segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Pelo caminho das fadas

"Pelas mesmas estradas
Por onde eu caminho
Vão bailando fadas
Dizendo baixinho:

-«Se nos deres a mão
Se nos procurares
Abre-se o portão
P'ra tudo o que amares

Segredos da Terra
Irás escutar
Em Encantos d'Água
Irás mergulhar

E verás que as águas
serão libertadas
Desfazem-se as mágoas
Pelo ar espalhadas

Leveza do Ar
Apelos das Plantas
Fadas a chamar
E sem querer já cantas

Pois no ar há luz
E na luz calor
Feitiços de Fogo
E fogo de amor ...

E no fogo há morte
Está perdido o norte
Há distância e frio

Cristalização ...

Mas Algo mais forte,
Quase como um corte,
Que sempre existiu

É Transformação ...

Então devagar,
Talvez possas ver
Anjos a chegar
Anjos a poisar
Na Terra a viver»

A tudo isto as fadas
Te vão conduzir
Se p'lo seu caminho
Tu quiseres seguir."

Luísa Barreto in "Pelo caminho das fadas"

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

"Tenho um estranho desejo das coisas grandes, simples e primevas, tal como o Mar, para mim não menos maternal do que a Terra. Parece-me que todos olhamos demasiado para a natureza e vivemos muito pouco com ela. Vislumbro grande sanidade na atitude grega. Nunca falavam do pôr-do-sol, nem discutiam se as sombras na relva eram, ou não, de facto, cor de malva. Mas percebiam que o mar era para aquele que nada, e a areia para os pés do corredor. Amavam as árvores pela sombra que lançavam, e a floresta pelo seu silêncio, à noite. O tratador da vinha embrulhava os cabelos em folhas de hera, para que afastassem os raios do sol, quando este parava sobre os rebentos, e, para o artista e o atleta, os dois tipos que a Grécia nos transmitiu, entrançavam em grinaldas as folhas do amargo louro e da salsa selvagem que, de outra maneira, não teriam tido utilidade para o homem.
Chamamos a nós próprios uma idade utilitária, e não conhecemos a utilidade das coisas. Esquecemo-nos de que a Água pode limpar e o Fogo purificar, e que a Terra é mãe de todos nós. Como consequência, a nossa Arte é da Lua e brinca com as sombras, enquanto a arte grega é do Sol e lida directamente com as coisas. Tenho a certeza de que há purificação nas forças elementais, e quero voltar a elas e viver na sua presença."

Oscar Wilde in "De Profundis"

sábado, 1 de janeiro de 2011

Os 10 melhores livros de 2010 !

2010 ... 64 livros num total de 12.373 páginas lidas !
Desafio para 2011 ... 70 livros !

E os 10 livros que mais gostei de ler em 2010 foram:
  • "A conquista da felicidade" de Bertrand Russell
  • "Balada de amor ao vento" de Paulina Chiziane
  • "Comer Orar Amar" de Elizabeth Gilbert
  • "Conversas com Deus" de Neale Donald Walsch
  • "Humilhados e Ofendidos" de Fiódor Dostoiévski
  • "Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa
  • "No interior da tua ausência" de Baptista-Bastos
  • "O monge que vendeu o seu Ferrari" de Robin S. Sharma
  • "Os linhos da Avó" de Rosa Lobato de Faria
  • "Os Vagabundos do Dharma" de Jack Kerouac

domingo, 26 de dezembro de 2010

"Existem dois modos distintos de ler os autores: um deles é muito bom e útil, o outro, inútil e até mesmo perigoso. É muito útil ler quando se medita sobre o que é lido; quando se procura, pelo esforço da mente, resolver as questões que os títulos dos capítulos propõem, mesmo antes de se começar a lê-los; quando se ordenam e compararam as ideias umas com as outras; em suma, quando se usa a razão. Ao contrário, é inútil ler quando não entendemos o que lemos, e perigoso ler e formar conceitos daquilo que lemos quando não examinamos suficientemente o que foi lido para julgar com cuidado, sobretudo se temos memória bastante para reter os conceitos firmados e imprudência bastante para concordar com eles. O primeiro modo de ler ilumina e fortifica a mente, aumentando o seu entendimento. O segundo diminui o entendimento e gradualmente torna-o fraco, obscuro e confuso. Acontece que a maior parte daqueles que se vangloriam de conhecer as opiniões dos outros estuda apenas do segundo modo. Quanto mais lêem, portanto, mais fracas e mais confusas se tornam as suas mentes."

Malebranche (1674)

sábado, 25 de dezembro de 2010

Uma sugestão de leitura ...

"A Serra de Sintra é um lugar mágico ...

E como todos os lugares mágicos, está repleto de histórias fantásticas !

Seres misteriosos habitam as suas profundezas, deixando correr na voz do vento o murmúrio da sua existência ...

Feitos valorosos tiveram lugar nestes montes: Os Montes da Lua !

Mouras encantadas ainda choram na escuridão dos seus bosques, esperando a vinda de belos cavaleiros para as salvarem das suas masmorras ... Dragões e Fadas protegem as suas terras, em lutas intermináveis contra Demónios das Trevas ...

Criaturas fantásticas como as Nereides, são aqui transformadas em Ninfas, para habitar o mundo mágico dos Montes da Lua e, nos contarem as suas histórias.

"Sintra Mágica" de Vera Cardoso Chumbinho

sábado, 11 de dezembro de 2010

"Os leitores podem ser divididos em três classes: o superficial, o ignorante e o erudito. Quanto a mim, adapto a minha pena com muita felicidade em prol do génio e das vantagens de cada um. O leitor superficial será curiosamente levado a gargalhar, o que limpa o peito e os pulmões, combate o mau humor e é o mais inocente dos diuréticos. O leitor ignorante ( cuja diferença do primeiro é extremamente subtil ) vai-se descobrir inclinado a olhar fixamente, o que é um remédio admirável para os olhos cansados, serve para elevar e avivar o espírito, e ajuda de maneira maravilhosa na transpiração. Mas o leitor verdadeiramente erudito, aquele para cujo benefício permaneço acordado enquanto os outros dormem, e adormeço quando eles acordam, encontrará aqui material suficiente para exercitar as suas faculdades especulativas para o resto da vida."

Jonathan Swift ( 1702 )

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

"Era uma vez um rei que, quando era príncipe, queria apenas ser poeta. Gostava das palavras, de brincar com elas, de procurar os seus sons e os seus sentidos e de fazer delas naus capazes de o transportar a lugares onde ainda ninguém conseguira chegar.

Em vez de coleccionar objectos, Dinis gostava de coleccionar palavras, de as arrumar como quem arruma as coisas belas que o coração escolheu. Uns dias usava umas, porque estava triste, noutros usava palavras diferentes, porque eram as que melhor se davam com a alegria que lhe ia na alma. Nesse tempo, muito antes de se tornar rei, se alguém lhe perguntasse o que queria ser quando chegasse à idade adulta, ele responderia: «Quero ser poeta»."

José Jorge Letria in "Era uma vez um Rei Poeta"

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Verão, Outono

"Antigamente havia em mim um nome gravado a fogo e eu
morria por ele. Eu fechava os olhos e o nome pedia-me a luz,
a manhã, a música. Antigamente eu imaginava a delicadeza,
as florestas, os bosques reduzidos ao silêncio pelos subterrâneos

da tarde, e ser tocado no rosto era ser ferido por uma imensa
beleza, pelos olhos da planície, como um animal adormecido,
como um lugar onde deitar a cabeça e adormecer sonhando
com o deserto. No deserto eu estava a salvo, caminhando nos

declives e havia palavras imensas, palavras como o trigo e o mar
e as raízes e os relâmpagos e um rosto e os campos do Outono
e isso era como ficar cego no meio da luz estremecendo entre
as poeiras, as cores da manhã, as veredas dos bosques. E eu olho

fixamente esse rosto de fogo, toco uma vez essas mãos, amo
demoradamente a distância, comovo-me perdido na sua
voz, enquanto passa no mundo uma estranha ventania."

Francisco José Viegas in "O Puro e o Impuro"

sábado, 20 de novembro de 2010

"Jung associa o inconsciente à alma, pelo que quando nos esforçamos por viver uma vida perfeitamente consciente num mundo intelectualmente previsível, resguardado de todos os mistérios e acomodado à conformidade, desperdiçamos as oportunidades que a vida diária nos oferece para ter uma vida plena e intensa. O intelecto quer conhecer; a alma gosta de ser surpreendida. O intelecto, cujo olhar está dirigido para o exterior, deseja ser iluminado e sentir o prazer de um entusiasmo intenso. A alma, constantemente virada para dentro, busca a contemplação e a experiência mais imaterial e mais misteriosa do mundo inferior.
( ... )
O intelecto deseja um significado sumário - muito adequado à natureza pragmática do espírito. A alma, no entanto, anseia por uma reflexão profunda, por muitos níveis de sentido, cambiantes infinitos, referências e alusões e prefigurações.
( ... )
É frequente o intelecto exigir provas de que se encontra em terreno firme. O pensamento da alma encontra as suas raízes de um modo diferente. Agrada-lhe a persuasão, a subtileza de análise, uma lógica interna e a elegância. Gosta do género de discussão que nunca é dada por concluída, que termina com o desejo de prolongar o diálogo ou a leitura. Sente-se satisfeito com a incerteza e a dúvida e, especialmente em assuntos de natureza ética, escrutina, questiona e continua a reflectir mesmo depois de as decisões terem sido tomadas."

Thomas Moore in "O Sentido da Alma"

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

"O narcisismo é um estado em que uma pessoa não gosta de si própria. Este insucesso amoroso prevalece na forma do seu oposto, dado que o indivíduo se esforça por conquistar a auto-aceitação. O complexo revela-se através de um esforço e de uma sobrevalorização demasiado óbvios. É evidente para todos que o amor narcisista é superficial. Sabemos, instintivamente, que alguém que fala constantemente de si próprio não deverá possuir grande auto-estima.
( ... )
O segredo para a cura do narcisismo não reside, de modo nenhum, na sua cura mas sim em permanecer atento a ele e em escutá-lo. O narcisismo é um indício de que a alma não está a receber amor suficiente. Quanto maior é o grau de narcisismo menor é a intensidade de amor que está a ser dispensado."

Thomas Moore in "O Sentido da Alma"

domingo, 7 de novembro de 2010

"Porque não acrediteis que eu escrevo para publicar, nem para escrever nem para fazer arte, mesmo. Escrevo, porque esse é o fim, o requinte supremo, o requinte temperamentalmente ilógico, ( ... ) da minha cultura de estados de alma. Se pego numa sensação minha e a desfio até poder com ela tecer-lhe a realidade interior a que eu chamo ou A Floresta do Alheamento, ou a Viagem Nunca Feita, acreditai que o faço não para que a prosa soe lúcida e trémula, ou mesmo para que eu goze com a prosa - ainda que mais isso quero, mais esse requinte final ajunto, como um cair belo de pano sobre os meus cenários sonhados - mas para que dê completa exterioridade ao que é interior, para me assim realize o irrealizável, conjugue o contraditório e, tornando o sonho exterior, lhe dê o seu máximo poder de puro sonho, estagnador de vida que sou, burilador de inexactidões, pajem doente da minha alma Rainha, lendo-lhe ao crepúsculo não os poemas que estão no livro, aberto sobre os meus joelhos, da minha Vida, mas os poemas que vou construindo e fingindo que leio, e ele fingindo que ouve, enquanto a Tarde, lá fora não sei como ou onde, dulcifica sobre esta metáfora erguida dentro de mim em Realidade Absoluta a luz ténue e última dum misterioso dia espiritual."

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

"Às vezes quando, abatido e humilde, a própria força de sonhar se me desfolha e se me seca, e o meu único sonho só pode ser o pensar nos meus sonhos, folheio-os então, como a um livro que se folheia e se torna a folhear sem ter mais que palavras inevitáveis. É então que me interrogo sobre quem tu és, figura que atravessas todas as minhas visões demoradas de paisagens/outras/, e de interiores antigos e de cerimoniais faustosos de silêncio. Em todos os meus sonhos ou apareces, sonho, ou, realidade falsa, me acompanhas. Visito contigo regiões que são talvez sonhos teus, terras que são talvez corpos teus de ausência e desumanidade, o teu corpo essencial descontornado para planície calma e monte de perfil frio em jardim de palácio oculto. Talvez eu não tenha outro sonho senão tu, talvez seja nos teus olhos, encostando a minha face à tua, que eu lerei essas paisagens impossíveis, esses tédios falsos, esses sentimentos que habitam a sombra dos meus cansaços e as grutas dos meus desassossegos. Quem sabe se as paisagens dos meus sonhos não são o meu modo de não te sonhar ? Eu não sei quem tu és, mas sei ao certo o que sou ? Sei eu o que é sonhar para que saiba o que vale o chamar-te o meu sonho ? Sei eu se não és uma parte, quem sabe se a parte essencial e real, de mim ? E sei eu se não sou eu o sonho e tu a realidade, eu um sonho teu e não tu um sonho que eu sonhe ?
Que espécie de vida tens ? Que modo de ver é o modo como te vejo ? Teu perfil ? Nunca é o mesmo, mas não muda nunca. E eu digo isto porque o sei, ainda que não saiba que o sei. Teu corpo ? Nu é o mesmo que vestido, sentado está na mesma atitude do que quando deitado ou de pé. Que significa isto, que não significa nada ?

Fernando Pessoa in "Livro do Desassossego"

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

"Eu sou a filha da Terra e da Água,
e a lactente do Céu:
Atravesso os poros do oceano e das praias
e mudo, mas não posso morrer.
Pois quando, depois da chuva, sem uma nódoa,
o pavilhão do Céu está nu,
e os ventos e os raios de sol, com o seu brilho convexo,
constroem a abóbada azul do ar,
do meu próprio cenotáfio eu rio em silêncio
e, das cavernas da chuva,
como uma criança do ventre, como um fantasma da tumba,
eu ergo-me e desfaço-a novamente."

Percy Bysshe Shelley in "A Nuvem"