domingo, 9 de novembro de 2008

O Romance através dos Grandes Romances !


Parte I

Estava um dia soalheiro de Primavera. Os primeiros raios de Sol que, espreitando por detrás da serra, despontavam timidamente e acariciavam docemente as areias brancas daquela bela praia, acordavam as águas frias do seu longo torpor.
Maria Eduarda saiu cedo de casa e uma vez mais percorreu aquele longo caminho que a levaria até à Praia das Maçãs, seu refúgio, seu cantinho de alegrias e tristezas que sempre a acolhera tão bem.
Enquanto conduzia, e após ter passado pela Malveira da Serra, deixou-se levar pela inebriante paisagem que nunca cansaria de amar !
Fez um breve desvio, e desceu vagarosamente até à Biscaia !
Uma vez lá em baixo, subiu até ao íngreme rochedo contemplando o céu a fundir-se com o mar e o mar a unir-se com a serra, numa simbiose perfeita e sublime. O mar estava invulgarmente calmo, apenas perturbado por pequenos barcos que se avistavam no horizonte.
Maria Eduarda inspirou profundamente e todas as suas preocupações, anseios e receios desvaneceram-se, completamente rendidos perante tal beleza. Beleza que a fazia esquecer tudo e todos.
Olhou para o relógio e dirigiu-se para o carro. Queria chegar cedo à Praia das Maçãs para ainda dar uma volta pela praia, e então depois, dedicar o dia à escrita do seu livro !

sábado, 8 de novembro de 2008

" Enganarmo-nos é o único privilégio humano frente a todos os outros organismos ! Quem erra, chega à verdade ! Sou ser humano precisamente porque erro. Ainda ninguém chegou a uma verdade qualquer sem antes se ter enganado catorze vezes, ou talvez cento e catorze, e isso é um mérito, neste sentido. "

Fiódor Dostoiévski em "Crime e Castigo"
Os seus traços fortes, sensuais deixavam transparecer o quanto Madame Lambertin era flamenga. Apesar de liberal, dona e senhora de si própria e de seus costumes, a sua maneira de ser não conseguia esconder certos laivos de mulher ternurenta e bondosa. Do alto dos seus trinta anos, possuía um belo sorriso que avivava os contornos da sua face e abrilhantava ainda mais o verde dos seus olhos. Não consegui deixar de observá-la todos os dias. Via-a quando atravessava maquinalmente a rua, em direcção à brasserie da esquina, de forma a apaziguar a fúria de Baco. Sim, vim a saber que era uma bêbada inveterada ! Pena, sem esse vício, decerto prolongaria a juventude da sua tez ainda tão fresca e agradável !
" De início - aliás, ainda antes, havia já muito tempo - , um problema o interessava: por que é que quase todos os crimes se deslindam e as pistas deixadas por quase todos os criminosos se descobrem com tanta facilidade. Chegou, passo a passo, a conclusões muito variadas e, na sua opinião, a causa principal residia não tanto na impossibilidade material de esconder o crime, mas no próprio criminoso. O criminoso, qualquer criminoso, quase, fica sujeito no momento do crime a uma espécie de declínio da vontade e do juízo, substituídos por uma fenomenal leviandade infantil, precisamente no momento em que é mais necessário ajuizar bem e ter muito cuidado. No seu entender, o resultado era que tal eclipse mental e tal declínio da vontade se abatem sobre o indivíduo como uma doença, se desenvolvem gradualmente e atingem o seu auge pouco antes do instante do crime e algum tempo depois, dependendo isso da natureza do indivíduo; depois desaparecem, como qualquer doença pode desaparecer. Pois bem, eis a questão: é a doença que engendra o crime, ou é o próprio crime que, pela sua natureza especial, é sempre acompanhado por uma espécie de doença ? "

Fiódor Dostoiévski em "Crime e Castigo"

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Vou começar agora a ler ...

" A maria da graça - mulher a dias em Bragança esquecida do mundo - tem a ambição, não tão secreta como isso, de morrer de amor; e, por essa razão sonha recorrentemente com a entrada no paraíso, aonde vai à procura do senhor ferreira, seu antigo patrão, que, apesar de sovina e abusador lhe falou de Goya, Rilke, Bergman ou Mozart como homens que impressionaram o próprio Deus. Mas às portas do céu acotovelam-se mercadores de souvenirs em brigas constantes e são pedro não faz mais do que a enxotar dali a cada visita.
Tal como a maria da graça, todas as personagens deste livro buscam o seu paraíso; e, aflitas com a esperança, ou esperança nenhuma, de um dia serem felizes, acham que a felicidade vale qualquer risco, nem que seja para as lançar alegremente no abismo.
o apocalipse dos trabalhadores é um retrato do nosso tempo, feito da precariedade e dessa esperança difícil. Um retrato desenhado através de duas mulheres-a-dias, um reformado e um jovem ucraniano que reflectem sobre os caminhos sinuosos do engenho e da vontade humana num Portugal com cada vez mais imigrantes e sobre a forma como isso parece perturbar a sociedade. "

Li " A Decadência Do Sonho " e ...

Tudo começou quando li no Blog as mensagens inspiradoras do "Pai do Miguel" ... simples e cheias de força ... lindas !
Porquê " A Decadência Do Sonho " ? Não sei ... sempre fui apologista de que não somos nós a escolher os livros, mas sim eles que nos escolhem ! Comigo, sucedeu isso ... ao percorrer com o olhar os três títulos, a empatia que senti perante este foi tão forte e imediata que "peguei" logo nele .
Confesso que estou a sentir alguma dificuldade para transformar em letras, palavras, frases, texto, tudo aquilo que senti à medida que ía lendo as reflexões, memórias de Pedro e Mariana, mas indubitavelmente as de Pedro.
Pedro Miranda de Sousa ... quem és tu ?
Para mim, alguém que me faz sonhar ... alguém que me faz pensar nas coisas simples e bonitas da vida ... alguém em cujos gostos me revejo ... alguém que ao longo de 138 páginas sempre soube como colocar um sorriso nos meus lábios ... alguém que me fez voltar a ter vontade de escrever ... alguém que gostava que existisse fora da minha imaginação !
Será ele Narciso à espera de Goldmundo ?
Talvez ... Pedro, o pensador de espírito ascético, o intelectual reflexivo, aquele com o qual aprendemos a pensar e Miguel, possuidor de uma natureza instintiva que partiu em busca de "outros mundos" .
Uma coisa é certa, tal como no belíssimo romance " Narciso e Goldmundo" de Hermann Hesse também aqui existe entre Pedro e Miguel uma mágica ligação simbiótica .
Todo o restante livro é um constante desfilar do infinitamente belo: Luchino Visconti com a sua esplêndida " Morte em Veneza "; os Deuses da mitologia greco-romana, com especial ênfase em Baco e Dionísio; " Arte de Amar " de Ovídio; o pensamento oriental; as mandalas; as vivências passadas ( sim, porque acredito nelas ) ...
Agora, imaginem este desfile com o mar como pano de fundo no qual ondulas ao sabor das correntes de Requiem ...
Também simplesmente intenso e adorável o jogo das frases entre Pedro e Mariana, a ver quem conseguia ser mais poeta ...
" - estar aqui a memorizar-te, nestas páginas de incerteza, é sentir-te vivo nesta luz que me ilumina, feita da tua beleza.
- porque te hei-de sofrer, lágrima do meu destino ?
- que escorra azul dos teus olhos e sejas boca do meu sorriso.
- terna foi tua mão quando tocou ao de leve esta minha sensação. "
Adorei este livro tão simples, mas profundo !
Pela primeira vez, senti alguma dificuldade em retirar dele excertos e publicar no meu blog, como vem sendo hábito .
Isto porque todas as palavras e frases libertavam uma magia e tocavam-me de tal forma, que corria o risco de ter que transcrever o livro inteiro ! ;)
" Os meus negócios não íam grande coisa: eram de facto um sistema um bocado arcaico. O mundo entretanto tinha evoluído, a indústria da indiferença tinha-se desenvolvido bastante, o comércio da mentira e da traição tinha-se generalizado, a mais-valia era agora muito moderadamente canalizada para capitalizar o ódio e o desprezo, enfim o mundo tinha dado um grande passo em frente, e eu sentia-me a falir. Já ninguém me queria comprar sonhos, nem acreditava mais em ilusões. O sonho impossível, que eu tinha comprado a um monge tibetano empregando nesse negócio todas as minhas reservas, não era já de todo negociável. Tinha de ficar eu com ele. "

José Manuel Arrobas em " A Decadência Do Sonho "

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Madame Lambertin, mulher de traços fogosos e sensuais, que não conseguia de forma alguma dissimular a sua fisionomia marcadamente flamenga, diria mesmo, ostensivamente flamenga. Alta, tez morena, aparentava ter já perto de quarenta anos. Detentora de costumes livres, mas firmes, era-lhe impossível esconder toda a doçura e candura que inevitavelmente moldavam os seus gestos e atitudes. Dona de um sorriso genuinamente aberto, que cocegava as suas bochechas mas invejava o verde deslumbrante, incenso daqueles belos olhos. Escravo de um desejo selvagem e rudimentar, não pude deixar de observá-la todos os dias, quando passava na minha rua a caminho da brasserie. Madame Lambertin, qual boneca manipulada pelo desejo embriagador de Dioniso, regressava com um cabaz de dimensões gigantescas, contendo uma infinita variedade de garrafas de Gueze. Maldito vício ! Se assim não fosse, e apesar das marcas maduras e inevitáveis do tempo, poderia ser ainda mais bela, juvenil e desejável !
« A água solta o cabelo nas cascatas. »

terça-feira, 4 de novembro de 2008


A chuva irrompia furiosamente pela neblina, que, tímida e assustada, desaparecia sorrateiramente deixando desnudadas as belas ruas e estradas. Nestas, desabrochavam as mulheres que com passos miúdos mas céleres dirigiam-se para a Igreja, tendo como companheiros o belo guarda-chuva e aquela mania irritantemente feminina de estar sempre a levantar a saia para que a água não as incomodasse ainda mais. Os seus rostos encontravam-se ocultos ...

Comecei hoje a ler ...

" Um canto da Europa do século XIX.
Uma pequena cidade imaginária e verosímil. Os sonhos do senhor Rail e os lábios da senhora Rail. A fábula dos primeiros comboios. Um homem que ouve o infinito. Uma criança que traz em cima de si o seu destino. A magia de Crystal Palace, imensa construção de vidro. A vida singular de Hector Horeau, arquitecto genial e perdido.
Um microcosmos de personagens invulgares, todas elas com um denominador comum: a capacidade de sonhar, de ultrapassar uma realidade pequena, para viver noutra dimensão: a do sonho, da música, da poesia.
Tudo isto num livro construído com uma estrutura e uma escrita espectaculares.
Um livro que devolve o prazer de escutar Grandes Contos e a confiança de ainda os poder contar.
O romance que, em 1991, marcou a estreia de Alessandro Baricco. "

domingo, 2 de novembro de 2008

Li "O Nariz" de Nikolai Gógol e ...

Carlo Collodi ( 1826 - 1890 ) com o seu célebre Pinóquio e Nikolai Gógol com o não menos fantástico Nariz, parecem evidenciar na literatura do Séc. XIX um determinado grau de fascínio por este órgão !
Escrito entre 1835 e 1836, "O Nariz" de Gógol assume o cariz de um conto cómico-satírico no qual imperam o inesperado, a fantasia, a alegria, a originalidade ...
Trata-se de uma narrativa sobre um oficial de São Petersburgo, cujo nariz abandona o seu rosto e decide ter vida independente, ora passeando ao longo da Avenida Névski, ora encarnando a personagem de um importante Conselheiro de Estado.
Apesar de poder ser considerado como uma divertida história com o simples intuito de entreter, este conto assume todos os contornos de uma crítica burlesca à sociedade russa. Sociedade essa, extremamente burocrática e dividida em classes, onde o dinheiro e o poder desempenham um papel preponderante.
Kovaliov, o homem que é despojado do respectivo nariz, é alguém que procura a ascensão social, vivendo num mundo de aparências, onde o dinheiro e a roupa que se veste são primordiais.
Esta perca, numa sociedade onde a aparência é então fundamental, funciona como processo de emasculação de um homem que se vê impossibilitado de prosseguir a sua vida normal. Deixa de ser Kovaliov, transformando-se num ser incompleto, incapaz de sobreviver e prevalecer numa vida em comunidade.
A forma como o outro o vê e o olha é algo que o atormenta durante todos os acontecimentos.
Bastante actual, deparei-me com um conto revelador de um mundo que impossibilita a ascensão de um ser imperfeito e que confere uma importância desmedida ao visual, à aparência e ao físico.
" Contudo, nada neste mundo é duradouro, e, por tal, também a alegria do segundo minuto já não é tão viva como a do primeiro; ao terceiro minuto fica ainda mais fraca e, por fim, acaba por fundir-se com o estado de ânimo ordinário, como o círculo que a pedrinha faz na água se esbate e finalmente se funde na superfície lisa do charco. "

Nikolai Gógol em "O Nariz"

sábado, 1 de novembro de 2008

" Em estado de doença, os sonhos distinguem-se muitas vezes pelo extraordinário relevo, por uma nitidez e uma semelhança incrível com a realidade. Às vezes os sonhos montam-nos cenários monstruosos, mas o ambiente e todo o processo do espectáculo são tão vivos e com pormenores tão subtis, tão inesperados, mas encaixando-se tão bem, tão artisticamente, na plenitude da imagem, que o próprio espectador do sonho não conseguiria inventá-los em vigília, nem que fosse um mestre como Púchkin ou Turguénev. Tais sonhos, sonhos doentios, ficam por muito tempo na memória e causam uma impressão muito forte ao organismo já abalado e excitado do indivíduo."


Fiódor Dostoiévski em "Crime e Castigo"

Um convívio de artistas


« O escritartes é um site de divulgação literária, criado em Setembro de 2007, no qual qualquer pessoa pode contribuir deixando os seus textos. O site, que é bastante dinâmico, declara-se como um espaço de convívio entre artistas, desde a poesia até à pintura. Está construído em formato de fórum e disponibiliza contos, crónicas, ensaios, ficções, poesias, fotografias e pintura. Também pode deixar comentários aos textos das outras pessoas. »