terça-feira, 31 de agosto de 2010

"Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes
a laranjeira em flor a cor do feno
a saudade lilás que há nos poentes
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente."

Rosa Lobato de Faria in "Memória do Corpo"

sábado, 28 de agosto de 2010

Lifestyle

"Há quem não tenha nascido para casar. Não é defeito, é feitio. O casamento não é para todos, embora reconheça que foi assim que a minha geração foi educada. Deitaram-nos um veneno na sopa quando éramos pequenos que nos condicionou ao modelo da família feliz, marido e mulher, pelo menos dois filhos, uma casa desafogada e férias na mesma praia todos os verões com o mesmo grupo de amigos, carrinhas e jipes, crianças educadas em colégios particulares com actividades extra-curriculares que incluem natação, rugby ou equitação, todo um lifestyle programado ao milímetro que nos fizesse sentir adultos, responsáveis e «arrumados» na vida.
Mas esse veneno acaba muitas vezes por se diluir. E em alguns casos ainda bem.
( ... )
Para quem gosta da vidinha e se sente feliz a chapinhar nela, tudo isto até pode fazer sentido. Mas nem todos fomos feitos para a vidinha; há quem sufoque com a rotina, quem não aguente a monogamia, quem tenha vontade de fugir da sua realidade pelo menos duas vezes por semana, quem assuma a vidinha para a família e depois tenha outra, fora do circuito oficial. E há quem simplesmente não pactue com o sistema tacitamente instaurado da moral e dos bons costumes e nunca case, ou, se já passou pela experiência e esta não resultou, nunca mais volte a casar.
( ... )
É tudo uma questão de lifestyle."

Margarida Rebelo Pinto in "Onde reside o amor"

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Apetece uma flor

"Apetece uma flor uma janela
um candelabro um verso de Bilac
um cheiro de lilases uma estrela
uma fuga de Bach.

Apetece um licor um vinho velho
um chá da China cheio de perfume
apetece uma história de mistério
contada ao pé do lume.

Apetece uma tela em tons de roxo
um quadro de Giotto ou de Gauguin
uma carícia quente no pescoço
um bago de romã.

Apetece uma rima uma oração
apetece que chova faça vento
e haja um veneno um filtro uma poção
que embruxe na memória o coração
fugaz deste momento."

Rosa Lobato de Faria in "Memória do Corpo"

domingo, 22 de agosto de 2010

Canção

"Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.

Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão."

Eugénio de Andrade in "As Palavras Interditas"

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Arte em 3D a partir de capas de livros












Thomas Allen recorta personagens retiradas de capas de "clássicos" e posiciona-as em cenas de acção, originando estas e outras obras de arte em 3D !

sábado, 14 de agosto de 2010

Uma delícia de capa ... ;)

Fonte

"Meu amor diz-me o teu nome
- Nome que desaprendi ...
Diz-me apenas o teu nome.
Nada mais quero de ti.
Diz-me apenas se em teus olhos
Minhas lágrimas não vi,
Se era noite nos teus olhos,
Só por que passei por ti !
Depois, calaram-se os versos
- Versos que desaprendi ...
E nasceram outros versos
Que me afastaram de ti.
Meu amor, diz-me o teu nome.
Alumia o meu ouvido.
Diz-me apenas o teu nome,
Antes que eu rasgue estes versos,
Como quem rasga um vestido !"

Pedro Homem de Mello in "Grande, grande era a cidade"

domingo, 8 de agosto de 2010

Juventude

"Lembras-te quando ao fim do dia
Felizes, ambos, íamos nadar
E em nossa boca a espuma persistia
Em dar ao Sol o nome do Luar ?

Tudo era fácil, melodioso e longo.
Aqui e além, um súbito ditongo
Ecoava em nós certa canção pagã ...

Contudo o azul do mar não tinha fundo
E o mundo continuava a ser o mundo
Banhado pela aragem da manhã ! ..."


Pedro Homem de Mello in "O Rapaz da Camisola Verde"

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Pecado

"Caminheiro !
Caminheiro
Que passas tão corcovado !
Diz: qual foi o teu pecado ?
Diz: qual foi o teu castigo ?

Caminheiro !
Caminheiro
Que passas tão corcovado !

- Trago os meus lábios comigo !

Caminheiro !
Caminheiro
Que passas tão corcovado !
Diz: qual foi o teu pecado ?
Diz: qual foi o teu castigo ?

Caminheiro !
Caminheiro
Que passas tão corcovado !

- Trago os meus olhos comigo.

Caminheiro !
Caminheiro
Que passas tão corcovado !
Diz: qual foi o teu pecado ?
Diz: qual foi o teu castigo ?

Caminheiro !
Caminheiro
Que passas tão corcovado !

- Trago a minha alma comigo ..."

Pedro Homem de Mello in "Pecado"

terça-feira, 27 de julho de 2010

Sopro

"Passas como passa
O riso do vento
Mas na tua graça
Não há pensamento.

Porém, sem teu riso,
Que seria a graça
Do meu pensamento ?

Pedro Homem de Mello in "Jardins Suspensos 1937"

sábado, 17 de julho de 2010

Cisne

"Amei-te ? Sim. Doidamente !
Amei-te com esse amor
Que traz vida e foi doente ...

À beira de ti, as horas
Não eram horas: paravam.
E, longe de ti, o tempo
Era tempo, infelizmente ...

Ai ! esse amor que traz vida,
Cor, saúde ... e foi doente !

Porém, voltavas e, então,
Os cardos davam camélias,
Os alecrins, açucenas,
As aves, brancos lilases,
E as ruas, todas morenas,
Eram tapetes de flores
Onde havia musgo, apenas ...

E, enquanto subia a Lua,
Nas asas do vento brando,
O meu sangue ia passando
Da minha mão para a tua !

Por que te amei ?
- Ninguém sabe
A causa daquele amor
Que traz vida e foi doente.

Talvez viesse da terra,
Quando a terra lembra a carne.
Talvez viesse da carne
Quando a carne lembra a alma !
Talvez viesse da noite
Quando a noite lembra o dia.

- Talvez viesse de mim.
E da minha poesia ..."

Pedro Homem de Mello in "Adeus - 1951"

sábado, 10 de julho de 2010

Experimente o novo

"Há um ditado que diz: «Quando se faz sempre o que se fez, ter-se-à sempre o que sempre se teve.» Mudanças demandam mudanças e exigem de nós novas formas de pensar, novas aprendizagens. Mudar um padrão de comportamento não é uma coisa simples, é preciso deixar hábitos antigos, já adquiridos, e passar a adoptar novos comportamentos. E isso, por vezes, provoca um certo medo.
Pense no trapezista e no trapézio. Ele quer alcançar o segundo trapézio, mas só pode fazer isso quando larga o primeiro. Quando larga o primeiro, fica no ar durante um instante e esse momento no espaço parece durar uma eternidade. Definitivamente, o trapezista não consegue alcançar o segundo trapézio enquanto não largar o primeiro.
A aprendizagem acontece no momento em que você está solto no espaço. É preciso esquecer as antigas atitudes, as velhas formas de fazer as coisas, independentemente de elas serem confortáveis e familiares.
A maioria de nós faz o que sempre fez, devido à atracção, à sedução do que já nos é conhecido."

Alexandre Rangel in "O que podemos aprender com os gansos"

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Nunca deve desistir das suas ideias

"Conta a lenda que um príncipe ia ser coroado imperador, mas, de acordo com a lei, deveria casar-se. Sabendo disso, ele lançou o seguinte desafio ao grupo de jovens do seu reino que se lhe havia apresentado:
- Darei a cada uma de vós uma semente. Aquela que, dentro de seis meses, me apresentar a mais bela flor será a minha esposa.
O tempo passou e uma das jovens, a mais humilde delas, apesar de não ter muita habilidade para as artes da jardinagem, cuidava da sua sementinha com muita paciência e ternura, pois sabia que, se a beleza da flor surgisse na mesma extensão do seu amor, não precisaria de se preocupar com o resultado.
Passaram-se três meses e nada germinou. Passaram-se os seis meses e ela nada havia conseguido, a semente não germinou. Porém, consciente do seu esforço e dedicação, compareceu no palácio, na data e hora marcadas. E lá estava a jovem, com o seu vaso de flores vazio, junto de todas as outras pretendentes, cada qual com uma flor mais bela do que a outra.
O príncipe observou cada uma das pretendentes, com muito cuidado e atenção, e anunciou que a jovem que trazia o vaso vazio era a escolhida. Seria ela a sua futura esposa. Ninguém compreendeu porque tinha ele preferido, justamente, a jovem que nada havia trazido ! Então, calmamente, esclareceu:
- Esta foi a única que trouxe a flor que a tornou digna de se tornar imperatriz, a flor da honestidade, pois todas as sementes que entreguei eram estéreis.
Nunca deve desistir das suas ideias. Acredite nelas e trabalhe."

Alexandre Rangel in "O que podemos aprender com os gansos"

domingo, 20 de junho de 2010

Li "Humilhados e Ofendidos" de Fiódor Dostoiévski e ...

Dostoiévski ... há quem diga que é um autor difícil, negro, deprimente. Não deixo de concordar com o difícil, mas numa perspectiva de desafio para o leitor.
E à medida que vou lendo a sua obra, cada vez mais torna-se para mim um escritor de referência !

"Humilhados e Ofendidos" é um retrato contundente e profundo da vida nas grandes cidades.
Descreve uma sociedade na qual tanto os pobres e fracassados, como as pessoas comuns, continuamente humilhados pelos poderosos seguem, tentando preservar o que podem de sua humanidade, revelando assim as facetas mais nobres do ser humano.
Dotado de uma narrativa ágil e envolto numa atmosfera de grande tensão psicológica, ilustra os limites do amor e da compaixão, bem como a realidade social e os respectivos jogos de interesse.

Enfim, mais um romance de emoções fortes ... típico de Fiódor Dostoiévski ! ;)

( 23º livro lido em 2010 ... 4389 páginas lidas )