quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

"Booklovers" by The Divine Comedy

"Despojo"

"Já depois de colhido
pela mão do segredo,
o amor foi cortado
com a faca do medo.

Das metades mordidas
na vertente das fugas,
tão-somente ficaram:
remorsos, raivas, rugas."

David Mourão-Ferreira in "Tempestade de Verão (1950-1953)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Li "O Contrabaixo" de Patrick Süskind e ...

"O Contrabaixo" inicia-se com a segunda sinfonia de Brahms e termina com o 1º andamento do Quinteto das Trutas, de Schubert.

Nesta brilhante crítica à sociedade contemporânea, acompanhamos as divagações de um contrabaixista da Orquestra Nacional de Viena, sobre a sua vida e as suas experiências no mundo da música: a técnica de se tocar contrabaixo; o seu lugar na orquestra, que é essencial mas passa sempre despercebido; as invejas; os defeitos de alguns compositores famosos; o seu amor secreto por uma meio-soprano e até a relação amor-ódio que tem com o contrabaixo ( "E depois ponho-me a olhar para ele. E ponho-me então a pensar: um instrumento horrível! Por favor, olhem bem para ele! Mas olhem mesmo. Parece uma velha gorda. As ancas muito descaídas, a cintura perfeitamente fora do sítio, moldada muito acima e pouco estreita; e para além disso estes ombros estreitos, raquíticos e pendentes ... um desgosto! Isto acontece, porque o contrabaixo é hermafrodita, do ponto de vista do desenvolvimento histórico. Na parte inferior parece uma enorme rabeca e, em cima, uma espécie de grande viola de gamba. O contrabaixo é o instrumento mais horrível, mais pesadão, mais deselegante que jamais houve. Até parece um sátiro." ).

Ao longo do monólogo deambulamos entre reflexões sérias e profundas ( em que compara, por exemplo, a estrutura organizada hierarquicamente de uma orquestra com a sociedade humana ) e alguns momentos de humor, nos quais o nosso protagonista atribui a personalidades como Schubert, Mozart ou Wagner certas peculiaridades interessantes.
E aqui, não resisto a publicar mais um excerto em que "ironiza" com a obra "Tristan und Isolde" de Richard Wagner: " ... espanta-vos que dez por cento das pessoas sofra de depressão? Espanta-vos? A mim não. Estão a ver! É por isso que eu não preciso da psicanálise para nada. Teria sido muito mais importante, já que estamos a falar no assunto, que aqui há cem ou cento e cinquenta anos tivéssemos tido uma psicanálise. Nesse caso, teríamos, por exemplo, sido poupados a algumas obras de Wagner. O sujeito era altamente neurótico. Por exemplo, uma obra como o Tristão, a maior que ele jamais escreveu, como é que ela surgiu? Afinal só porque ele andou metido com a mulher de um amigo, que o sustentou anos a fio. Anos a fio! E esta traição, esta, como hei-de dizer, esta forma mesquinha de relacionamento mortificou-o de tal forma em relação a si mesmo que se viu forçado a fazer, segundo se diz, a maior tragédia de amor de todos os tempos. Total repressão através de total sublimação. 'O mais elevado prazer' etcetera, sabem. Naquela época, o rompimento conjugal era ainda uma coisa invulgar. E agora imaginem Wagner a ir, por causa disso, ao psicanalista! Pois ... é certo e sabido que não teria havido Tristão nenhum! Disto não há dúvida, pois a neurose só por si não teria sido suficiente. Aliás ele batia na mulher, o Wagner. Na primeira, claro. Não na segunda. Nessa, nem pensar. Mas a primeira apanhava. Em suma, uma pessoa desagradável. Pode bem ter sido um tipo extremamente simpático, insinuante a mais não poder, mas desagradável. Imagino que ele nem a si mesmo se suportava. Também andava permanentemente com eczemas na cara causados pela ... antipatia. Enfim. Mas as mulheres faziam bicha atrás dele. O tipo exercia um tremendo fascínio entre as mulheres. Difícil de compreender ..."

Nesta obra, e à semelhança de "O Perfume", deparamo-nos com um Patrick Süskind focado na mente do personagem, escavando o seu interior e revelando-nos os seus meandros tortuosos, as suas psicoses e contradições.

Apesar de ser suspeita, uma vez que o contrabaixo, a par com a harpa, é um dos meus instrumentos musicais de eleição, achei este livro fascinante.
De uma forma breve, mas interessante e divertida, o autor leva-nos a conhecer a história do contrabaixo e da música clássica em geral.
Recomendo este monólogo a todos os apaixonados por música e que gostem de alguma "acidez literária". ;)

(64º livro lido em 2011 ... 10.647 páginas lidas)

"Poema Inquieto"

"O que desejo causa-me desgosto.
O que desejo não amo.
- É um relâmpago, o que desejo,
breve passando no meu gosto.

E o meu amor anda bem longe do meu desejo.

Obedecendo-me,
às vezes
busco juntá-los.
Mas logo entre os dois me vejo,
na desolada estepe da distância,
em lágrimas de fogo a separá-los.

O que desejo sei donde vem,
sei onde vai acabar.

Mas o que eu amo? Mas o que amo é ânsia!
É o que tenho mais perto e mais distante!
Quando me sinto morto,
é uma origem de espírito,
que, misteriosa, adeja,
eterna luz ... mas instante
que me estrangula agora se possuo
e me ressurge logo quando beija.

O meu amor,
não sei donde ele vem nem onde vai acabar.

Não justifico o meu amor.

E a buscar-lhe o tamanho,
à volta do desejo,
penso no céu,
penso no mar,
no sol e nas estrelas.

Mas estas coisas grandes mais ainda amando,
todas elas, em meu amor,
já bem mesquinhas formas vão tomando.
E vejo todo o céu uma nuvem de algodão azul;
o mar um poço quase vazio;
o sol uma fogueira mísera,
extinguindo-se,
matando a luz, fonte de frio,
e as estrelas, insectos que pairassem baixo.

Não justifico o meu amor,
que, logo a um beijo seu,
qualquer milagre universal se opera:
tudo o que é enorme é já sem fim, depressa,
e para cada coisa sou visão sem fim ...

Se eu olho o sol, só vejo o sol,
bem frente à luz!
Se olho mundos a todos vejo perto
e a cada um,
porque se longe estou,
é só de mim.
Até que na minha queda,
por meu amor ainda,
um gesto da beleza me procura,
e a minha lama atingindo-o,
mesmo assim,
esse gesto me guia e me liberta
de tanta humana sepultura.

Matando o meu desejo eu continuo morto.
O meu desejo é forma, que do fogo à cinza
se completa e jamais insinua.
Porém o meu amor é alma, que se esfuma,
na terra,
e alma continua,
numa eterna inquieta miragem de céu aberto ...
Assim, de tudo o que amo ando afastado.
Ando afastado e perto!"

Edmundo de Bettencourt

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Li "Novas Cosmicómicas" de Italo Calvino e ...

Sinopse:
"Nesta nova série de Cosmicómicas, a saga de Qfwfq, estranho personagem que habita o Universo desde tempos imemoriais, continua. Através de Qfwfq, o leitor ficará a saber coisas curiosíssimas sobre a origem das aves, os meteoritos, os cristais, as filhas da Lua, as galáxias, etc.
A série termina com um excelente conjunto de Biocómicas.
O volume inclui também quatro magníficos Contos de Dedução: Tê índice zero, A perseguição, O condutor nocturno e O conde de Montecristo."



A minha opinião de leitura:
As Cosmicómicas são pequenas narrativas ou contos que começam com um parágrafo de teor científico (ou pseudocientífico) sobre as origens do universo e dos planetas.
Todavia, as explicações são propositadamente ignoradas pelo autor que, de forma desconcertante, aborda as mesmas através de um surrealismo mágico, transformando-as em histórias hilariantes e cheias de humor.
Não nos é difícil encontrar as inspirações de Calvino em figuras como Giordano Bruno, Beckett, Lewis Carroll, Borges ou o próprio marinheiro Popeye.

Assim, deparamo-nos com Qfwfq, narrador, protagonista e testemunha ocular da evolução de bilhões de anos, presente desde o momento do Big Bang.
O nosso herói fala-nos (através de originais vinhetas de BD) sobre o continente das aves, a sua origem e de como se interpretava o voo das mesmas tentando ler nele o futuro.
Assiste às quedas de meteoritos na Terra e descreve a azáfama que era varrer e limpar todos os dias as poeiras meteoríticas.
Aborda a formação dos cristais enquanto ouve Thelonious Monk. E neste capítulo, apercebo-me do quanto Italo Calvino consegue ser genialmente desconcertante ! Cristais e Thelonious Monk ... ;)
Angustia-se perante o afastamento das galáxias e sofre grandes paixões na época em que a Lua se distanciava da Terra, demonstrando desprezo ( "A Lua é velha - concordou Qfwfq, - esburacada, consumida. Rolando nua pelo céu gasta-se e despolpa-se como um osso roído." ) e sendo sarcástico relativamente às fases da Lua ( "Antigas expressões como lua cheia, quarto crescente ou quarto minguante, continuavam a usar-se mas eram só maneiras de dizer: como se podia chamar «cheia» àquela forma toda rachas e brechas que parecia estar sempre a ponto de ruir numa chuva de caliça sobre as nossas cabeças? Para já não falarmos de quando era tempo do quarto minguante ! Reduzia-se a uma espécie de casca de queijo mordida, e desaparecia sempre antes do previsto. Na lua nova, perguntávamo-nos sempre se voltaria a mostrar-se e quando tornava a despontar, cada vez mais parecida com um pente que vai perdendo os dentes, afastávamos logo os olhos com um arrepio." ).
Relata grandes tempestades solares e a existência do capitão de uma embarcação que por onde quer que andasse trazia sempre consigo perturbações eléctricas e auroras boreais.
Joga com átomos e até vive uma patética experiência de ser o último dinossauro vivo.

O livro inclui também quatro contos dedutivos, impregnados de raciocínios obsessivos e labirínticos não estranhos a certos textos de Kafka.

É uma obra excêntrica, diferente de tudo o que já li.
Não é fácil, e nem creio que seja consensual, não só devido à componente metafísica e filosófica mas também pela complexidade e profundidade do pensamento inerente.
E talvez por isso seja um dos livros mais geniais, inteligentes e surpreendentes que já passaram pelas minhas mãos !


(62º livro lido em 2011 ... 10.353 páginas lidas)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

domingo, 27 de novembro de 2011

Morte pelo Perfume

No final do século X, período em que floresceu a mais requintada literatura no Japão, destacaram-se algumas vozes femininas com contos extraordinários, romances profundos, poesia imortal e erotismo. Este conto foi escrito na Corte de Heian pela dama Onogoro:

"Houve uma vez um cortesão infiel que enganou a sua amante com três mulheres diferentes numa noite. Uma das mulheres, criada da senhora, confessou-lho a chorar, e esta, que já estava farta das asneiras do seu amante, concebeu um plano para se ver livre dele.
Na visita seguinte do cortesão, ela pediu-lhe, fingindo uma atitude meiga e confiante, que a acompanhasse até ao quarto onde se misturavam os perfumes, com o pretexto de fazerem um aroma que fosse exclusivo deles. O cortesão, que se vangloriava de ser um conhecedor da arte dos perfumistas, seguiu-a ansiosamente até ao quarto de mármore onde ferviam os recipientes das misturas, longas tiras de folhas de angélica secavam penduradas e pétalas de primavera nocturna entregavam os seus óleos sob a pressão de grandes pranchas de ferro.
Nunca dantes o cortesão cheirara tanta confluência de aromas e as suas narinas estremeceram com a harmonia de ervilhas e violetas, de madressilva e bálsamo de limão e jacinto silvestre. Ao passar junto do almofariz tirou com os dedos uma pitada de noz-moscada em pó e cravinho e esmagou os cristais da casca da árvore da cânfora, declamando, enquanto fazia isto, os bocados de poemas que lhe pareciam relevantes, porque, há que dizê-lo, tudo o que conseguia recordar eram bocados.
Escondendo o seu desprezo perante tanta auto-complacência a dama abraçou o seu amante com paixão e prometeu-lhe uma sensação inteiramente nova. Intrigado, o cortesão foi facilmente persuadido a tirar a roupa e deitar-se numa túnica que a sua amante colocara no chão.
A dama começou com gotas de lírio e cravo-de-cheiro nas têmporas do cortesão e prosseguiu em direcção à suave depressão na base do pescoço, que recebeu a potente essência de calêndula. Sob as axilas pôs mil-em-rama e genciana e continuou com as suas gentis atenções até ter distribuído as fragrâncias por todo o corpo extasiado do amante.
No entanto, o que a dama sabia era que, da mesma forma que um excesso de yin se transforma no princípio yang oposto, assim também certas doses de essências de flores curativas e estimulantes podem adquirir um aspecto negativo.
Inclinou mais uma vez os seus frascos sobre o corpo do cortesão e a mostarda mergulhou o seu amante numa profunda melancolia sem origem, a mimosa encheu-o de medo da doença e suas consequências, o pinheiro lariço convenceu-o do fracasso, o azevinho aguilhoou o seu coração com enormes ciúmes e a madressilva trouxe lágrimas de saudades aos seus olhos.
A urze, acrescentada em determinada proporção secreta, exagerou até ao extremo os desgostos mais mínimos, o zimbro desanimou-o, a climátide atordoou-o, o olmo sufocou-o com deficiências e a maçã silvestre convenceu-o de que era impuro. O botão de castanha provocou-lhe a recordação compulsiva dos seus muitos erros, e o salgueiro causou-lhe ressentimento pela boa sorte dos outros, o álamo fê-lo suar e tremer de vagas apreensões e a cerejeira convenceu-o de que a sua mente tinha falhas, a rosa silvestre resignou-o à apatia, de forma que já nem se preocupava se vivia ou se morria, mas preferiria, de uma vez por todas, a última hipótese.
Satisfeita por o ter preparado até este ponto, a dama deu mais dois toques de maçã silvestre nas têmporas para exacerbar o ódio de si próprio. Cheio de desprezo por si mesmo, o amante suplicou que lhe desse uma dose fatal para assim pagar todos os seus crimes contra ela. A dama vendo o cortesão vencido nos seus braços, teve piedade do seu tormento e pôs-lhe uma gota de acónito na língua impaciente. E assim morreu o amante infiel, nu e aliviado, e desde a morte do próprio Príncipe Luminoso que não houve outro corpo tão fragrante no seu funeral."

sábado, 19 de novembro de 2011

Razão tinha Shakespeare quando escreveu no Mercador de Veneza: "O homem que não tem música dentro de si nem se comove com a concórdia de sons melodiosos está destinado às prisões, estratagemas e rapinas. Os movimentos da sua alma são baços como a noite e as suas afeições escuras como as trevas do Inferno. Que ninguém confie em semelhante homem."

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

"Os gourmets, capazes de escolher os pratos em francês de uma ementa e discutir sobre vinhos com o sommelier, inspiram respeito às mulheres, respeito que pode transformar-se com facilidade em voraz apetite amoroso. Não conseguimos resistir aos que sabem cozinhar. Não me refiro a esses desajeitados ataviados com um gorro histriónico, que se declaram especialistas e com grandes gestos chamuscam uma salsicha na grelha do pátio; mas sim aos epicuristas que escolhem amorosamente os ingredientes mais frescos e sensuais, que os preparam com arte e os oferecem como um presente para os sentidos e para a alma; esses homens com classe para abrir uma garrafa, cheirar o vinho e vertê-lo primeiro no nosso copo para que o provemos, enquanto descrevem os sucos, a cor, a suavidade, o aroma e a textura do filet mignon no tom que, julgamos nós, utilizarão depois para se referirem aos nossos encantos. Esses homens, pensamos, terão necessariamente todos os sentidos afinados, incluindo o do humor."

Isabel Allende in "Afrodite"

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Luar

"Apenas o luar chegou,
desfez-se em asas no ar.
E toda a noite levou
a regressar devagar ...

Em noites alvas, de lua,
não há nudez com vergonha.
À luz do luar, o barro
é o mármore com que sonha.

À luz do luar, as aves
nocturnas, breves, enlanguescem
e, ao seu crepúsculo da sombra,
mortas de sonho adormecem ...

Os silêncios do luar são
além de notas agudas,
são gritos paralisados
em rictos de bocas mudas!

O luar rouba ao escuro
o que de dia é segredo.
À luz do luar podemos
ver respirar o arvoredo ...

Canção ouvida ao luar
não terá ritmos perdidos
-é som vivendo no olhar
-luz que fica nos ouvidos.

À luz do luar a água
soluça todas as dores,
que à luz do luar a água
tem na cor todas as cores.

Para se ouvir, da paisagem,
as baladas de que é tema,
a luz do luar é como
o silêncio no cinema...

A fantasia do luar,
com transparências, neblinas,
ressurge as cidades mortas,
desfaz as vivas em ruínas.

Exposta ao sol uma cruz
é Jesus ensanguentado.
Mas, à luz do luar exposta,
é Jesus aureolado!

Ó luar, em gestos de ramos
e ritmos da aragem leve,
compondo bailados de anjos
entre cenários de neve!

Luar! ó íman dos longes,
com magias de holofote,
para eu ver minha sombra
a desenhar D.Quixote!

Ó luar no meu olfacto
-aroma de violetas...
breve em meu olhar:-varandas
de Romeus e Julietas...

Luar do mar todo em franjas,
às brisas numa baía
-quero embarcar nos teus barcos
de soturna fantasia!

Luar da contradição,
com luz de todo o momento,
a dar mais corpo e mais alma
a um e outro elemento!

Sagrado luar velando
a cor do meu realismo.
E, humano, colorindo
a face ao meu romantismo...

Luar! Quando cerro os olhos
és lá doçuras de bruma,
como, nos olhos dum cego,
carícias brancas de pluma!..."

Edmundo de Bettencourt in "O Momento e a Legenda"

terça-feira, 1 de novembro de 2011

"Histórias de Jazz"


Um par de horas bem passado, "ouvelendo" jazz e bebendo um praliné de amêndoa e noz! ;)

"Alguns sons emergiram de raízes profundas, que se perdem no tempo e nas almas, desde o canto ecoando nos campos, ao júbilo dourado dos metais. E era jazz.
Também o marfim e o ébano se misturaram aos sincopados tambores, em digressões de sonho e espontaneidade, no claro-escuro dos clubes míticos, nas cidades impregnadas de agitação e ritmo, ora quente, ora frio, mas sempre no coração do sentimento. E era swing.
Outra vez ressoou a voz do lamento e do piano, repetindo as frases até se transformarem em infinitas variações do mesmo desejo. E eram blues.
No entanto, continuaram nos palcos as grandes orquestras de sopros brilhantes e as figuras que cantaram um lugar também maravilhoso. E era cool.
Já universal, já nosso, em acorde de grito e liberdade, o jazz vibrou numa festa de cores."

sábado, 22 de outubro de 2011

"Portugal" de Alexandre O' Neill

"Nem só de mar é feita a minha praia
a vaga vaga que vem vindo enquanto viva
e que fica na página na forma de palavra
palavra fotográfica de coisas
e condição de paz de pensamentos
Pedra a pedra construo o meu poema
e é nele que dos dias me defendo
Nada sei de emoções manipulo morfemas
e nas cidades sinto a solidão dos campos
Humano mesmo se demasiado humano
não peço ou posso privilégios de poetas
e desconheço a carne cerebral de que careço nos
sonhos que me semeiam as semanas
cingidas de cidades sossegadas
onde só o silêncio é soberano
À arte dou o que devia à vida
vida que vai por mim contaminada
vida do largo da areia e do vento
Que as minhas palavras firam fundo."

Ruy Belo in "Pequena História Trágico-Terrestre"

"Não sei nada"

"Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu - eu e os meus irmãos - sei em que medida sou eu que sou domado por elas. A iniciativa pertence-lhes. São elas que conduzem o meu trenó sem chicote, sem rédeas, nem caminho determinado antes da grande aventura.
Sim. Conheço as palavras. Tenho um vocabulário próprio. O que sofri, o que vim a saber com muito esforço fez inchar, rolar umas sobre as outras as palavras. As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soltar. São pesadas e caem. São o contrário dos pássaros, embora «pássaro» seja uma das palavras. A minha vida passou para o dicionário que sou. A vida não interessa. Alguém que me procure tem de começar - e de se ficar - pelas palavras. Através das várias relações de vizinhança, entre elas estabelecidas no poema, talvez venha a saber alguma coisa. Até não saber nada, como eu não sei."

Ruy Belo in "Homem de Palavras(s)"

domingo, 2 de outubro de 2011

"Oh ! Que fogo devorador me corre nas veias, quando, por acaso, um dedo meu toca nos dela, ou quando os nossos pés se encontram por debaixo da mesa ! E, apesar de fugir logo com eles, como de um braseiro ardente, uma força secreta me obriga a chegá-los novamente, numa vertigem que se apodera de todos os meus sentidos ! Oh ! A sua inocência, a sua alma ingénua não sente o que estas pequenas intimidades me torturam ! E se, durante a conversa, ela pousa a sua na minha mão, ou, no interesse do diálogo, se aproxima de mim, bafejando-me o rosto com o seu delicioso hálito, parece-me que vou cair aniquilado, como que ferido por um raio ...
(...)
Junto dela perco toda a consciência de mim próprio ... é como se a minha alma se me espalhasse pelos nervos.
Há uma melodia que ela costuma tocar no cravo, com alma de anjo. Tão simples, tão espiritual ! É a sua canção predilecta. Mal ataca a primeira nota, sobre Orfeu, inquietações, mágoas e cuidados, tudo se desvanece para mim.
Nenhum dos mágicos prodígios atribuídos à música me parece inverosímil, por isso que tanto me enleva e encanta aquele tão simples trecho. E como ela sabe tocá-lo ..."

J.W. Goethe in "Werther"