quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Luar

"Apenas o luar chegou,
desfez-se em asas no ar.
E toda a noite levou
a regressar devagar ...

Em noites alvas, de lua,
não há nudez com vergonha.
À luz do luar, o barro
é o mármore com que sonha.

À luz do luar, as aves
nocturnas, breves, enlanguescem
e, ao seu crepúsculo da sombra,
mortas de sonho adormecem ...

Os silêncios do luar são
além de notas agudas,
são gritos paralisados
em rictos de bocas mudas!

O luar rouba ao escuro
o que de dia é segredo.
À luz do luar podemos
ver respirar o arvoredo ...

Canção ouvida ao luar
não terá ritmos perdidos
-é som vivendo no olhar
-luz que fica nos ouvidos.

À luz do luar a água
soluça todas as dores,
que à luz do luar a água
tem na cor todas as cores.

Para se ouvir, da paisagem,
as baladas de que é tema,
a luz do luar é como
o silêncio no cinema...

A fantasia do luar,
com transparências, neblinas,
ressurge as cidades mortas,
desfaz as vivas em ruínas.

Exposta ao sol uma cruz
é Jesus ensanguentado.
Mas, à luz do luar exposta,
é Jesus aureolado!

Ó luar, em gestos de ramos
e ritmos da aragem leve,
compondo bailados de anjos
entre cenários de neve!

Luar! ó íman dos longes,
com magias de holofote,
para eu ver minha sombra
a desenhar D.Quixote!

Ó luar no meu olfacto
-aroma de violetas...
breve em meu olhar:-varandas
de Romeus e Julietas...

Luar do mar todo em franjas,
às brisas numa baía
-quero embarcar nos teus barcos
de soturna fantasia!

Luar da contradição,
com luz de todo o momento,
a dar mais corpo e mais alma
a um e outro elemento!

Sagrado luar velando
a cor do meu realismo.
E, humano, colorindo
a face ao meu romantismo...

Luar! Quando cerro os olhos
és lá doçuras de bruma,
como, nos olhos dum cego,
carícias brancas de pluma!..."

Edmundo de Bettencourt in "O Momento e a Legenda"

terça-feira, 1 de novembro de 2011

"Histórias de Jazz"


Um par de horas bem passado, "ouvelendo" jazz e bebendo um praliné de amêndoa e noz! ;)

"Alguns sons emergiram de raízes profundas, que se perdem no tempo e nas almas, desde o canto ecoando nos campos, ao júbilo dourado dos metais. E era jazz.
Também o marfim e o ébano se misturaram aos sincopados tambores, em digressões de sonho e espontaneidade, no claro-escuro dos clubes míticos, nas cidades impregnadas de agitação e ritmo, ora quente, ora frio, mas sempre no coração do sentimento. E era swing.
Outra vez ressoou a voz do lamento e do piano, repetindo as frases até se transformarem em infinitas variações do mesmo desejo. E eram blues.
No entanto, continuaram nos palcos as grandes orquestras de sopros brilhantes e as figuras que cantaram um lugar também maravilhoso. E era cool.
Já universal, já nosso, em acorde de grito e liberdade, o jazz vibrou numa festa de cores."

sábado, 22 de outubro de 2011

"Portugal" de Alexandre O' Neill

"Nem só de mar é feita a minha praia
a vaga vaga que vem vindo enquanto viva
e que fica na página na forma de palavra
palavra fotográfica de coisas
e condição de paz de pensamentos
Pedra a pedra construo o meu poema
e é nele que dos dias me defendo
Nada sei de emoções manipulo morfemas
e nas cidades sinto a solidão dos campos
Humano mesmo se demasiado humano
não peço ou posso privilégios de poetas
e desconheço a carne cerebral de que careço nos
sonhos que me semeiam as semanas
cingidas de cidades sossegadas
onde só o silêncio é soberano
À arte dou o que devia à vida
vida que vai por mim contaminada
vida do largo da areia e do vento
Que as minhas palavras firam fundo."

Ruy Belo in "Pequena História Trágico-Terrestre"

"Não sei nada"

"Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu - eu e os meus irmãos - sei em que medida sou eu que sou domado por elas. A iniciativa pertence-lhes. São elas que conduzem o meu trenó sem chicote, sem rédeas, nem caminho determinado antes da grande aventura.
Sim. Conheço as palavras. Tenho um vocabulário próprio. O que sofri, o que vim a saber com muito esforço fez inchar, rolar umas sobre as outras as palavras. As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soltar. São pesadas e caem. São o contrário dos pássaros, embora «pássaro» seja uma das palavras. A minha vida passou para o dicionário que sou. A vida não interessa. Alguém que me procure tem de começar - e de se ficar - pelas palavras. Através das várias relações de vizinhança, entre elas estabelecidas no poema, talvez venha a saber alguma coisa. Até não saber nada, como eu não sei."

Ruy Belo in "Homem de Palavras(s)"

domingo, 2 de outubro de 2011

"Oh ! Que fogo devorador me corre nas veias, quando, por acaso, um dedo meu toca nos dela, ou quando os nossos pés se encontram por debaixo da mesa ! E, apesar de fugir logo com eles, como de um braseiro ardente, uma força secreta me obriga a chegá-los novamente, numa vertigem que se apodera de todos os meus sentidos ! Oh ! A sua inocência, a sua alma ingénua não sente o que estas pequenas intimidades me torturam ! E se, durante a conversa, ela pousa a sua na minha mão, ou, no interesse do diálogo, se aproxima de mim, bafejando-me o rosto com o seu delicioso hálito, parece-me que vou cair aniquilado, como que ferido por um raio ...
(...)
Junto dela perco toda a consciência de mim próprio ... é como se a minha alma se me espalhasse pelos nervos.
Há uma melodia que ela costuma tocar no cravo, com alma de anjo. Tão simples, tão espiritual ! É a sua canção predilecta. Mal ataca a primeira nota, sobre Orfeu, inquietações, mágoas e cuidados, tudo se desvanece para mim.
Nenhum dos mágicos prodígios atribuídos à música me parece inverosímil, por isso que tanto me enleva e encanta aquele tão simples trecho. E como ela sabe tocá-lo ..."

J.W. Goethe in "Werther"


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

"Que a vida é apenas um sonho já antes de mim outros o disseram, e é esta uma ideia que me persegue por toda a parte. Quando vejo em que estreitos limites se encerram as belas faculdades do homem; quando vejo que a sua actividade e a sua inteligência se esgotam para a simples satisfação de necessidades tendentes a prolongar a nossa pobre existência, quando considero que a sua tranquilidade, em presença de certos problemas da vida, é tão somente uma ilusória resignação, como seria a do prisioneiro cujo cárcere tivesse as paredes revestidas de pinturas atraentes e variadas, então, meu caro Guilherme, concentro o espírito em recolhimento e encontro nele um mundo de pensamentos ... ou antes de percepções confusas e de vagos desejos ... Não são raciocínios, ainda menos projectos de acção, mas intangíveis sonhos que me flutuam ante os olhos e nos quais gostosamente me perco."

J.W.Goethe in "Werther"

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Hip, hip, hippies

"E para saber quem sois e o que desejais, uma pergunta faço e uma resposta peço. Essa flor (sabei que eu gosto de flores), onde a tendes ? Nas mãos, ou no coração ? Aqui bate o ponto da minha dúvida.
(...)
Se só as mãos sustentam a flor, a vida vos tentará com muita coisa que a flor não suporta. Sei o que digo. E a mesma vida vos carregará de trabalhos e amarguras, e então a flor será pisada e lançada fora. Resta-vos o coração. Se aí conservardes a flor, se é aí que já a tendes - então guardo a vossa resposta como um sinal precioso e uma promessa. E aqui vos agradeço, esperança do mundo !"

José Saramago in "Hip, hip, hippies!"

As palavras

"As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras
estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam: são como carraças: vêm nos livros, nos jornais, nos slogans publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem. Há muitas palavras.
(...)
Há também o silêncio. O silêncio, por definição, é o que não se ouve. O silêncio escuta, examina, observa, pesa e analisa. O silêncio é fecundo. O silêncio é a terra negra e fértil, o húmus do ser, a melodia calada sob a luz solar. Caem sobre ele as palavras. Todas as palavras. As palavras boas e as más. O trigo e o joio. Mas só o trigo dá pão."

José Saramago in "As palavras"

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Invento

"Por que será meu amor
que sempre
na tua ausência tudo se suspende

e o vício de te ver é tanto
que em todo o sítio meu amor
te invento."

Maria Teresa Horta in "Amor Habitado"

Villa Wahnfried

"A Mãe é wagneriana - a leitora melómana já o teria suspeitado - e é das piores porque se converteu em crescida. Até idade meia madura outros deuses governaram o seu firmamento musical, mas um namorado qualquer levou-a pelos cabelos a Bayreuth e encontrou lá a sua Estrada de Damasco. Desde esse dia não falhou um festival; todos os anos a 13 de Fevereiro manda desfolhar onze rosas brancas num canal de Veneza e durante a Guerra de Espanha encomendou a um pintor catalão fugido em França que fora amigo de Juan Gris, óleos com vista da Villa a partir de daguerreótipos que lhe facultou."

José Cutileiro in "Bilhetes de Colares de A.B.Kotter"

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Regozijo

"O amor
é feito de pequenos regozijos

de pequenos caminhos
atalhos
reentrâncias

aquelas reentrâncias
que só o regozijo
chama

De pequenos objectos
que o regozijo queima."

Maria Teresa Horta in "Amor Habitado"

domingo, 4 de setembro de 2011

Tranquilidade

"És tranquilidade
o espaço
o sono
e a água

a segurança visível

o dia dentro da calma."

Maria Teresa Horta in "Amor Habitado"
"Como A.N. Whitehead afirmou celebremente, a filosofia ocidental é uma nota de rodapé a Platão e, poder-se-ia acrescentar, a Aristóteles e Plotino, a Parménides e Heraclito. O ideal socrático da vida reflectida, a demanda platónica de certezas transcendentes, as investigações aristotélicas das relações problemáticas existentes entre a palavra e o mundo, estabeleceram a via tomada por Tomás de Aquino e Descartes, por Kant e Heidegger. Assim, estes três notáveis dignitários do intelecto humano e da formação da sensibilidade - música, matemática, metafísica - subscrevem a afirmação de Shelley de que «somos todos gregos»."

George Steiner in "A Ideia de Europa"


"O café é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, para o flâneur e o poeta ou metafísico debruçado sobre o bloco de apontamentos. Aberto a todos, é todavia um clube, uma franco-maçonaria de reconhecimento político ou artístico-literário e presença programática. Uma chávena de café, um copo de vinho, um chá com rum assegura um local onde trabalhar, sonhar, jogar xadrez ou simplesmente permanecer aquecido durante todo o dia. É o clube dos espirituosos e a poste-restante dos sem abrigo. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino."

George Steiner in "A Ideia de Europa"