quarta-feira, 27 de abril de 2011

"Mostrai-me por esse vasto mundo o homem que melhor conheça ou mais ame as nuvens que eu ! Ou mostrai-me a coisa deste mundo que seja mais bela que as nuvens ! Elas são brinquedo e consolo do olhar, são bênção e dom de Deus, são a cólera e o poder da morte. Elas são delicadas, suaves e calmas como as almas dos recém-nascidos, são belas, ricas e dispensadoras como anjos bons, são negras, irrevogáveis e fatais como os mensageiros da morte. Elas pairam prateadas em ténues camadas, vogam ridentes, brancas com bordos doirados, elas param para repousar com cores amarelas, vermelhas e azuladas. Elas avançam soturnas e lentas como assassinos, galopam desenfreadas, de cabeça erguida, como cavaleiros loucos, pendem tristes e sonhadoras em pálidas alturas como melancólicos eremitas. Elas têm a forma de ilhas maravilhosas e de anjos a abençoar, assemelham-se a mãos ameaçadoras, velas adejando, grous em migração. Pairam entre o céu divino e a pobre terra, quais belas metáforas da nostalgia humana, pertencendo a ambos - sonhos da terra, em que esta roça a sua alma conspurcada no céu puro. Elas são a imagem eterna de todo o caminhar, da busca, da ânsia e da saudade do lar. E assim como elas pendem entre a terra e o céu, apreensivas, ansiosas e obstinadas as almas dos homens, entre o tempo e a eternidade."

Hermann Hesse in "Peter Camenzind"

segunda-feira, 25 de abril de 2011



"Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela."

Alberto Caeiro in "Poemas Inconjuntos"
"Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor,
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor,
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor."

Alberto Caeiro in "O Guardador de Rebanhos"

sábado, 23 de abril de 2011

Li "O Culto do Chá" de Wenceslau de Moraes e ...

Sinopse:

"Abordado não como objecto sociológico, e sim como fenónemo poético, O Culto do Chá, um dos mais belos livros de Wenceslau de Moraes, não é, literariamente, uma simples aguarela: antes é a confissão plena de um ocidental que, de maneira consciente e de si encantado, se submerge na porcelana-efusão de um outro modo qualitativo de se ser pessoa. Poder-se-á dizer, sem qualquer exagero, que O Culto do Chá se assume como a transfiguração do homem ocidental no homem oriental, não num processo de apagamento, e sim num acto de confraternização. Todo um ritual, como um aroma, se eleva destas páginas que o tempo subtilmente amadureceu: é a paisagem, a recolha das folhas, a efusão, os 75 a 300 gestos com que a bebida é ofertada, os recipientes de milénios, a conversa nas esteiras - e, por fim, a sede de beleza que jamais se apaga em quem assim se dá ao culto de sorver o chá."



A minha opinião de leitura:

As descrições iniciam-se com o seu cultivo nos campos que, segundo o autor, "são cuidados como jardins, em longos alinhamentos de arbustos, copados, arredondados, lembrando enormes manjericos" e onde as mulheres japonesas com os seus "dedos róseos, miudinhos, a escorrerem de orvalho e multiplicando-se em gestos delicados, vão colhendo os rebentos tenros de chá."

Descreve, depois, sempre num discurso poético e muito colorido, todo o processo de fabrico, onde "o chá é escolhido, escaldado, posto a secar, grelhado em fornos, enroladas as folhas ou reduzido a pó, depois empacotado, guardado em latas, em caixas, em boiões. Um melindroso amanho que requer mãos incansáveis, dedos prestimosos, cuidados inauditos, segredos de processo."

Mas o ritual do culto do chá não se fica por aqui, muito pelo contrário, vai atingir a sua maior plenitude, quando chega aos seus consumidores e a bebida é ofertada, multiplicando-se então em gestos sem conta, numa cerimónia onde o primor da cortesia e o convívio social fazem a apologia do seu culto ( chanoyu ).

Wenceslau de Moraes preferiu abordar O Culto do Chá não como sociólogo mas antes como poeta: exalta a beleza da terra, as moças formosas apanhadeiras de chá, a alegria das cantigas, a folia, o perfume do campo, a linha nobre dos ritos, preocupado apenas com os aspectos humanos e com a poesia íntima das coisas.

É um livro extremamente interessante sobre a arte do chá, e no qual está contida toda uma essência poética e mística que nos abre as portas para que conheçamos os japoneses.

Adorei este belo poema em prosa que alude ao encantamento do Japão, ao fascínio da mulher japonesa, à beleza de idílicas paisagens, à poesia da vida e ao mistério de antigas lendas.

Enfim, uma obra que desperta os nossos sentidos ! ;)

( 18º livro lido em 2011 ... 2652 páginas lidas )
"O chá japonês, servido invariavelmente sem leite e sem açúcar, que lhe prejudicariam o aroma, é a bebida mais suavemente agradável que possa oferecer-se ao nosso paladar ( não de todos porém, mas um paladar sentimental, um tanto sonhador ... que nisto dos nossos órgãos de sentir há temperamentos, aptidões afectivas, características ... ). O guyokuró, por exemplo, que é o mais celebrado chá de Uji e de todo o Japão, instila tais subtilezas balsâmicas de sabor que mais parece um perfume; poderia dizer-se que uma maravilhosa alquimia conseguiu liquifazer os aromas das flores - flores dos jardins, flores silvestres -, transferindo do olfato ao paladar a impressão do gozo. Assim é o guyokuró; claro está que as palavras não podem traduzir senão por comparação as emoções sentidas; e esta, a do agridoce deliciosíssimo que nos fica nos lábios, persistindo, como na memória persiste uma reminiscência, uma saudade, é incomparável ..."

Wenceslau de Moraes in "O Culto do Chá"

sexta-feira, 22 de abril de 2011

"Li hoje quase duas páginas
Do livro dum poeta místico,
E ri como quem tem chorado muito.

Os poetas místicos são filósofos doentes,
E os filósofos são homens doidos.

Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem
E dizem que as pedras têm alma
E que os rios têm êxtases ao luar.

Mas as flores, se sentissem, não eram flores,
Eram gente;
E se as pedras tivessem alma, eram cousas vivas, não eram pedras;
E se os rios tivessem êxtases ao luar;
Os rios seriam homens doentes.

É preciso não saber o que são flores e pedras e rios
Para falar dos sentimentos deles.
Falar da alma das pedras, das flores, dos rios,
É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos.
Graças a Deus que as pedras são só pedras,
E que os rios não são senão rios,
E que as flores são apenas flores.

Por mim, escrevo a prosa dos meus versos
E fico contente,
Porque sei que compreendo a Natureza por fora;
E não a compreendo por dentro
Porque a Natureza não tem dentro;
Senão não era a Natureza."

Alberto Caeiro in "O Guardador de Rebanhos"

terça-feira, 19 de abril de 2011

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O Pastor Amoroso ( I )

"Quando eu não te tinha
Amava a Natureza como um monge calmo a Cristo ...
Agora amo a Natureza
Como um monge calmo à Virgem Maria,
Religiosamente, a meu modo, como dantes,
Mas de outra maneira mais comovida e próxima.
Vejo melhor os rios quando vou contigo
Pelos campos até à beira dos rios;
Sentado a teu lado reparando nas nuvens
Reparo nelas melhor ...
Tu não me tiraste a Natureza ...
Tu não me mudaste a Natureza ...
Trouxeste-me a Natureza para ao pé de mim.
Por tu existires vejo-a melhor, mas a mesma,
Por tu me amares, amo-a do mesmo modo, mas mais,
Por tu me escolheres para te ter e te amar,
Os meus olhos fitaram-na mais demoradamente
Sobre todas as cousas.

Não me arrependo do que fui outrora
Porque ainda o sou.
Só me arrependo de outrora te não ter amado."

"O Pastor Amoroso" de Alberto Caeiro

O Pastor Amoroso ( VI )

"Passei toda a noite, sem saber dormir, vendo sem espaço a figura dela

E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.

Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,

E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.

Amar é pensar.

E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.

Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.

Tenho uma grande distracção animada.

Quando desejo encontrá-la,

Quase que prefiro não a encontrar,

Para não ter que a deixar depois.

E prefiro pensar dela, porque dela como é tenho qualquer medo.

Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero.

Quero só pensar ela.

Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar."


"O Pastor Amoroso" de Alberto Caeiro

domingo, 20 de março de 2011

Li "Knulp" de Hermann Hesse e ...

Sinopse:
"Knulp narra três momentos da vida de Karl Eberhard Knulp, um homem alegre e conversador que, nas suas caminhadas por uma Alemanha rural, quase desconhecida, vive a transição para a vida adulta. Knulp é um poeta popular, um aprendiz que nunca chegou a estabelecer-se para exercer pacata e ordeiramente a profissão. Após o longo tempo em que se mantém à margem da chamada «vida normal», sempre em busca do sentido da amizade, do amor e da sua própria existência, é-lhe possibilitada uma compreensão mais íntima da natureza e do essencial, quando então contempla o passado e aquilo que poderia ter sido de si."


A minha opinião:
O romance, que assume a forma de três contos, centra-se na personagem de Knulp, um caminhante do mundo que continuamente vagueia e que recusa prender-se a qualquer espécie de lugar, trabalho ou pessoa.

Uma história encantadora sobre os sentimentos contraditórios de alegria e tristeza quando se é "boémio" na vida e de alma.

Enfim, mais uma "pequena obra-prima" de Hermann Hesse, imbuída de sabedoria e ensinamentos humanos.
"Cada pessoa tem a sua alma, que não pode ser confundida com nenhuma outra. Duas pessoas podem encontrar-se, podem conversar e ser bastante próximas, mas as suas almas são como flores, cada uma com raízes em lugares diferentes, e nenhuma delas pode ir ao encontro da outra, caso contrário teria de abandonar as suas raízes e isso é algo que não conseguem fazer. As flores emitem e trocam o seu aroma e as suas sementes, pois gostariam de ir ao encontro uma da outra, mas para que uma semente chegue ao lugar que lhe é destinado nada a flor pode fazer; responsável por isso é o vento, e esse chega e parte, vai e vem como e para onde ele quiser."

Hermann Hesse in "Knulp"

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Amazing Book Carvings

Advanced watch and clock repair

Organic Chemistry Butterfly Specimen Box

Webster's New World Dictionary of the American Language

Gran Enciclopedia Del Mundo

Games for Two

Louis based artist Julia Feld transforms old books into unique works of art !

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Gotinhas de Orvalho

"Gotinhas de orvalho
Ao amanhecer
São sininhos d'água
Que eu gosto de ver

Que eu gosto de ver
De os ouvir tocar
Ao amanhecer
Mesmo ao acordar

-"É bom vir à terra
Para a refrescar ..."
- dizem as gotinhas
Mesmo sem falar

E eu só de as ouvir
Ponho-me a dançar ...
Molho os pés na erva
Mas sem me importar"

Luísa Barreto in "Pelo caminho das fadas"

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Canção de Inverno

"É Inverno, está tão escuro e frio ...
Nunca uma noite tão longa se viu ...
Tudo se cala, a porta se cerra ...
Ninguém mais fala do que a noite encerra ...
As flores murcharam
Aves emigraram
E tudo dorme à face da Terra ...

E é então
Que debaixo do chão
Entre as raízes e a confusão
Algo desperta
Há gnomos alerta
Iluminando toda a escuridão

E devagar
E pé ante pé
Descem os gnomos
Pela chaminé
E sem ruído
Falam ao ouvido
Quando dormimos
Sem nos acordar

E contam histórias
Que fazem sonhar
Nos sonhos entram
Ficam a brilhar
Dão-nos presentes
Sonhos transparentes
Sonhos de luz
Para nos guiar ...

Chegou a altura
de irmos à procura
de uma outra luz que ilumine mais fundo ...

E brilha enfim
um Sol dentro de mim
O mesmo Sol que ilumina o mundo ..."

Luísa Barreto in "Pelo caminho das fadas"