" Para outras cidades recorre a descrições transmitidas de boca em boca, ou experimenta adivinhar baseando-se em escassos indícios: assim Granada, irisada pérola dos Califas, Lubeque belo porto boreal, Timbuctu negra de ébano e branca de marfim, Paris onde milhões de homens vão para casa todos os dias empunhando um cacete de pão. Em miniaturas coloridas o atlas apresenta lugares habitados de forma insólita: um oásis escondido numa prega do deserto de que apenas sobressaem as copas das palmeiras é de certeza Nefta; um castelo no meio das areias movediças e das vacas que roem prados salgados pelas marés não pode deixar de recordar o Monte Saint-Michel; e só pode ser Urbino um palácio que em vez de surgir dentro das muralhas de uma cidade contém uma cidade dentro das suas muralhas.O atlas também apresenta cidades de que nem Marco nem os geógrafos sabem se existem e onde ficam, mas que não podiam faltar entre as formas de cidades possíveis: uma Cuzco de planta radiada e multipartida que reflecte a ordem perfeita das permutas, uma Cidade do México verdejante sob o lago dominado pelo palácio de Moctezuma, uma Novgorod com as cúpulas em bolbo, ou uma Lhassa que ergue os brancos telhados acima do tecto nebuloso do mundo. "
Italo Calvino in "As Cidades Invisíveis"
















