sexta-feira, 16 de setembro de 2011

"Que a vida é apenas um sonho já antes de mim outros o disseram, e é esta uma ideia que me persegue por toda a parte. Quando vejo em que estreitos limites se encerram as belas faculdades do homem; quando vejo que a sua actividade e a sua inteligência se esgotam para a simples satisfação de necessidades tendentes a prolongar a nossa pobre existência, quando considero que a sua tranquilidade, em presença de certos problemas da vida, é tão somente uma ilusória resignação, como seria a do prisioneiro cujo cárcere tivesse as paredes revestidas de pinturas atraentes e variadas, então, meu caro Guilherme, concentro o espírito em recolhimento e encontro nele um mundo de pensamentos ... ou antes de percepções confusas e de vagos desejos ... Não são raciocínios, ainda menos projectos de acção, mas intangíveis sonhos que me flutuam ante os olhos e nos quais gostosamente me perco."

J.W.Goethe in "Werther"

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Hip, hip, hippies

"E para saber quem sois e o que desejais, uma pergunta faço e uma resposta peço. Essa flor (sabei que eu gosto de flores), onde a tendes ? Nas mãos, ou no coração ? Aqui bate o ponto da minha dúvida.
(...)
Se só as mãos sustentam a flor, a vida vos tentará com muita coisa que a flor não suporta. Sei o que digo. E a mesma vida vos carregará de trabalhos e amarguras, e então a flor será pisada e lançada fora. Resta-vos o coração. Se aí conservardes a flor, se é aí que já a tendes - então guardo a vossa resposta como um sinal precioso e uma promessa. E aqui vos agradeço, esperança do mundo !"

José Saramago in "Hip, hip, hippies!"

As palavras

"As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras
estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam: são como carraças: vêm nos livros, nos jornais, nos slogans publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras.
(...)
Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão."

José Saramago in "As palavras"

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Invento

"Por que será meu amor
que sempre
na tua ausência tudo se suspende

e o vício de te ver é tanto
que em todo o sítio meu amor
te invento."

Maria Teresa Horta in "Amor Habitado"

Villa Wahnfried

"A Mãe é wagneriana - a leitora melómana já o teria suspeitado - e é das piores porque se converteu em crescida. Até idade meia madura outros deuses governaram o seu firmamento musical, mas um namorado qualquer levou-a pelos cabelos a Bayreuth e encontrou lá a sua Estrada de Damasco. Desde esse dia não falhou um festival; todos os anos a 13 de Fevereiro manda desfolhar onze rosas brancas num canal de Veneza e durante a Guerra de Espanha encomendou a um pintor catalão fugido em França que fora amigo de Juan Gris, óleos com vista da Villa a partir de daguerreótipos que lhe facultou."

José Cutileiro in "Bilhetes de Colares de A.B.Kotter"

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Regozijo

"O amor
é feito de pequenos regozijos

de pequenos caminhos
atalhos
reentrâncias

aquelas reentrâncias
que só o regozijo
chama

De pequenos objectos
que o regozijo queima."

Maria Teresa Horta in "Amor Habitado"

domingo, 4 de setembro de 2011

Tranquilidade

"És tranquilidade
o espaço
o sono
e a água

a segurança visível

o dia dentro da calma."

Maria Teresa Horta in "Amor Habitado"
"Como A.N. Whitehead afirmou celebremente, a filosofia ocidental é uma nota de rodapé a Platão e, poder-se-ia acrescentar, a Aristóteles e Plotino, a Parménides e Heraclito. O ideal socrático da vida reflectida, a demanda platónica de certezas transcendentes, as investigações aristotélicas das relações problemáticas existentes entre a palavra e o mundo, estabeleceram a via tomada por Tomás de Aquino e Descartes, por Kant e Heidegger. Assim, estes três notáveis dignitários do intelecto humano e da formação da sensibilidade - música, matemática, metafísica - subscrevem a afirmação de Shelley de que «somos todos gregos»."

George Steiner in "A Ideia de Europa"


"O café é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, para o flâneur e o poeta ou metafísico debruçado sobre o bloco de apontamentos. Aberto a todos, é todavia um clube, uma franco-maçonaria de reconhecimento político ou artístico-literário e presença programática. Uma chávena de café, um copo de vinho, um chá com rum assegura um local onde trabalhar, sonhar, jogar xadrez ou simplesmente permanecer aquecido durante todo o dia. É o clube dos espirituosos e a poste-restante dos sem abrigo. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino."

George Steiner in "A Ideia de Europa"

terça-feira, 30 de agosto de 2011

"A Europa é feita de cafetarias, de cafés.Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo.
(...)
Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da «ideia de Europa».

George Steiner in "A Ideia de Europa"
"Estar à vontade no mundo da cultura significa estar à vontade em muitos mundos, muitas linguagens: estar à vontade na história das ideias, na literatura, na música, na arte. Requer erudição e a capacidade de ver as relações existentes entre os vários mundos.
(...)
É essencial ser elitista - mas no sentido original da palavra: assumir responsabilidade pelo «melhor» do espírito humano. Uma elite cultural deve ter responsabilidade pelo conhecimento e preservação das ideias e dos valores mais importantes, pelos clássicos, pelo significado das palavras, pela nobreza do nosso espírito. Ser elitista, como explicou Goethe, significa ser respeitador: respeitador do divino, da natureza, dos nossos congéneres seres humanos, e, assim, da nossa própria dignidade humana."

Rob Riemen, Director fundador do Nexus Institute

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

"A nobreza de nascimento é puramente acidental e, por conseguinte, insignificante para mim. Procuro noutro local as fontes da nobreza, e bebo dessa nascente. Aqui, uma vez mais, podemos testemunhar o nascimento da nobilitas literaria: a verdadeira nobreza é a nobreza de espírito. As artes, as humanidades, a filosofia e a teologia, a beleza - cada uma delas existe para enobrecer o espírito, para permitir à humanidade descobrir e reivindicar a posse da sua forma mais elevada de dignidade. É a herança cultural, as importantes obras de poetas e pensadores, artistas e profetas, que uma pessoa tem de usar para a cultura animi (a expressão é de Cícero), o cultivo da alma e do espírito humanos - para que a pessoa possa ser mais do que aquilo que também é: um animal."

Carta do humanista Ulrich von Hutten a Willibald Pirkheimer

domingo, 28 de agosto de 2011

"Há Palavras que nos Beijam"

"Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte."

Alexandre O'Neill in "No Reino da Dinamarca"

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

"The End" Bookend

Visto aqui !

Poema mestiço

"escrevo mediterrâneo
na serena voz do Índico

sangro norte
em coração do sul

na praia do oriente
sou areia náufraga
de nenhum mundo

hei-de
começar mais tarde

por ora
sou a pegada
do passo por acontecer"

Mia Couto