segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Vegetal e Só

"É Outono, desprende-te de mim.

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
febril de tantos lábios,
sem nenhum rumor de lágrimas
nas pálpebras acesas.

Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como um rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra."

Eugénio de Andrade in "As Palavras Interditas"

domingo, 5 de setembro de 2010

Li "Os Vagabundos do Dharma" de Jack Kerouac e ...

"Os Vagabundos do Dharma" conta a história de uma busca pela verdade e pela iluminação. Uma busca do caminho do Zen.
O protagonista, Ray Smith, é um aspirante a escritor de São Francisco que anseia por algo mais na vida. Esse algo mais será apresentado a ele por Japhy Rider - um jovem zen-budista adepto do montanhismo que vive com um mínimo de dinheiro, alheio à sociedade de consumo norte-americana.

Adorei este livro por várias razões, sendo que a principal baseia-se na minha identificação com as diversas abordagens de Kerouac ao longo da narrativa.
Assim ...

- Achei engraçado o nome dos maiores de todos os vagabundos do dharma ser "Os Lunáticos Zen da China e do Japão" ! ;)

- Interessei-me pela história de Han Shan, um erudito chinês que se fartou da grande cidade e do mundo e se refugiou nas montanhas. Era um poeta, um montanhista, um budista dedicado ao princípio da meditação sobre a essência de todas as coisas.

- Fiquei com curiosidade em conhecer o famoso jardim Ryoanji, um jardim de pedra no mosteiro de Shokokuji em Quioto, que não tem mais nada senão velhos pedregulhos dispostos de uma certa maneira, que pretende ser misticamente estética e que faz milhares de turistas e monges viajarem todos os anos para ficarem especados a olhar para os pedregulhos na areia, obtendo com isso paz de espírito.

- Encantei-me com as mandalas mágicas ( invenções tibetanas ) e com os haikus que têm de ser tão simples como papas de aveia. ;)

- Considerei bastante interessante o conceito de meditação dos trilhos, segundo o qual limitamo-nos a andar a olhar para o trilho aos nossos pés, não desviamos o olhar e mergulhamos num transe enquanto o chão passa por debaixo de nós. Ora aqui está algo que irei tentar colocar em prática ... ;)

- E, finalmente, deliciei-me com as belíssimas descrições da Montanha Hozomeen.

Enfim, posso afirmar que esta é uma obra à altura de "On the Road", e na qual é bastante notório o interesse de Kerouac pelas filosofias orientais.

( 37º livro lido em 2010 ... 7484 páginas lidas )

sábado, 4 de setembro de 2010

"Mas eu tinha as minhas próprias ideias maradas e não estavam relacionadas com a parte «lunática» de toda esta questão. Queria arranjar um equipamento completo com todas as coisas necessárias para dormir, morar, comer, cozinhar, o que eu queria de facto era uma cozinha e um quarto às costas, e partir para um lado qualquer e achar a solidão perfeita e contemplar o vazio perfeito da minha mente e ser completamente neutro a toda e qualquer ideia. Também tencionava rezar, como única actividade, rezar por todos os seres vivos; achava que era a única actividade decente que nos restava neste mundo. Estar algures na foz de um rio, ou num deserto, ou nas montanhas, ou numa cabana no México ou numa barraca em Adirondack, e repousar e ser afável, e não fazer mais nada, praticar aquilo a que os chineses chamam «fazer nada»."

Jack Kerouac in "Os Vagabundos do Dharma"
" - Quero andar de bicicleta no calor da tarde quente, calçar sandálias de couro paquistanesas, gritar em voz alta aos meus amigos monges Zen, vestidos com leves túnicas de cânhamo e cabeças rapadas, quero viver em templos de pavilhões dourados, despedir-me, ir para Yokohama, o grande porto azafamado da Ásia, cheio de batéis e bagatelas, ter esperança, trabalhar por ali, voltar, partir, partir para o Japão, voltar para os EUA, ler Hakuin, ranger os dentes e disciplinar-me a toda a hora sem chegar a lado nenhum e assim aprender ... aprender que o meu corpo e tudo o mais fica cansado e doente e prostrado e assim descobrir tudo sobre Hakuyu."

Jack Kerouac in "Os Vagabundos do Dharma"

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Em movimento

" Uma mulher em movimento é uma mulher interessante. Ela tem sempre imensas coisas para fazer, e, quando não tem, inventa. Ela tem amigas com quem almoça todas as semanas, dois ou três amigos de grande confiança e acima de qualquer suspeita com quem vai jantar uma vez por mês, ela trabalha, ela vai à ginástica, ela vai ao cabeleireiro, ela tira cursos de teatro, de comida oriental e de linguagem gestual, tudo isto enquanto deixa os filhos na natação, ela gosta de ir ao teatro, ela vai a exposições, numa palavra, ela tem vida própria.
As mulheres em movimento são mais difíceis de controlar, porque mudam de interesses com facilidade: hoje querem aprender krav-magga, amanhã interessam-se por pintura a óleo. Mas têm uma enorme qualidade: estão sempre ocupadas. E quando têm tempo para um homem é porque ele é mesmo importante. Senão, tinham mais que fazer.
Por outro lado, uma mulher em movimento aguça a concentração masculina. O simples facto de um homem não saber o que é que ela poderá estar a fazer naquele exacto momento - pode estar numa aula de ioga, nos saldos com as amigas ou em casa a ler um livro - faz com que ele a valorize. Porquê ? Porque sente que não a tem na mão, mesmo que se trate de uma namorada devota ou de uma mulher fiel. A ideia de as mulheres terem a sua vida é algo que fascina os homens ao mesmo tempo que os assusta. Os mais corajosos aceitam o desafio, enchem o peito de ar e dão o seu melhor. Os mais comodistas optam por uma sossegadinha, daquelas que organizam a vida em função dos interesses do seu par e que estão sempre em casa à espera que ele volte, com um prato de comida quente e um sorriso submisso.
A mulher quieta até pode ser a dona de casa modelar e a mãe ideal para os filhos, mas tanta simplicidade cansa ... A não ser que este seja do género paz-de-alma ou já tenha literalmente encostado às boxes, uma mulher quieta pode tornar-se uma grande maçada."

Margarida Rebelo Pinto in "Onde reside o amor"

terça-feira, 31 de agosto de 2010

"Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.

Quem me quiser há-de saber as fontes
a laranjeira em flor a cor do feno
a saudade lilás que há nos poentes
o cheiro de maçãs que há no inverno.

Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.

Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.

Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
- Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente."

Rosa Lobato de Faria in "Memória do Corpo"

sábado, 28 de agosto de 2010

Lifestyle

"Há quem não tenha nascido para casar. Não é defeito, é feitio. O casamento não é para todos, embora reconheça que foi assim que a minha geração foi educada. Deitaram-nos um veneno na sopa quando éramos pequenos que nos condicionou ao modelo da família feliz, marido e mulher, pelo menos dois filhos, uma casa desafogada e férias na mesma praia todos os verões com o mesmo grupo de amigos, carrinhas e jipes, crianças educadas em colégios particulares com actividades extra-curriculares que incluem natação, rugby ou equitação, todo um lifestyle programado ao milímetro que nos fizesse sentir adultos, responsáveis e «arrumados» na vida.
Mas esse veneno acaba muitas vezes por se diluir. E em alguns casos ainda bem.
( ... )
Para quem gosta da vidinha e se sente feliz a chapinhar nela, tudo isto até pode fazer sentido. Mas nem todos fomos feitos para a vidinha; há quem sufoque com a rotina, quem não aguente a monogamia, quem tenha vontade de fugir da sua realidade pelo menos duas vezes por semana, quem assuma a vidinha para a família e depois tenha outra, fora do circuito oficial. E há quem simplesmente não pactue com o sistema tacitamente instaurado da moral e dos bons costumes e nunca case, ou, se já passou pela experiência e esta não resultou, nunca mais volte a casar.
( ... )
É tudo uma questão de lifestyle."

Margarida Rebelo Pinto in "Onde reside o amor"

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Apetece uma flor

"Apetece uma flor uma janela
um candelabro um verso de Bilac
um cheiro de lilases uma estrela
uma fuga de Bach.

Apetece um licor um vinho velho
um chá da China cheio de perfume
apetece uma história de mistério
contada ao pé do lume.

Apetece uma tela em tons de roxo
um quadro de Giotto ou de Gauguin
uma carícia quente no pescoço
um bago de romã.

Apetece uma rima uma oração
apetece que chova faça vento
e haja um veneno um filtro uma poção
que embruxe na memória o coração
fugaz deste momento."

Rosa Lobato de Faria in "Memória do Corpo"

domingo, 22 de agosto de 2010

Canção

"Hoje venho dizer-te que nevou
no rosto familiar que te esperava.
Não é nada, meu amor, foi um pássaro,
a casca do tempo que caiu,
uma lágrima, um barco, uma palavra.

Foi apenas mais um dia que passou
entre arcos e arcos de solidão;
a curva dos teus olhos que se fechou,
uma gota de orvalho, uma só gota,
secretamente morta na tua mão."

Eugénio de Andrade in "As Palavras Interditas"

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Arte em 3D a partir de capas de livros












Thomas Allen recorta personagens retiradas de capas de "clássicos" e posiciona-as em cenas de acção, originando estas e outras obras de arte em 3D !

sábado, 14 de agosto de 2010

Uma delícia de capa ... ;)

Fonte

"Meu amor diz-me o teu nome
- Nome que desaprendi ...
Diz-me apenas o teu nome.
Nada mais quero de ti.
Diz-me apenas se em teus olhos
Minhas lágrimas não vi,
Se era noite nos teus olhos,
Só por que passei por ti !
Depois, calaram-se os versos
- Versos que desaprendi ...
E nasceram outros versos
Que me afastaram de ti.
Meu amor, diz-me o teu nome.
Alumia o meu ouvido.
Diz-me apenas o teu nome,
Antes que eu rasgue estes versos,
Como quem rasga um vestido !"

Pedro Homem de Mello in "Grande, grande era a cidade"

domingo, 8 de agosto de 2010

Juventude

"Lembras-te quando ao fim do dia
Felizes, ambos, íamos nadar
E em nossa boca a espuma persistia
Em dar ao Sol o nome do Luar ?

Tudo era fácil, melodioso e longo.
Aqui e além, um súbito ditongo
Ecoava em nós certa canção pagã ...

Contudo o azul do mar não tinha fundo
E o mundo continuava a ser o mundo
Banhado pela aragem da manhã ! ..."


Pedro Homem de Mello in "O Rapaz da Camisola Verde"

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Pecado

"Caminheiro !
Caminheiro
Que passas tão corcovado !
Diz: qual foi o teu pecado ?
Diz: qual foi o teu castigo ?

Caminheiro !
Caminheiro
Que passas tão corcovado !

- Trago os meus lábios comigo !

Caminheiro !
Caminheiro
Que passas tão corcovado !
Diz: qual foi o teu pecado ?
Diz: qual foi o teu castigo ?

Caminheiro !
Caminheiro
Que passas tão corcovado !

- Trago os meus olhos comigo.

Caminheiro !
Caminheiro
Que passas tão corcovado !
Diz: qual foi o teu pecado ?
Diz: qual foi o teu castigo ?

Caminheiro !
Caminheiro
Que passas tão corcovado !

- Trago a minha alma comigo ..."

Pedro Homem de Mello in "Pecado"