avarenta e da irmã, para as roubar. Raskolnikov vê-se como um indivíduo superior, com direito a violar a ordem moral da sociedade e a impor a sua própria moral. No entanto, depois do crime, a consciência e o medo de ser descoberto começam a atormentá-lo.
" Era, era ternura o que eu sentia por ti, o que eu sentia correr de ti, e sei lá eu bem, que rio seria aquele que eu via correr pelos teus olhos, quando te olhava e te sentia, aqui, dentro de mim, a correres também para o mar de mágoas que me batiam nas rochas do meu sentir. E era rio ou era mar ? Preciso, meu amor, preciso saber se era rio ou era mar, com que os teus olhos banhavam as praias das minhas mãos estendidas, a quererem dar-te a areia com que modelava corpos de ti, mãos e olhos de ti. Os teus pés, os teus dedos, tudo dançava e atravessava a corrente que corria dos teus olhos, do teu peito. "


" O Retrato " ... excelente forma para quem, como eu, ainda não tinha enveredado e pretende enveredar pelos caminhos da prosa de Nikolai Gógol, pai do romance realista na Rússia.