domingo, 7 de novembro de 2010

"Porque não acrediteis que eu escrevo para publicar, nem para escrever nem para fazer arte, mesmo. Escrevo, porque esse é o fim, o requinte supremo, o requinte temperamentalmente ilógico, ( ... ) da minha cultura de estados de alma. Se pego numa sensação minha e a desfio até poder com ela tecer-lhe a realidade interior a que eu chamo ou A Floresta do Alheamento, ou a Viagem Nunca Feita, acreditai que o faço não para que a prosa soe lúcida e trémula, ou mesmo para que eu goze com a prosa - ainda que mais isso quero, mais esse requinte final ajunto, como um cair belo de pano sobre os meus cenários sonhados - mas para que dê completa exterioridade ao que é interior, para me assim realize o irrealizável, conjugue o contraditório e, tornando o sonho exterior, lhe dê o seu máximo poder de puro sonho, estagnador de vida que sou, burilador de inexactidões, pajem doente da minha alma Rainha, lendo-lhe ao crepúsculo não os poemas que estão no livro, aberto sobre os meus joelhos, da minha Vida, mas os poemas que vou construindo e fingindo que leio, e ele fingindo que ouve, enquanto a Tarde, lá fora não sei como ou onde, dulcifica sobre esta metáfora erguida dentro de mim em Realidade Absoluta a luz ténue e última dum misterioso dia espiritual."

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

"Às vezes quando, abatido e humilde, a própria força de sonhar se me desfolha e se me seca, e o meu único sonho só pode ser o pensar nos meus sonhos, folheio-os então, como a um livro que se folheia e se torna a folhear sem ter mais que palavras inevitáveis. É então que me interrogo sobre quem tu és, figura que atravessas todas as minhas visões demoradas de paisagens/outras/, e de interiores antigos e de cerimoniais faustosos de silêncio. Em todos os meus sonhos ou apareces, sonho, ou, realidade falsa, me acompanhas. Visito contigo regiões que são talvez sonhos teus, terras que são talvez corpos teus de ausência e desumanidade, o teu corpo essencial descontornado para planície calma e monte de perfil frio em jardim de palácio oculto. Talvez eu não tenha outro sonho senão tu, talvez seja nos teus olhos, encostando a minha face à tua, que eu lerei essas paisagens impossíveis, esses tédios falsos, esses sentimentos que habitam a sombra dos meus cansaços e as grutas dos meus desassossegos. Quem sabe se as paisagens dos meus sonhos não são o meu modo de não te sonhar ? Eu não sei quem tu és, mas sei ao certo o que sou ? Sei eu o que é sonhar para que saiba o que vale o chamar-te o meu sonho ? Sei eu se não és uma parte, quem sabe se a parte essencial e real, de mim ? E sei eu se não sou eu o sonho e tu a realidade, eu um sonho teu e não tu um sonho que eu sonhe ?
Que espécie de vida tens ? Que modo de ver é o modo como te vejo ? Teu perfil ? Nunca é o mesmo, mas não muda nunca. E eu digo isto porque o sei, ainda que não saiba que o sei. Teu corpo ? Nu é o mesmo que vestido, sentado está na mesma atitude do que quando deitado ou de pé. Que significa isto, que não significa nada ?

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

"Eu sou a filha da Terra e da Água,
e a lactente do Céu:
Atravesso os poros do oceano e das praias
e mudo, mas não posso morrer.
Pois quando, depois da chuva, sem uma nódoa,
o pavilhão do Céu está nu,
e os ventos e os raios de sol, com o seu brilho convexo,
constroem a abóbada azul do ar,
do meu próprio cenotáfio eu rio em silêncio
e, das cavernas da chuva,
como uma criança do ventre, como um fantasma da tumba,
eu ergo-me e desfaço-a novamente."

Percy Bysshe Shelley in "A Nuvem"

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

"Há uma erudição do conhecimento, que é propriamente o que se chama erudição, e há uma erudição do entendimento, que é o que se chama cultura. Mas há também uma erudição da sensibilidade.
A erudição da sensibilidade nada tem que ver com a experiência da vida. A experiência da vida nada ensina, como a história nada informa. A verdadeira experiência consiste em restringir o contacto com a realidade e aumentar a análise desse contacto. Assim a sensibilidade se alarga e aprofunda, porque em nós está tudo; basta que o procuremos e o saibamos procurar."

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

terça-feira, 26 de outubro de 2010

"O despertar de uma cidade, seja entre névoa ou de outro modo, é sempre para mim uma coisa mais enternecedora do que o raiar da aurora sobre os campos. Renasce muito mais, há muito mais que esperar, quando, em vez de só dourar, primeiro de luz obscura, depois de luz húmida, mais tarde de ouro luminoso, as relvas, os relevos dos arbustos, as palmas das mãos das folhas, o sol multiplica os seus possíveis efeitos nas janelas, nos muros, nos telhados, - ( ... ) - quando manhã ( ... ) a tantas realidades diversas. Uma aurora no campo faz-me bem; uma aurora na cidade bem e mal, e por isso me faz mais que bem. Sim, porque a esperança / maior / que me traz tem, como todas as esperanças, aquele travo longínquo e saudoso de não ser realidade. A manhã do campo existe; a manhã da cidade promete. Uma faz viver; a outra faz pensar. E eu hei-de sempre de sentir, como os grandes malditos, que mais vale pensar que viver."

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

domingo, 24 de outubro de 2010

"Durei horas incógnitas, momentos sucessivos sem relação, no passeio em que fui, de noite, à beira sozinha do mar. Todos os pensamentos, que têm feito viver homens, todas as emoções, que os homens têm deixado de viver, passaram por minha mente, como um resumo escuro da história, nessa minha meditação andada à beira-mar.
Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos.
( ... )
Somos quem não somos, e a vida é pronta e triste. O som das ondas à noite é um som da noite; e quantos o ouviram na própria alma , como a esperança constante que se desfaz no escuro com um som surdo de espuma funda ! Que lágrimas choraram os que obtiveram, que lágrimas perderam os que conseguiram ! E tudo isto, no passeio à beira-mar, se me tornou o segredo da noite e a confidência do abismo. Quantos somos ! Quantos nos enganamos ! Que mares soam em nós, na noite de sermos, pelas praias que nos sentimos nos alagamentos da emoção !"

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

domingo, 17 de outubro de 2010

Li "Comer Orar Amar" de Elizabeth Gilbert e ...

Sinopse:
"Aos trinta anos, Elizabeth Gilbert tinha um marido, uma casa de campo, uma carreira de sucesso - tudo aquilo que uma mulher pode desejar. Ou talvez não ...
Decide deixar tudo para trás e, depois de uma arrasadora crise existencial e de um divórcio difícil, parte à aventura.
Dividida entre o desejo de prazeres mundanos e a aspiração a uma transcendência divina, experimenta as delícias da dolce vita em Itália e o rigor ascético na Índia.
Na Indonésia, procura a equilíbrio e encontra o amor.
O relato desses doze meses de viagem constitui um mosaico de emoções e experiências culturais, recheado de personagens envolventes, descrições vívidas e histórias apaixonantes."


A minha opinião:
O livro consiste nas memórias da autora que viajou por 3 países - Itália, Índia e Indonésia - por um ano para tentar se reencontrar, reestabelecer-se e renovar-se como pessoa.
Decidiu rumar a Itália para sentir prazer através da comida e para aprender italiano, idioma pelo qual sempre se sentiu atraída.
Na Índia concentrou-se na sua espiritualidade, praticando meditação e procurando um auto-conhecimento mais profundo.
Em Bali, na Indonésia, conseguiu equilibrar o prazer sensual e a transcendência divina, tendo encontrado o verdadeiro amor.

Nesta demanda espiritual de Elizabeth Gilbert ( e neste ponto identifico-me imenso com ela ), a própria define-se como uma pessoa na fronteira de dois mundos, e passa de uma forma muito clara a mensagem duma possibilidade real, a de conciliar o melhor dos dois enquanto mergulhados na viagem ao interior de nós mesmos.

Na obra, conseguimos vislumbrar claramente que o fio condutor da narrativa baseia-se na Regra da Física da Procura.
Esta consiste no facto de que, se formos corajosos o suficiente para deixarmos para trás tudo o que nos é familiar e reconfortante ( que pode ser algo como a nossa casa a um velho e amargo ressentimento ) e partirmos numa viagem em busca da verdade, se estivermos sinceramente dispostos a ver tudo o que nos vai acontecer durante essa viagem como um ensinamento, e se aceitarmos cada um que encontrarmos durante a mesma como um mestre, e se estivermos acima de tudo preparados para encarar e perdoar algumas realidades desagradáveis a nosso respeito, então a verdade não nos será ocultada.

Enfim, na minha opinião, aquelas pessoas que procuram entender a vida, entenderem-se a si próprias, reflectirem sobre a existência e vivem numa profunda busca espiritual, identificar-se-ão profundamente com este livro, como foi o meu caso ! ;)

( 43º livro lido em 2010 ... 9081 páginas lidas )

sábado, 16 de outubro de 2010

"Releio passivamente, recebendo o que sinto como uma inspiração e um livramento, aquelas frases simples de Caeiro, na referência natural do que resulta do pequeno tamanho da sua aldeia. Dali, diz ele, porque é pequena, pode ver-se mais do mundo do que da cidade; e por isso a aldeia é maior que a cidade ...

«Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura.»

Frases como estas, que parecem crescer sem vontade que as houvesse dito, limpam-me de toda a metafísica que espontaneamente acrescento à vida. Depois de as ler, chego à minha janela sobre a rua estreita, olho o grande céu e os muitos astros, e sou livre com um esplendor alado cuja vibração me estremece no corpo todo.

«Sou do tamanho do que vejo!» Cada vez que penso esta frase com toda a atenção dos meus nervos, ela me parece mais destinada a reconstruir consteladamente o universo. «Sou do tamanho do que vejo!» Que grande posse mental vai desde o poço das emoções profundas até as altas estrelas que se reflectem nele, e, assim, em certo modo, ali estão.

E já agora, consciente de saber ver, olho a vasta metafísica objectiva dos céus todos com uma segurança que me dá vontade de morrer cantando. «Sou do tamanho do que vejo!» E o vago luar, inteiramente meu, começa a estragar de vago o azul meio-negro do horizonte.

Tenho vontade de erguer os braços e gritar coisas de uma selvajaria ignorada, de dizer palavras aos mistérios altos, de afirmar uma nova personalidade larga aos grandes espaços da matéria vazia.

Mas recolho-me e abrando. «Sou do tamanho do que vejo!» E a frase fica-me sendo a alma inteira, encosto a ela todas as emoções que sinto, e sobre mim, por dentro, como sobre a cidade por fora, cai a paz indecifrável do luar duro que começa largo com o anoitecer."

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

terça-feira, 5 de outubro de 2010

"O porto da minha mente é uma baía aberta, o único acesso à ilha do meu eu ( que é uma ilha jovem e vulcânica, mas fértil e promissora ). Esta ilha já passou por algumas guerras, é verdade, mas está agora empenhada na paz sob o governo de um novo líder ( eu ) que instituiu novas políticas para proteger o lugar. E agora - vamos propagar isto aos sete mares - há leis muito, mas mesmo muito mais rigorosas sobre quem pode entrar nesse porto. Ele não voltará a albergar pessoas com pensamentos maus e abusivos, navios de pensamentos com peste, navios de pensamentos escravos, navios de pensamentos em guerra. Todos eles verão recusada a sua entrada. Da mesma forma, quaisquer pensamentos que estejam cheios de exilados furiosos ou famintos, de descontentes e planfetários, amotinados e assassinos violentos, prostitutas desesperadas, proxenetas e clandestinos sediciosos verão igualmente recusada a sua entrada. O mesmo se aplica aos pensamentos canibais, por razões óbvias. Até mesmo os missionários serão cuidadosamente revistados em busca de sinceridade. Este é um porto pacífico, a entrada para uma linda e orgulhosa ilha que está agora a começar a cultivar a tranquilidade. Se conseguirem viver de acordo com estas novas leis, meus queridos pensamentos, então serão bem-vindos à minha mente. Caso contrário, enviar-vos-ei a todos de volta ao mar de onde vieram.
É esta a minha missão e nunca acabará."

Elizabeth Gilbert in "Comer Orar Amar"

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Vegetal e Só

"É Outono, desprende-te de mim.

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.

Devolve-me o rosto de um verão
febril de tantos lábios,
sem nenhum rumor de lágrimas
nas pálpebras acesas.

Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como um rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra."

Eugénio de Andrade in "As Palavras Interditas"

domingo, 5 de setembro de 2010

Li "Os Vagabundos do Dharma" de Jack Kerouac e ...

"Os Vagabundos do Dharma" conta a história de uma busca pela verdade e pela iluminação. Uma busca do caminho do Zen.
O protagonista, Ray Smith, é um aspirante a escritor de São Francisco que anseia por algo mais na vida. Esse algo mais será apresentado a ele por Japhy Rider - um jovem zen-budista adepto do montanhismo que vive com um mínimo de dinheiro, alheio à sociedade de consumo norte-americana.

Adorei este livro por várias razões, sendo que a principal baseia-se na minha identificação com as diversas abordagens de Kerouac ao longo da narrativa.
Assim ...

- Achei engraçado o nome dos maiores de todos os vagabundos do dharma ser "Os Lunáticos Zen da China e do Japão" ! ;)

- Interessei-me pela história de Han Shan, um erudito chinês que se fartou da grande cidade e do mundo e se refugiou nas montanhas. Era um poeta, um montanhista, um budista dedicado ao princípio da meditação sobre a essência de todas as coisas.

- Fiquei com curiosidade em conhecer o famoso jardim Ryoanji, um jardim de pedra no mosteiro de Shokokuji em Quioto, que não tem mais nada senão velhos pedregulhos dispostos de uma certa maneira, que pretende ser misticamente estética e que faz milhares de turistas e monges viajarem todos os anos para ficarem especados a olhar para os pedregulhos na areia, obtendo com isso paz de espírito.

- Encantei-me com as mandalas mágicas ( invenções tibetanas ) e com os haikus que têm de ser tão simples como papas de aveia. ;)

- Considerei bastante interessante o conceito de meditação dos trilhos, segundo o qual limitamo-nos a andar a olhar para o trilho aos nossos pés, não desviamos o olhar e mergulhamos num transe enquanto o chão passa por debaixo de nós. Ora aqui está algo que irei tentar colocar em prática ... ;)

- E, finalmente, deliciei-me com as belíssimas descrições da Montanha Hozomeen.

Enfim, posso afirmar que esta é uma obra à altura de "On the Road", e na qual é bastante notório o interesse de Kerouac pelas filosofias orientais.

( 37º livro lido em 2010 ... 7484 páginas lidas )

sábado, 4 de setembro de 2010

"Mas eu tinha as minhas próprias ideias maradas e não estavam relacionadas com a parte «lunática» de toda esta questão. Queria arranjar um equipamento completo com todas as coisas necessárias para dormir, morar, comer, cozinhar, o que eu queria de facto era uma cozinha e um quarto às costas, e partir para um lado qualquer e achar a solidão perfeita e contemplar o vazio perfeito da minha mente e ser completamente neutro a toda e qualquer ideia. Também tencionava rezar, como única actividade, rezar por todos os seres vivos; achava que era a única actividade decente que nos restava neste mundo. Estar algures na foz de um rio, ou num deserto, ou nas montanhas, ou numa cabana no México ou numa barraca em Adirondack, e repousar e ser afável, e não fazer mais nada, praticar aquilo a que os chineses chamam «fazer nada»."

Jack Kerouac in "Os Vagabundos do Dharma"
" - Quero andar de bicicleta no calor da tarde quente, calçar sandálias de couro paquistanesas, gritar em voz alta aos meus amigos monges Zen, vestidos com leves túnicas de cânhamo e cabeças rapadas, quero viver em templos de pavilhões dourados, despedir-me, ir para Yokohama, o grande porto azafamado da Ásia, cheio de batéis e bagatelas, ter esperança, trabalhar por ali, voltar, partir, partir para o Japão, voltar para os EUA, ler Hakuin, ranger os dentes e disciplinar-me a toda a hora sem chegar a lado nenhum e assim aprender ... aprender que o meu corpo e tudo o mais fica cansado e doente e prostrado e assim descobrir tudo sobre Hakuyu."

Jack Kerouac in "Os Vagabundos do Dharma"

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Em movimento

" Uma mulher em movimento é uma mulher interessante. Ela tem sempre imensas coisas para fazer, e, quando não tem, inventa. Ela tem amigas com quem almoça todas as semanas, dois ou três amigos de grande confiança e acima de qualquer suspeita com quem vai jantar uma vez por mês, ela trabalha, ela vai à ginástica, ela vai ao cabeleireiro, ela tira cursos de teatro, de comida oriental e de linguagem gestual, tudo isto enquanto deixa os filhos na natação, ela gosta de ir ao teatro, ela vai a exposições, numa palavra, ela tem vida própria.
As mulheres em movimento são mais difíceis de controlar, porque mudam de interesses com facilidade: hoje querem aprender krav-magga, amanhã interessam-se por pintura a óleo. Mas têm uma enorme qualidade: estão sempre ocupadas. E quando têm tempo para um homem é porque ele é mesmo importante. Senão, tinham mais que fazer.
Por outro lado, uma mulher em movimento aguça a concentração masculina. O simples facto de um homem não saber o que é que ela poderá estar a fazer naquele exacto momento - pode estar numa aula de ioga, nos saldos com as amigas ou em casa a ler um livro - faz com que ele a valorize. Porquê ? Porque sente que não a tem na mão, mesmo que se trate de uma namorada devota ou de uma mulher fiel. A ideia de as mulheres terem a sua vida é algo que fascina os homens ao mesmo tempo que os assusta. Os mais corajosos aceitam o desafio, enchem o peito de ar e dão o seu melhor. Os mais comodistas optam por uma sossegadinha, daquelas que organizam a vida em função dos interesses do seu par e que estão sempre em casa à espera que ele volte, com um prato de comida quente e um sorriso submisso.
A mulher quieta até pode ser a dona de casa modelar e a mãe ideal para os filhos, mas tanta simplicidade cansa ... A não ser que este seja do género paz-de-alma ou já tenha literalmente encostado às boxes, uma mulher quieta pode tornar-se uma grande maçada."

Margarida Rebelo Pinto in "Onde reside o amor"