terça-feira, 30 de outubro de 2012

"Os ventos que passavam por cima da minha morada eram dos que varriam as cristas das montanhas, grávidos de fragmentos de melodia, os trechos mais celestiais da música terrena. O vento matutino sopra incessante, e contínuo é o poema da criação, mas poucos são os ouvidos para ouvi-lo."
 
Henry David Thoreau  em "Walden ou a vida nos bosques"

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

"Em vez de se autocelebrarem por meio da arquitectura, não deveriam as nações fazê-lo pelo poder do seu pensamento abstracto? O Bagavad-Gita é muito mais admirável que todas as ruínas do Oriente. Torres e templos são luxo de príncipes. A mente simples e livre não moureja sob as ordens de nenhum princípe. O espírito não é privilégio de nenhum imperador, nem são exclusivos deste, a não ser em insignificante medida, a prata, o ouro e o mármore. Com que finalidade, digam-me lá, se talha tanta pedra?"
 
Henry David Thoreau  em "Walden ou a vida nos bosques"

sábado, 27 de outubro de 2012

Li "Elogio da Loucura" de Erasmo de Roterdão e ...

Ensaio escrito em 1508 por Desidério Erasmo, mais conhecido como Erasmo de Roterdão, e publicado em 1511.
Escritor, filósofo e teólogo, esteve constantemente envolvido em questões religiosas polémicas, em pleno Séc. XVI.
 
Nesta obra, a Loucura é personificada como uma entidade viva. E é na forma encantadora de uma Deusa que vai tecendo o seu próprio elogio e conduzindo as acções humanas.
Filha de Pluto e da Juventude, nasceu nas Ilhas Afortunadas, "onde as colheitas não exigem sementeira ou esforço," sendo aí desconhecidos o trabalho, a velhice e a doença.
Foi educada por duas ninfas encantadoras: a Embriaguez, filha de Baco e a Ignorância, filha de Pã.
Do seu séquito ou fiéis servidores que a ajudam a governar fazem parte Filáucia (o amor-próprio), Colácia (a lisonja), Lete (o esquecimento), Misoponia (a preguiça), Hedoné (a volúpia), Anoia (a leviandade), Trifé (a deusa das delícias) e Morfeu (o deus do sono profundo).
 
E é nesta figura da loucura que Erasmo de Roterdão baseia-se como ponto de partida temático, tanto para servir de protecção a si próprio, como para satirizar os costumes e tradições da época, atacando o forte moralismo arquitectado na hipocrisia religiosa. Ironiza as instituições e as relações de poder, desnuda os sentimentos humanos e ataca os sábios que se colocam no direito de criar directrizes e regras sociais ouvindo apenas as suas próprias convicções.
 
Tece as mais diversas críticas aos poetas, oradores, escritores, reis, príncipes, astrólogos, filósofos.
E aqui não resisto a publicar um dos excertos, espirituoso q.b., referente à sua "opinião" sobre os últimos:
"Seguem-se-lhes os filósofos, respeitáveis pelas barbas e pelo manto e que se gabam de ser os únicos sábios do mundo, enquanto os outros homens não passam de sombras para eles. Deliram com euforia, quando criam na sua fantasia mundos inumeráveis, quando medem com o polegar ou com o cordel o Sol, a Lua, as estrelas, as esferas; quando explicam sem hesitar o raio, os ventos, os eclipses e tantas outras coisas inexplicáveis, como se fossem íntimos confidentes da Natureza, construtora do mundo, e delegados do conselho dos deuses. A Natureza, entretanto, ri-se abertamente deles e das suas conjecturas, pois nada sabem com certeza, como o demonstram as discussões infindáveis que sustentam sobre qualquer assunto. Não sabem nada e gabam-se de que tudo sabem; não se conhecem sequer a si próprios, não descortinam o fosso ou a pedra que lhes barra o caminho, quer por fadiga da vista ou por distracção do espírito. Têm, porém, a pretensão de discernir perfeitamente as ideias, os universais, as formas substanciais, os elementos primeiros, as qualidades, as asseidades, coisas tão difíceis de ver que até a Linceu escapam. Desprezam o profano vulgar, quando amontoam, uns sobre os outros, triângulos, quadrados, círculos e outras figuras geométricas, misturadas e confusas como um labirinto; quando dispõem em ordem de batalha as letras do alfabeto e lançam aos olhos dos ignorantes a poeira que os cega! Alguns predizem também o futuro, por meio dos astros, prometendo milagres que ultrapassam a magia, e têm tanta sorte que encontram gente para os acreditar."
 
Todavia, a crítica mais dura é para os excessos de uma igreja já envelhecida e conspurcada por práticas cerimoniais vazias e sem sentido.
 
Diverti-me com a leitura desta pequena obra filosófica.
Sempre actual, recomendo vivamente este inteligente sermão!
"Outra qualidade dos loucos, e que não é para desprezar, é que eles são os únicos sinceros e verdadeiros. E que haverá de mais louvável que a verdade? Ainda que um provérbio de Alcibíades, relatado por Platão, diga que ela se encontra apenas na infância e no vinho, é a mim que pertence este mérito. Tudo o que o louco tem na alma mostra-o no rosto e a sua boca di-lo sem hesitar; os sábios, pelo contrário, têm duas línguas, uma para dizer a verdade, outra para dizer o que é oportuno, como refere o mesmo Eurípedes. Sabem «fazer do branco preto», soprar no frio e no quente e evitar a confusão entre o que sentem e o que dizem."
 
Erasmo de Roterdão  em "Elogio da Loucura"

domingo, 16 de setembro de 2012

Terror de te amar

"Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa."
 
Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Coral"

Quem és Tu

"Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?
 
A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.
 
A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas."
 
Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Poesia I"

domingo, 9 de setembro de 2012

Mar Sonoro

"Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim."
 
Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Dia do Mar"

Lua

"Entre a terra e os astros, flor intensa.
Nascida do silêncio, a lua cheia
Dá vertigens ao mar e azula a areia,
E a terra segue-a em êxtases suspensa."
 
Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Dia do Mar"

sábado, 25 de agosto de 2012

Mar

"De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua."
 
Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Poesia I"

Às Vezes

"Às vezes julgo ver nos meus olhos
A promessa de outros seres
Que eu podia ter sido,
Se a vida tivesse sido outra.
 
Mas dessa fabulosa descoberta
Só me vem o terror e a mágoa
De me sentir sem forma, vaga e incerta
Como a água."
 
 Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Poesia I"

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Visto aqui !

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Como o Rumor

"Como o rumor do mar dentro de um búzio
O divino sussurra no universo
Algo emerge: primordial projecto"

Sophia de Mello Breyner Andresen  em "O Nome das Coisas"

Retrato de Mulher

"Algo de cereal e de campestre
Algo de simples em sua claridade
Algo sorri em sua austeridade"
 
Sophia de Mello Breyner  em "O Nome das Coisas"

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Esteira e Cesto

"No entrançar de cestos ou de esteira
Há um saber que vive e não desterra
Como se o tecedor a si próprio se tecesse
E não entrançasse unicamente esteira e cesto

Mas seu humano casamento com a terra"

Sophia de Mello Breyner Andresen  em "O Nome das Coisas"

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Li "A Ignorância" de Milan Kundera e ...

Neste romance de carácter introspectivo, o autor aborda directamente o problema da emigração do Leste Europeu antes e após o terminus da Guerra Fria, em Novembro de 1989.

Fala-se de nostalgia, de memória, de desenraizamento e enfraquecimento dos vínculos sociais em relação ao local de origem, principalmente quando se trata de refugiados políticos.
No entanto, a distância esmorece os laços familiares e deparamo-nos, por um lado, com um certo ressentimento por parte de quem fica e, por outro lado, com uma constante frustração em não conseguir relatar a própria odisseia, por parte de quem regressa.
A ausência de perguntas em relação aos anos passados fora do país é uma constante e tudo conspira para a destruição progressiva da vontade de voltar.
Ou seja, nesta obra o exílio é retratado não do modo como o entendemos, mas sim como um exílio que se segue ao exílio: o exílio que se vive depois que se decide voltar, o exílio de si mesmo, dentro de si mesmo, no interior de casa.

Interessante a forma como Kundera "subverteu" a noção de nostalgia:

"O regresso, em grego, diz-se nostos. Algos significa sofrimento. A nostalgia é portanto o sofrimento causado pelo desejo insatisfeito de regressar. Para esta noção fundamental, a maior parte dos Europeus pode utilizar uma palavra de origem grega (nostalgia) e, além disso, outras palavras com raízes na sua língua nacional: añoranza, dizem os Espanhóis; saudade, dizem os Portugueses.
(...)
Em espanhol, añoranza vem do verbo añorar (ter nostalgia), que vem do catalão enyorar, derivado, por seu turno, da palavra latina ignorare (ignorar). A este luz etimológica, a nostalgia aparece como o sofrimento da ignorância. Tu estás longe, e eu não sei o que te acontece. O meu país está longe, e não sei o que lá se passa."

O escritor relembra então a etimologia da palavra, que em sua origem grega remete ao sofrimento causado pelo desejo irrealizado de retornar. Esse sentimento liga-se também à ignorância. Só há nostalgia daquilo de que não temos mais notícia.

Gostei deste livro. E, para não variar, gostei uma vez mais das dissertações psico-filosóficas de Milan Kundera. Da sua imprevisibilidade. Da sua intelectualidade refinada. ;)

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Arte Poética

"A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.
Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema fala não de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, perfume da tília e do orégão.
É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato.
É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão de uma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é, da relação com uma matéria, como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia à qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz «obscuro», «amplo», «barco», «pedra» é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pelo seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o «obstinado rigor» do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si.
E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida."

Sophia de Mello Breyner Andresen  em "Geografia"

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O Poeta

"Trabalha agora na importação e exportação. Importa
metáforas, exporta alegorias. Podia ser um trabalhador por conta própria,
um desses que preenche cadernos de folha azul com números
de deve e haver. De facto, o que deve são palavras; e o que tem
é esse vazio de frases que lhe acontece quando se encosta
ao vidro, no inverno, e a chuva cai do outro lado. Então, pensa
que poderia importar o sol e exportar as nuvens. Poderia ser
um trabalhador do tempo. Mas, de certo modo, a sua
prática confunde-se com a de um escultor do movimento. Fere,
com a pedra do instante, o que passa a caminho da eternidade;
suspende o gesto que sonha o céu; e fixa, na dureza da noite,
o bater de asas, o azul, a sábia interrupção da morte."

Nuno Júdice em  "Teoria Geral do Sentimento" [1999]

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Estudo para um quadro

"O lápis, o pimento e o alho francês juntaram-se
por acaso, em cima da mesa da cozinha. Então,
poderiam ter servido para uma natureza-morta;
e um outro sentido nasceria, da sua
coincidência, se a toalha fosse azul e vermelha.
No entanto, o lápis acabou a fazer a lista das
compras, o pimento foi parar à panela do arroz
e o alho francês, cortado às rodelas, ferveu
durante uns minutos até a sopa acabar de cozer."

Nuno Júdice  em "A Fonte da Vida" [1997]

domingo, 8 de julho de 2012

Poema

"Penso na repetição que
se verifica no movimento das marés
e das luas. Existem
ciclos, como círculos, que
são previsíveis e perfeitos. Mas,
apesar disso, têm
um mistério que nem os iniciados
resolvem. Por que terá tudo de ser
assim, desde a origem até ao
fim dos tempos? Não me respondes; nem
eu esperava que tivesses a resposta,
enquanto me enchias um copo,
de acordo com a lei da gravidade."

Nuno Júdice  em "Meditação sobre Ruínas" [1994]