domingo, 12 de junho de 2011

"Eu sou uma menina do mar. Chamo-me Menina do Mar e não tenho outro nome. Não sei onde nasci. Um dia uma gaivota trouxe-me no bico para esta praia. Pôs-me numa rocha na maré vaza e o polvo, o caranguejo e o peixe tomaram conta de mim. Vivemos os quatro numa gruta muito bonita. O polvo arruma a casa, alisa a areia, vai buscar a comida. É de nós todos o que trabalha mais, porque tem muitos braços. O caranguejo é o cozinheiro. Faz caldo verde com limos, sorvetes de espuma, e salada de algas, sopa de tartaruga, caviar e muitas outras receitas. É um grande cozinheiro. Quando a comida está pronta o polvo põe a mesa. A toalha é uma alga branca e os pratos são conchas. Depois, à noite, o polvo faz a minha cama com algas muito verdes e muito macias. Mas o costureiro dos meus vestidos é o caranguejo. E é também o meu ourives: ele é que faz os meus colares de búzios, de corais e de pérolas. O peixe não faz nada porque não tem mãos, nem braços com ventosas como o polvo, nem braços com tenazes como o caranguejo. Só tem barbatanas e as barbatanas servem só para nadar. Mas é o meu melhor amigo. Como não tem braços nunca me põe de castigo. É com ele que eu brinco. Quando a maré está vazia brincamos nas rochas, quando está maré alta damos passeios no fundo do mar. Tu nunca foste ao fundo do mar e não sabes como lá tudo é bonito. Há florestas de algas, jardins de anémonas, prados de conchas. Há cavalos marinhos suspensos na água com um ar espantado, como pontos de interrogação. Há flores que parecem animais e animais que parecem flores. Há grutas misteriosas, azuis-escuras, roxas, verdes e há planícies sem fim de areia fina, branca, lisa. Tu és da terra e se fosses ao fundo do mar morrias afogado. Mas eu sou uma menina do mar. Posso respirar dentro da água como os peixes e posso respirar fora da água como os homens. E posso passear pelo mar todo e fazer tudo quanto eu quero e ninguém me faz mal porque eu sou a bailarina da Grande Raia. E a Grande Raia é a dona destes mares."

Sophia de Mello Breyner Andresen in "A menina do mar"
"A Menina pôs a sua cabeça dentro do cálice da rosa e respirou longamente.
Depois levantou a cabeça e disse suspirando:
- É um perfume maravilhoso. No mar não há nenhum perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.
- Isso é por causa da saudade - disse o rapaz.
- Mas o que é a saudade ? - perguntou a Menina do Mar.
- A saudade é a tristeza que fica em nós quando as coisas de que gostamos se vão embora."

Sophia de Mello Breyner Andresen in "A menina do mar"

quarta-feira, 8 de junho de 2011

A retórica das sereias

"Alguns autores gregos afirmam que a sedução das sereias não estava tanto na beleza da voz, mas no conteúdo do discurso. Platão comparava o canto das sereias com a maneira de falar de Sócrates.
( ... )
Homero insiste nos dons divinatórios e proféticos das sereias. Cícero (106-43 a.C.), por seu turno, faz notar que a tentação exercida pelas sereias nos homens não incide na luxúria, mas na sabedoria. Elas oferecem aos homens a memória e o conhecimento, a inteligência suprema, a glória e o renome. Numa palavra, oferecem-lhe a imortalidade e propõem-lhes tornarem-se deuses. Qual o mortal que resiste a um tal convite ?"

Édouard Brasey in "Sereias e Ondinas"
"Eu indaguei: Mas afinal quem são o pai e a mãe do Amor ?
Isso é uma história comprida, respondeu. Todavia, vou contar-ta. Quando Afrodite nasceu, os deuses reuniram-se num festim onde, entre vários outros, se encontrava o Engenho, filho da Sabedoria. Depois de jantarem, eis que aparece a Pobreza a mendigar os restos - como é habitual em ocasiões de festa ... - e ali ficou, junto à porta. Entretanto o Engenho, já embriagado de néctar foi para o jardim de Zeus, e tão pesado se sentia, que adormeceu. Então a Pobreza, que na sua natural indigência meditava ter um filho do Engenho, deitou-se junto dele e assim concebeu o Amor. Eis a razão por que o Amor nos surge como companheiro e servidor de Afrodite: concebido nas festas em honra do seu nascimento, é, por natureza, um apaixonado do Belo, pois que Afrodite é bela. Por outro lado, a condição de filho do Engenho e da Pobreza ditou-lhe o seu destino. Condenado a uma perpétua indigência, está longe do requinte e da beleza que a maior parte das pessoas nele imagina ... Rude, miserável, descalço e sem morada, estirado sempre por terra e sem nada que o cubra, é assim que dorme, ao relento, nos vãos das portas e dos caminhos: a natureza que herdou de sua mãe faz dele um inseparável companheiro da indigência. Do lado do pai, porém, o mesmo espírito ardiloso em procura do que é belo e bom, a mesma coragem, persistência e ousadia que fazem dele o caçador temível, sempre ocupado em tecer qualquer armadilha; sedento de saber e inventivo, passa a vida inteira a filosofar, este hábil feiticeiro, mago e também sofista !
Deste modo, não é por natureza mortal nem imortal. No mesmo dia, tanto floresce e vive, segundo está senhor dos seus recursos, como morre para voltar à vida, graças à natureza de seu pai. Porém, os seus achados escapam-lhe continuamente das mãos, de tal sorte que nunca se encontra na indigência nem na riqueza: antes, num meio termo que é, de igual modo, entre sabedoria e ignorância."

Platão in "O Banquete"

terça-feira, 7 de junho de 2011

" - Dado isso, perguntei, o que será o Amor ? Um mortal ?
- Que ideia !
- O quê, então ?
- Exactamente o que disse antes: um intermediário entre mortal e imortal.
- Mas ao certo, o quê, Diotima ?
- Um génio poderoso, Sócrates ! Pois todo o ser genial é um intermediário entre o humano e o divino."

Platão in "O Banquete"
" ... também o amor não caminha sobre o solo mas antes se move e habita em tudo o que de mais brando existe. Porque são, efectivamente, os temperamentos e as almas dos deuses e dos homens que ele elege como sua morada e, mesmo assim, não indiscriminadamente: qualquer uma que se lhe depare com um temperamento rude, rejeita-a; mas àquela que possui um temperamento maleável, essa sim, passa a habitá-la. E eis por que, ao tocar com os seus pés e com todo o seu ser no que há de mais macio entre as coisas macias, possui por força, uma extrema delicadeza."

Platão in "O Banquete"

segunda-feira, 6 de junho de 2011

" ... o amor não tem uma natureza simples, bela ou feia em si mesma: é belo, se realizado com beleza, e feio, se realizado com vileza. Vileza, é quando se concede uma afeição indigna a um homem indigno; e nobreza, quando se concede uma afeição digna a um homem de bem. E por indigno entendemos justamente esse amante popular, que prefere o amor do corpo ao amor da alma, e não guarda constância porque o objecto a que se prende não é também constante: logo ao passar a flor da juventude, objecto da sua paixão, «evola-se e desaparece», renegando as suas muitas promessas e discursos. Pelo contrário, aquele que ama alguém pela beleza do seu carácter, esse permanece fiel pela vida fora, porque se funde com o que é constante."

Platão in "O Banquete"

domingo, 5 de junho de 2011

"Foi portanto Fedro, como digo, o primeiro a apresentar o seu discurso, começando mais ou menos por afirmar que «o Amor era um grande deus, um deus extraordinário aos olhos dos homens como dos deuses, por muitos e variados motivos, entre os quais avultava o da sua origem.»
Efectivamente - prosseguiu - as honras de que goza devem-se ao facto de se incluir entre os deuses mais antigos, e a prova é que não teve pais nem há poeta ou prosador algum que fale deles. Hesíodo, por exemplo, diz que primeiro surgiu o Caos,

... depois a Terra de vasto seio, suporte inabalável de tudo e o Amor ...

E com Hesíodo concorda Acusilau, que também diz que a seguir ao Caos vieram estes dois, a Terra e o Amor. Por sua vez Parménides, ao falar da Geração, afirma:

... pensou primeiro no Amor antes de todas as divindades.

E assim em variadas fontes há acordo em reconhecer que o Amor se conta entre as divindades mais antigas. Ora, é em virtude desse estatuto que dele nos provêm os maiores benefícios."

Platão in "O Banquete"

domingo, 22 de maio de 2011

"Sucedeu então, certa noite, ao celebrar-se a Festa das Luzes, que Han Fook deambulava sozinho, pela outra margem do rio. Encostou-se ao tronco de uma árvore pendente sobre a água e, reflectidas no rio, viu mil luzes sobrenadando lucilantes, e em cima dos barcos e jangadas viu homens e mulheres, e jovens donzelas cumprimentando-se mutuamente, em vestes festivas, brilhando como flores vistosas; escutou o leve rumorejar das águas iluminadas, o canto das raparigas, os acordes das cítaras e a doce melodia dos tocadores de flauta, e, por sobre todos, viu a noite azulada, pairando como a cúpula de um templo. O coração do jovem pulsava de contemplar aquela imensa beleza, ao sabor dos seus impulsos, como espectador solitário."

Hermann Hesse in "O Poeta"

sexta-feira, 20 de maio de 2011

"Peguei no cesto dela e continuámos, e os seus passos soavam em uníssono com os meus, a sua alegria harmonizava com a minha, e a floresta murmurava delicada e fresca pelos montes abaixo. Eu nunca sentira tanto prazer em caminhar. Durante um longo pedaço cantei cheio de alegria, até que tive de parar, de tão transbordante plenitude: eram coisas demasiadas as que o vale e o monte, as ervas, as folhas e os arbustos me sussurravam e murmuravam.
E considerei então: se conseguisse abarcar e cantar todas estas canções ao mesmo tempo, as das ervas e das flores, as das pessoas e das nuvens, e de tudo, a floresta e o pinhal, e também as de todos os animais, e ainda todas as canções dos mares longínquos e montanhas, das estrelas e Lua, e se em mim tudo pudesse ecoar e cantar a um só tempo, eu seria então o próprio Deus, e todas as novas canções teriam de ficar no céu como uma nova estrela."

Hermann Hesse in "Sonho para uma flauta"

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Li "Peter Camenzind" de Hermann Hesse e ...

Beleza poética e protagonistas-poetas que investem nas suas vidas com realismo, são alguns dos traços comuns nas obras de Hermann Hesse.

"Peter Camenzind" não é excepção. A sua frase de início é lindíssima: «No princípio era o mito. Deus, em sua busca pela expressão, investiu a alma de hindus, gregos e alemães com poesia, e continua diariamente derramando poesia na alma de cada criança».

Foi, não sem algum misto de ternura, que o narrador trouxe de volta à minha memória outros personagens de Hesse que tanto gostei, como Siddharta ou Goldmund.

À semelhança destes, Peter Camenzind sofre muito, à medida que vai vivenciando as mais variadas jornadas intelectuais, físicas e espirituais. No decurso das mesmas aprecia diversas paisagens da Alemanha, Itália, França e Suíça, bem como várias emoções e sentimentos contraditórios. Nos últimos anos da sua existência, praticou a doutrina de São Francisco, cuidando de deficientes.

E é aqui que conhece e constrói uma belíssima amizade com Boppi, um inválido. Vendo aumentada a sua capacidade de amar e de aperceber-se da beleza em todas as pequenas coisas do mundo, começa então uma maravilhosa reflexão sobre a humanidade.

Enfim, sobre os romances de Hermann Hesse apenas posso dizer que adoro, adoro, adoro, assumindo-se este cada vez mais como um dos meus escritores de referência ! ;)

( 25º livro lido em 2011 ... 3888 páginas lidas )

Book Rest Lamp

Visto aqui !

terça-feira, 10 de maio de 2011

"A inspiração.
A tua inspiração capta as ideias que se amontoam, como uma grande nuvem sobre o planeta.
Nuvem que foi muitas vezes baptizada como «noosfera».
No seu interior as ideias misturam-se, tornam-se híbridas, fundem-se.
Ficas a saber que as ideias são como seres independentes.
Têm a sua própria evolução, a sua própria selecção, a sua própria mutação.
São unicamente filhas dos nossos cérebros.
Já existiam antes dos humanos e continuarão a existir depois.
Umas propagam-se, outras vivem em autarcia.
Outras aguardam para surgirem só no melhor momento.
Outras planam generosamente para serem agarradas por sonhadores e artistas.
Não obstante, sabes que também tu podes colher estas ideias.
Cada vez que te apetecer, podes visitar a noosfera e retirar tudo aquilo de que necessitas para criar no teu domínio privilegiado.
Mas não esqueças de que essas ideias não provêm de ti.
A tua criatividade consistirá em ligá-las de forma diferente.
Debruça-te sobre a noosfera. A tua memória aumenta para armazenar ideias, compará-las, sistematizá-las, fazê-las evoluir no teu laboratório espiritual pessoal."

Bernard Werber in "O Livro da Viagem"

sábado, 7 de maio de 2011

"O espelho alegre e límpido da minha alma era de vez em quando ensombrado por uma espécie de melancolia mas, nessa altura, não estava seriamente turbado. Ela surgia aqui e além, por um dia ou uma noite, como uma tristeza sonhadora de solitário, mas desaparecia de novo sem rasto, regressando após semanas ou meses. Eu habituara-me a ela aos poucos como a uma amiga íntima, e não a sentia como atormentadora, mas apenas como uma inquietude e um cansaço que possuíam a sua própria doçura. Quando me acometia à noite, em vez de dormir, eu deitava-me horas seguidas no vão da janela, olhava o lago negro, as silhuetas dos montes recortados contra o céu pálido e, por cima, as belas estrelas. Depois, não raro, era tomado por um forte sentimento temeroso e doce, como se toda esta beleza nocturna me observasse com um justo olhar reprovador. Como se as estrelas, as montanhas e os lagos ansiassem por alguém que compreendesse e expressasse a sua beleza e a dor da sua existência silenciosa, como se fosse eu esse alguém, como se a minha verdadeira missão fosse a de, pela escrita, dar expressão à natureza silenciosa."

Hermann Hesse in "Peter Camenzind"