segunda-feira, 4 de abril de 2011

O Pastor Amoroso ( I )

"Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo ...
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima.
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor ...
Tu não me tiraste a Natureza ...
Tu não me mudaste a Natureza ...
Trouxeste-me a Natureza para ao pé de mim.
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.

Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.
Só me arrependo de outrora te não ter amado."

"O Pastor Amoroso" de Alberto Caeiro

O Pastor Amoroso ( VI )

"Passei toda a noite, sem saber dormir, vendo sem espaço a figura dela

E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.

Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,

E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.

Amar é pensar.

E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.

Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.

Tenho uma grande distracção animada.

Quando desejo encontrá-la,

Quase que prefiro não a encontrar,

Para não ter que a deixar depois.

E prefiro pensar dela, porque dela como é tenho qualquer medo.

Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.

Quero só pensar ela.

Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar."


"O Pastor Amoroso" de Alberto Caeiro

domingo, 20 de março de 2011

Li "Knulp" de Hermann Hesse e ...

Sinopse:
"Knulp narra três momentos da vida de Karl Eberhard Knulp, um homem alegre e conversador que, nas suas caminhadas por uma Alemanha rural, quase desconhecida, vive a transição para a vida adulta. Knulp é um poeta popular, um aprendiz que nunca chegou a estabelecer-se para exercer pacata e ordeiramente a profissão. Após o longo tempo em que se mantém à margem da chamada «vida normal», sempre em busca do sentido da amizade, do amor e da sua própria existência, é-lhe possibilitada uma compreensão mais íntima da natureza e do essencial, quando então contempla o passado e aquilo que poderia ter sido de si."


A minha opinião:
O romance, que assume a forma de três contos, centra-se na personagem de Knulp, um caminhante do mundo que continuamente vagueia e que recusa prender-se a qualquer espécie de lugar, trabalho ou pessoa.

Uma história encantadora sobre os sentimentos contraditórios de alegria e tristeza quando se é "boémio" na vida e de alma.

Enfim, mais uma "pequena obra-prima" de Hermann Hesse, imbuída de sabedoria e ensinamentos humanos.
"Cada pessoa tem a sua alma, que não pode ser confundida com nenhuma outra. Duas pessoas podem encontrar-se, podem conversar e ser bastante próximas, mas as suas almas são como flores, cada uma com raízes em lugares diferentes, e nenhuma delas pode ir ao encontro da outra, caso contrário teria de abandonar as suas raízes e isso é algo que não conseguem fazer. As flores emitem e trocam o seu aroma e as suas sementes, pois gostariam de ir ao encontro uma da outra, mas para que uma semente chegue ao lugar que lhe é destinado nada a flor pode fazer; responsável por isso é o vento, e esse chega e parte, vai e vem como e para onde ele quiser."

Hermann Hesse in "Knulp"

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Amazing Book Carvings

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Organic Chemistry Butterfly Specimen Box

Webster's New World Dictionary of the American Language

Gran Enciclopedia Del Mundo

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Louis based artist Julia Feld transforms old books into unique works of art !

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Gotinhas de Orvalho

"Gotinhas de orvalho
Ao amanhecer
São sininhos d'água
Que eu gosto de ver

Que eu gosto de ver
De os ouvir tocar
Ao amanhecer
Mesmo ao acordar

-"É bom vir à terra
Para a refrescar ..."
- dizem as gotinhas
Mesmo sem falar

E eu só de as ouvir
Ponho-me a dançar ...
Molho os pés na erva
Mas sem me importar"

Luísa Barreto in "Pelo caminho das fadas"

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Canção de Inverno

"É Inverno, está tão escuro e frio ...
Nunca uma noite tão longa se viu ...
Tudo se cala, a porta se cerra ...
Ninguém mais fala do que a noite encerra ...
As flores murcharam
Aves emigraram
E tudo dorme à face da Terra ...

E é então
Que debaixo do chão
Entre as raízes e a confusão
Algo desperta
Há gnomos alerta
Iluminando toda a escuridão

E devagar
E pé ante pé
Descem os gnomos
Pela chaminé
E sem ruído
Falam ao ouvido
Quando dormimos
Sem nos acordar

E contam histórias
Que fazem sonhar
Nos sonhos entram
Ficam a brilhar
Dão-nos presentes
Sonhos transparentes
Sonhos de luz
Para nos guiar ...

Chegou a altura
de irmos à procura
de uma outra luz que ilumine mais fundo ...

E brilha enfim
um Sol dentro de mim
O mesmo Sol que ilumina o mundo ..."

Luísa Barreto in "Pelo caminho das fadas"

domingo, 30 de janeiro de 2011

Floresta viva

"Já tinha saudades
saudades do vento,
já tinha saudades do seu murmurar ...

da dança das ervas,
das hastes fininhas
que vergam, em ondas,
... do seu balançar ...

Na floresta viva
de novo me sento
o corpo parado,
a alma a dançar ...

De novo me falam
as folhas douradas
que brilham, rebrilham,
estão sempre a brilhar ...
De novo o chão verde
me encanta e descansa
de novo aqui estou,
quieta, a olhar ...

Ah! De novo, de novo
a alma se alarga
num espaço infinito
no Teu respirar ...

A floresta viva,
num sopro de vento,
entrou por mim dentro,
ensinou-me a Amar ..."

Luísa Barreto in "Pelo caminho das fadas"

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A barca das fadas

"Na leve barca das fadas
Eu entrei
Deixei-me ir ...

Pelas águas prateadas
Deslizei
No meu sentir ...

E salgueiros inclinados
Me acolhiam
A sorrir ...

E pirilampos nos prados
Me diziam
A luzir:

-«Quem vê mundos acordados
Nunca mais
Irá dormir ..."

Luísa Barreto in "Pelo caminho das fadas"

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Ninfas pelo rio

"Quando o céu está como agora
É que está chegando a hora
De haver ninfas pelo rio

Descem em nuvens douradas
Vêem-se em águas espelhadas
Mas nunca ninguém as viu

E já o sol está a ir !
Já as ninfas vão fugir ...
Já a magia sumiu ..."

Luísa Barreto in "Pelo caminho das fadas"

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Pelo caminho das fadas

"Pelas mesmas estradas
Por onde eu caminho
Vão bailando fadas
Dizendo baixinho:

-«Se nos deres a mão
Se nos procurares
Abre-se o portão
P'ra tudo o que amares

Segredos da Terra
Irás escutar
Em Encantos d'Água
Irás mergulhar

E verás que as águas
serão libertadas
Desfazem-se as mágoas
Pelo ar espalhadas

Leveza do Ar
Apelos das Plantas
Fadas a chamar
E sem querer já cantas

Pois no ar há luz
E na luz calor
Feitiços de Fogo
E fogo de amor ...

E no fogo há morte
Está perdido o norte
Há distância e frio

Cristalização ...

Mas Algo mais forte,
Quase como um corte,
Que sempre existiu

É Transformação ...

Então devagar,
Talvez possas ver
Anjos a chegar
Anjos a poisar
Na Terra a viver»

A tudo isto as fadas
Te vão conduzir
Se p'lo seu caminho
Tu quiseres seguir."

Luísa Barreto in "Pelo caminho das fadas"

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

"Tenho um estranho desejo das coisas grandes, simples e primevas, tal como o Mar, para mim não menos maternal do que a Terra. Parece-me que todos olhamos demasiado para a natureza e vivemos muito pouco com ela. Vislumbro grande sanidade na atitude grega. Nunca falavam do pôr-do-sol, nem discutiam se as sombras na relva eram, ou não, de facto, cor de malva. Mas percebiam que o mar era para aquele que nada, e a areia para os pés do corredor. Amavam as árvores pela sombra que lançavam, e a floresta pelo seu silêncio, à noite. O tratador da vinha embrulhava os cabelos em folhas de hera, para que afastassem os raios do sol, quando este parava sobre os rebentos, e, para o artista e o atleta, os dois tipos que a Grécia nos transmitiu, entrançavam em grinaldas as folhas do amargo louro e da salsa selvagem que, de outra maneira, não teriam tido utilidade para o homem.
Chamamos a nós próprios uma idade utilitária, e não conhecemos a utilidade das coisas. Esquecemo-nos de que a Água pode limpar e o Fogo purificar, e que a Terra é mãe de todos nós. Como consequência, a nossa Arte é da Lua e brinca com as sombras, enquanto a arte grega é do Sol e lida directamente com as coisas. Tenho a certeza de que há purificação nas forças elementais, e quero voltar a elas e viver na sua presença."

Oscar Wilde in "De Profundis"

sábado, 1 de janeiro de 2011

Os 10 melhores livros de 2010 !

2010 ... 64 livros num total de 12.373 páginas lidas !
Desafio para 2011 ... 70 livros !

E os 10 livros que mais gostei de ler em 2010 foram:
  • "A conquista da felicidade" de Bertrand Russell
  • "Balada de amor ao vento" de Paulina Chiziane
  • "Comer Orar Amar" de Elizabeth Gilbert
  • "Conversas com Deus" de Neale Donald Walsch
  • "Humilhados e Ofendidos" de Fiódor Dostoiévski
  • "Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa
  • "No interior da tua ausência" de Baptista-Bastos
  • "O monge que vendeu o seu Ferrari" de Robin S. Sharma
  • "Os linhos da Avó" de Rosa Lobato de Faria
  • "Os Vagabundos do Dharma" de Jack Kerouac