terça-feira, 11 de novembro de 2008

Li "Crime e Castigo" de Dostoiévski e ...

Fiódor Dostoiévski ... um dos meus escritores de referência !
Romancista tipicamente russo, que representa na sua pessoa e na sua obra as grandezas e misérias da Rússia.
O seu estilo, inconfundível, distingue-se por uma tensão nervosa exacerbada por uma espécie de vibração interior. Os protagonistas são geralmente criminosos, doentes ou loucos, sempre fora da normalidade. São personagens que vivem numa crise contínua, produzindo-se no seu interior uma dramática luta entre as forças do bem e do mal.
E é precisamente por reunir todas estas características que, em conjunto com outros romances do mesmo autor, "Crime e Castigo" é considerado um dos pilares para os estudiosos da psicanálise e uma das obras por excelência, fundadoras da modernidade.

Muito sucintamente, o livro conta-nos a história do jovem Raskólnikov que vive atormentado por um grande dilema. A certa altura da sua vida, cometeu um crime e, com o passar do tempo, agudizam-se os problemas de consciência. Este estado de espírito contribui para que o jovem entre constantemente em conflito com os que vivem em seu redor. No fundo, o que deseja é libertar-se, mas sabe que para o conseguir terá de confessar o crime que cometeu.

Através da recriação de um estranho e doloroso mundo em torno da figura deste estudante, perturbado pelas privações e duras condições de vida, Dostoiévski faz-nos empreender uma perturbante viagem pelos caminhos profundos e tortuosos que conduzem à mente criminosa, à dissecação de personalidades possuídas em simultâneo pelo bem e pelo mal.

A forma como o escritor descreve a miséria, os vícios, os crimes e seus castigos, é perfeita e envolvente. O jogo psicológico é escrito com mestria e torna-se fundamental para reflexões da índole humana.

Na minha opinião, também simplesmente geniais, inquietantes e capazes de fazerem com que fiques sem fôlego só de os ler, são os diálogos fortes, inteligentes e cheios de tensão entre o chefe de polícia Petróvitch e Raskólnikov, numa tentativa de obrigar este último à tão desejada confissão.

Em jeito de conclusão, apenas afirmar que deparei-me com um verdadeiro ensaio psicológico de personagens ... mas isto é, desde sempre, uma qualidade ímpar dos escritores russos.

" - Nesse artigo eu analisava, se não me engano, o estado psicológico do criminoso durante todo o processo do crime.

- Exactamente; e insiste em que o acto da execução do crime é sempre acompanhado por uma doença. Muitíssimo original, mas ... na verdade não foi essa parte do artigo que me interessou, mas uma ideia que exprime já no final, ideia que, lamentavelmente, o senhor expõe de modo indirecto, muito vago ... Numa palavra, tente lembrar-se, o senhor insinua que existem, certos indivíduos no mundo que podem ... ou antes, que não só podem, mas que têm o pleno direito de cometer todo o género de violências e crimes, e que para eles, supostamente, a lei não existe.
... no artigo dele as pessoas, de certo modo, são classificadas em «vulgares» e «invulgares». Os vulgares têm de ser obedientes e não têm o direito de transgredir a lei, porque, está a ver, são vulgares. Os invulgares, por seu lado, têm o direito de cometer crimes e transgredir a lei de todas as maneiras e feitios, precisamente porque são invulgares. É isso que vem no seu artigo, se não me engano ?

- Eu, pura e simplesmente, insinuei que uma pessoa invulgar tem o direito ... ou seja, não o direito oficial, mas o direito individual de dar à sua consciência a permissão de transpor ... certos obstáculos, e isso apenas no caso de a realização da sua ideia o exigir ( às vezes uma ideia salvadora para toda a humanidade ) . "

Fiódor Dostoiévski em "Crime e Castigo"

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O Romance através dos Grandes Romances !


PARTE II

Estacionou o carro mesmo em frente à praia . Ainda era cedo !
Cumprimentou a Dona Isaura, proprietária da pequena tabacaria, onde sempre que lá ía, comprava os jornais.
- Bom Dia, Dona Isaura !
- Bom Dia, Menina Laura ! Bons olhos a vejam ! Está tudo bem com a menina ?
- Está sim. Então e com o seu marido ?
- Está tudo bem, menina, graças a Deus !
- E o seu pai, o Dr Juvenal ?
- Sempre na mesma ... trabalho, congressos, trabalho.
- Então e a menina, está mais magrita ! Aposto que não se tem alimentado direito.
- Tenho ... apenas muito trabalho. Bem, vou indo para aproveitar um pouco da manhã. Aqui tem o dinheiro do jornal. Obrigada, Dona Isaura !
- Obrigada, menina e dê cumprimentos ao seu paizinho !
Laura desceu então para a praia, e descalçou as botas. À medida que avançava pela areia fina, olhava para o mar calmo, raro naquela praia, e finalmente relaxou do stress daqueles dias.
Tinha sido uma semana de trabalho realmente extenuante. Os prazos para a entrega dos guiões apertavam cada vez mais e a pressão que sentia era enorme. A responsabilidade que repousava sobre os seus ombros como Directora Criativa começava a sufocá-la e nem as relaxantes sessões de Yoga ao fim do dia pareciam apaziguar esse sentimento.
Para mais, a sua situação com Afonso também não ajudava nada.
Ela e Afonso conheciam-se desde sempre ! Cresceram, estudaram e até chegaram a trabalhar juntos. Sabia que ele a amava incondicionalmente, mas não conseguia corresponder totalmente a esse amor.
Estavam juntos há mais de dez anos ! Duarte era a sua alma gémea ... um Homem meigo, apaixonante, culto, viciado em obras belas, detentor de um gosto requintado, cidadão do mundo, amante da arte, literatura e música erudita. Ao lado dele, tudo parecia simples, sereno, calmo.
Mas faltava algo, e Maria Eduarda encontrou esse algo nos braços de Henrique !
Languidamente, fechou os olhos e a sua mente viajou para longe, para o mundo da fantasia, do amor, do romance !

domingo, 9 de novembro de 2008

Vou começar agora a ler ...

" Neste romance estão bem patentes as qualidades típicas da obra de Balzac: a fina observação psicológica dos personagens, a poderosa capacidade criadora, a arte de transformar, com a magia do seu estilo, os factos da vida corrente.
A Mulher de Trinta Anos é o drama duma mulher, Júlia, que o casamento com o coronel D'Aiglemont desiludiu. Acorrentada pela força dos convencionalismos sociais, assume a sua posição de mulher só, e resiste ao amor de Lorde Grenville, que acaba por morrer para não comprometer a honra da mulher amada. Duplamente ferida - pela solidão e pelo desgosto - , Júlia acaba por se ligar com o jovem diplomata Charles de Vandenesse, para conhecer, no seu amor, todas as dores que podem acompanhar os arrebatamentos de uma «mulher de trinta anos». "

" A Mulher de Trinta Anos " de Honoré de Balzac

O Romance através dos Grandes Romances !


Parte I

Estava um dia soalheiro de Primavera. Os primeiros raios de Sol que, espreitando por detrás da serra, despontavam timidamente e acariciavam docemente as areias brancas daquela bela praia, acordavam as águas frias do seu longo torpor.
Maria Eduarda saiu cedo de casa e uma vez mais percorreu aquele longo caminho que a levaria até à Praia das Maçãs, seu refúgio, seu cantinho de alegrias e tristezas que sempre a acolhera tão bem.
Enquanto conduzia, e após ter passado pela Malveira da Serra, deixou-se levar pela inebriante paisagem que nunca cansaria de amar !
Fez um breve desvio, e desceu vagarosamente até à Biscaia !
Uma vez lá em baixo, subiu até ao íngreme rochedo contemplando o céu a fundir-se com o mar e o mar a unir-se com a serra, numa simbiose perfeita e sublime. O mar estava invulgarmente calmo, apenas perturbado por pequenos barcos que se avistavam no horizonte.
Maria Eduarda inspirou profundamente e todas as suas preocupações, anseios e receios desvaneceram-se, completamente rendidos perante tal beleza. Beleza que a fazia esquecer tudo e todos.
Olhou para o relógio e dirigiu-se para o carro. Queria chegar cedo à Praia das Maçãs para ainda dar uma volta pela praia, e então depois, dedicar o dia à escrita do seu livro !

sábado, 8 de novembro de 2008

" Enganarmo-nos é o único privilégio humano frente a todos os outros organismos ! Quem erra, chega à verdade ! Sou ser humano precisamente porque erro. Ainda ninguém chegou a uma verdade qualquer sem antes se ter enganado catorze vezes, ou talvez cento e catorze, e isso é um mérito, neste sentido. "

Fiódor Dostoiévski em "Crime e Castigo"
Os seus traços fortes, sensuais deixavam transparecer o quanto Madame Lambertin era flamenga. Apesar de liberal, dona e senhora de si própria e de seus costumes, a sua maneira de ser não conseguia esconder certos laivos de mulher ternurenta e bondosa. Do alto dos seus trinta anos, possuía um belo sorriso que avivava os contornos da sua face e abrilhantava ainda mais o verde dos seus olhos. Não consegui deixar de observá-la todos os dias. Via-a quando atravessava maquinalmente a rua, em direcção à brasserie da esquina, de forma a apaziguar a fúria de Baco. Sim, vim a saber que era uma bêbada inveterada ! Pena, sem esse vício, decerto prolongaria a juventude da sua tez ainda tão fresca e agradável !
" De início - aliás, ainda antes, havia já muito tempo - , um problema o interessava: por que é que quase todos os crimes se deslindam e as pistas deixadas por quase todos os criminosos se descobrem com tanta facilidade. Chegou, passo a passo, a conclusões muito variadas e, na sua opinião, a causa principal residia não tanto na impossibilidade material de esconder o crime, mas no próprio criminoso. O criminoso, qualquer criminoso, quase, fica sujeito no momento do crime a uma espécie de declínio da vontade e do juízo, substituídos por uma fenomenal leviandade infantil, precisamente no momento em que é mais necessário ajuizar bem e ter muito cuidado. No seu entender, o resultado era que tal eclipse mental e tal declínio da vontade se abatem sobre o indivíduo como uma doença, se desenvolvem gradualmente e atingem o seu auge pouco antes do instante do crime e algum tempo depois, dependendo isso da natureza do indivíduo; depois desaparecem, como qualquer doença pode desaparecer. Pois bem, eis a questão: é a doença que engendra o crime, ou é o próprio crime que, pela sua natureza especial, é sempre acompanhado por uma espécie de doença ? "

Fiódor Dostoiévski em "Crime e Castigo"

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Vou começar agora a ler ...

" A maria da graça - mulher a dias em Bragança esquecida do mundo - tem a ambição, não tão secreta como isso, de morrer de amor; e, por essa razão sonha recorrentemente com a entrada no paraíso, aonde vai à procura do senhor ferreira, seu antigo patrão, que, apesar de sovina e abusador lhe falou de Goya, Rilke, Bergman ou Mozart como homens que impressionaram o próprio Deus. Mas às portas do céu acotovelam-se mercadores de souvenirs em brigas constantes e são pedro não faz mais do que a enxotar dali a cada visita.
Tal como a maria da graça, todas as personagens deste livro buscam o seu paraíso; e, aflitas com a esperança, ou esperança nenhuma, de um dia serem felizes, acham que a felicidade vale qualquer risco, nem que seja para as lançar alegremente no abismo.
o apocalipse dos trabalhadores é um retrato do nosso tempo, feito da precariedade e dessa esperança difícil. Um retrato desenhado através de duas mulheres-a-dias, um reformado e um jovem ucraniano que reflectem sobre os caminhos sinuosos do engenho e da vontade humana num Portugal com cada vez mais imigrantes e sobre a forma como isso parece perturbar a sociedade. "

Li " A Decadência Do Sonho " e ...

Tudo começou quando li no Blog as mensagens inspiradoras do "Pai do Miguel" ... simples e cheias de força ... lindas !
Porquê " A Decadência Do Sonho " ? Não sei ... sempre fui apologista de que não somos nós a escolher os livros, mas sim eles que nos escolhem ! Comigo, sucedeu isso ... ao percorrer com o olhar os três títulos, a empatia que senti perante este foi tão forte e imediata que "peguei" logo nele .
Confesso que estou a sentir alguma dificuldade para transformar em letras, palavras, frases, texto, tudo aquilo que senti à medida que ía lendo as reflexões, memórias de Pedro e Mariana, mas indubitavelmente as de Pedro.
Pedro Miranda de Sousa ... quem és tu ?
Para mim, alguém que me faz sonhar ... alguém que me faz pensar nas coisas simples e bonitas da vida ... alguém em cujos gostos me revejo ... alguém que ao longo de 138 páginas sempre soube como colocar um sorriso nos meus lábios ... alguém que me fez voltar a ter vontade de escrever ... alguém que gostava que existisse fora da minha imaginação !
Será ele Narciso à espera de Goldmundo ?
Talvez ... Pedro, o pensador de espírito ascético, o intelectual reflexivo, aquele com o qual aprendemos a pensar e Miguel, possuidor de uma natureza instintiva que partiu em busca de "outros mundos" .
Uma coisa é certa, tal como no belíssimo romance " Narciso e Goldmundo" de Hermann Hesse também aqui existe entre Pedro e Miguel uma mágica ligação simbiótica .
Todo o restante livro é um constante desfilar do infinitamente belo: Luchino Visconti com a sua esplêndida " Morte em Veneza "; os Deuses da mitologia greco-romana, com especial ênfase em Baco e Dionísio; " Arte de Amar " de Ovídio; o pensamento oriental; as mandalas; as vivências passadas ( sim, porque acredito nelas ) ...
Agora, imaginem este desfile com o mar como pano de fundo no qual ondulas ao sabor das correntes de Requiem ...
Também simplesmente intenso e adorável o jogo das frases entre Pedro e Mariana, a ver quem conseguia ser mais poeta ...
" - estar aqui a memorizar-te, nestas páginas de incerteza, é sentir-te vivo nesta luz que me ilumina, feita da tua beleza.
- porque te hei-de sofrer, lágrima do meu destino ?
- que escorra azul dos teus olhos e sejas boca do meu sorriso.
- terna foi tua mão quando tocou ao de leve esta minha sensação. "
Adorei este livro tão simples, mas profundo !
Pela primeira vez, senti alguma dificuldade em retirar dele excertos e publicar no meu blog, como vem sendo hábito .
Isto porque todas as palavras e frases libertavam uma magia e tocavam-me de tal forma, que corria o risco de ter que transcrever o livro inteiro ! ;)
" Os meus negócios não íam grande coisa: eram de facto um sistema um bocado arcaico. O mundo entretanto tinha evoluído, a indústria da indiferença tinha-se desenvolvido bastante, o comércio da mentira e da traição tinha-se generalizado, a mais-valia era agora muito moderadamente canalizada para capitalizar o ódio e o desprezo, enfim o mundo tinha dado um grande passo em frente, e eu sentia-me a falir. Já ninguém me queria comprar sonhos, nem acreditava mais em ilusões. O sonho impossível, que eu tinha comprado a um monge tibetano empregando nesse negócio todas as minhas reservas, não era já de todo negociável. Tinha de ficar eu com ele. "

José Manuel Arrobas em " A Decadência Do Sonho "

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Madame Lambertin, mulher de traços fogosos e sensuais, que não conseguia de forma alguma dissimular a sua fisionomia marcadamente flamenga, diria mesmo, ostensivamente flamenga. Alta, tez morena, aparentava ter já perto de quarenta anos. Detentora de costumes livres, mas firmes, era-lhe impossível esconder toda a doçura e candura que inevitavelmente moldavam os seus gestos e atitudes. Dona de um sorriso genuinamente aberto, que cocegava as suas bochechas mas invejava o verde deslumbrante, incenso daqueles belos olhos. Escravo de um desejo selvagem e rudimentar, não pude deixar de observá-la todos os dias, quando passava na minha rua a caminho da brasserie. Madame Lambertin, qual boneca manipulada pelo desejo embriagador de Dioniso, regressava com um cabaz de dimensões gigantescas, contendo uma infinita variedade de garrafas de Gueze. Maldito vício ! Se assim não fosse, e apesar das marcas maduras e inevitáveis do tempo, poderia ser ainda mais bela, juvenil e desejável !
« A água solta o cabelo nas cascatas. »

terça-feira, 4 de novembro de 2008


A chuva irrompia furiosamente pela neblina, que, tímida e assustada, desaparecia sorrateiramente deixando desnudadas as belas ruas e estradas. Nestas, desabrochavam as mulheres que com passos miúdos mas céleres dirigiam-se para a Igreja, tendo como companheiros o belo guarda-chuva e aquela mania irritantemente feminina de estar sempre a levantar a saia para que a água não as incomodasse ainda mais. Os seus rostos encontravam-se ocultos ...

Comecei hoje a ler ...

" Um canto da Europa do século XIX.
Uma pequena cidade imaginária e verosímil. Os sonhos do senhor Rail e os lábios da senhora Rail. A fábula dos primeiros comboios. Um homem que ouve o infinito. Uma criança que traz em cima de si o seu destino. A magia de Crystal Palace, imensa construção de vidro. A vida singular de Hector Horeau, arquitecto genial e perdido.
Um microcosmos de personagens invulgares, todas elas com um denominador comum: a capacidade de sonhar, de ultrapassar uma realidade pequena, para viver noutra dimensão: a do sonho, da música, da poesia.
Tudo isto num livro construído com uma estrutura e uma escrita espectaculares.
Um livro que devolve o prazer de escutar Grandes Contos e a confiança de ainda os poder contar.
O romance que, em 1991, marcou a estreia de Alessandro Baricco. "